o português já não me chega, preciso aprender crioulo

encontros, achados, deslumbrados,
lugares apressados, habitados até às raízes
exuberantes, lotados de vida, consumida
por ausências intermináveis, saudades indeléveis,
firmam a inscrição, definem o gesto,
uma, outra, qualquer privação se ocupará do resto.
nos rostos a emotividade contida,
no corpo a sensibilidade adiada,
estou aqui, não me vês?
células individuais cerradas evitam,
atrasam a eclosão, inibem poderosos e luminosos coletivos.
estou aqui, quero estar contigo!
pessoas, muitas pessoas, com ar de gente
amparados pelo conforto de um abraço quente
alargado, imenso, forte, ruidoso
aleatoriamente desenhado pela proximidade dos encontros,
iluminado pelo desprendimento, garantia suprema da liberdade dos destinos
estamos aqui, seguimos livremente juntos e sempre que possível unidos!
as capitais agitadas
os interiores fortalecidos
entre a urbanidade e a ruralidade
os caminhos fazem-se serpenteando as curvas humanas da paisagem,
um monte, um outro logo a seguir
suas silhuetas coordenadas geográficas repletas de simbólicos sentidos.
andamos por aí, mergulhados na imensidão humana da paisagem!
São Domingos sabe a pastéis de milho
em São Jorge colhem-se os frutos das chuvas generosas de Agosto.
passará em breve uma hiace para seguir viagem,
a transbordar de gente, carregada de coisas graúdas,
o rádio sofisticado gritará persistentemente uma música agitada, desvairada
buliço doido, arriscado!
deixa’m li, de súbito alguém entoará a senha que ativa a paragem
por breves e nervosos momentos se aliviará a estafa vertiginosa da viagem.
paragem em Picos, centro da vila, banana frita à porta de casa
10 escudos, diz a menina que foi de manhã à escola.
trilhos cerrados, arriscados, mil vezes calcorreados
a paisagem faz-se humana, homens e mulheres, muitos jovens e ainda mais meninos.
estados agudos de impermanência crónica, seguimos viagem!
em trânsito, com as emoções na bagagem,
renovam-se os afectos, estimulam-se outras vontades.
a viagem segue deslumbrada pelos enredos estampados nos rostos,
histórias de rupturas emotivas camufladas
pela tenacidade com que se enfrentam os dilemas
não há tempo para fazer das rupturas problemas.
ligações afetivas preciosas, elos essenciais, pilares discretos
afecto não combina com distância.
mil outras presenças apenas reforçam a saudade, como remendar as ausências?
as cores que habitam a paisagem sucedem-se em tonalidades temporárias,
o desenho dos lugares é feito a lápis, eternos e singelos esboços que tardam em conhecer as versões a tinta
inscrição, cumpre arriscar sem hesitar, inscrever, marcar, habitar sem prazo para abalar!
as paisagens que habitamos são eternos lugares devolutos, onde se albergam os sonhos e os mapas de íntimas viagens.
tudo se suporta porque se acredita estar de passagem!
sala de embarque a céu aberto, encontra-se no desejo eterno de partida o jeito possível de coabitar com a saudade (de todos os momentos ainda por viver)
terríveis impermanências geográficas! perdemos todos, quando protejamos ser feliz em lugares onde não estamos, na companhia de pessoas que já não conhecemos!
apenas a sensibilidade nos salva em tempos de trágica instabilidade!

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