li.ber.da.des

ousadia. franqueza. licença. desassombro. demasiada familiaridade.

Durante um tempo, quase eterno, acumularam-se layers de medos diversos
Medo do vizinho, medo do amigo, medo do moço da esquina, medo do barbeiro, medo da senhora do peixe, medo do professor, medo do doutor, medo imenso dos ativos servos do senhor que ditava os destinos.
Medos mesquinhos alimentaram a intriga,
A pobreza de carácter tratou do resto,
Um vasto exército de civis, munidos de cérebros resignados à clausura perpétua, foram adquirindo intolerância crónica, odiavam quem arriscava outra sorte tentando desenhar outro caminho.
Sem lugar para dúvidas ou questionamentos, cada um se habituou a ocupar a função que lhe coubera em jeito de destino. abafar a brisa nova que de leve soprava converteu-se em primordial desígnio!
Assim cresceu e se fortaleceu a “tropa”, os fiéis servidores ampararam com dedicação os caprichos do ditador, cumpriram os desígnios, teceram uma rede fina, forte e resistente que atribuiu firmeza às edificações macabras de um homem só, simplório, bacoco e pequenino.
Entretanto, na surdina do anonimato, bem lá no fundo da clandestinidade, os desertores ousaram prevaricar, resistiram estoicamente à domesticação do raciocínio. Na penumbra, debaixo da escada, na cave profunda, debaixo da pedra, em papel fino e delicado gravaram as coordenadas, construíram um outro caminho.
Não foram muitos, seguiram desgastados, acossados, refugiados em lugares ermos e despidos. Os tormentos apareceram em várias curvas do caminho.
O ditador era bulímico, tinha uma fome insaciável, a tirania era o seu sustento preferido. Cada vez mais exigente na qualidade dos cozinhados, empreendeu um caminho de voraz e monstruosa criatividade. Nunca lhe faltaram chefs dedicados, alimentaram o monstro com uma imensidão de pratos sanguinários.
Certo dia, depois de muitos dias, já o ditador havia caído (por descuido sentou-se numa cadeira apodrecida) surgia a liberdade.
Na memória coletiva foram semeados os ícones do dia de festa. A flor, o soldado, a espingarda convertida numa jarra, o veículo pesado de guerra revestido de gente, mais umas quantas cenas pacíficas, ternas e amorosas pintaram de vermelho quente esse 1º dia.
Hoje, tantos dias transcorridos, festejam-se as memórias em cerimónias despidas de glória.
Faltou a inscrição, falhou a atribuição de responsabilidade, lá longe em 74, na euforia dos festejos, diluíram-se as figuras, apagaram-se os vestígios e muita gente má partiu sem acusação.
Os regressos não tardaram a acontecer, o regresso da gente má, o regresso dos medos mesquinhos, o regresso das vontades tiranas, o regresso dos homens bacocos e pequeninos.
Ontem , 42 anos depois, festejou-se o dia em que tudo parecia novo. Ontem, uma vez mais, foi lembrado o dia que anunciou a liberdade. hoje e nos próximos amanhãs a liberdade continuará a ser uma promessa adiada, por muitos desconhecida e por outros tantos odiada!

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