casa (sem) povo

“Através do isolamento do sujeito do rendimento, explorador de si próprio, não se forma qualquer nós político com capacidade de ação comum (…) Aquele que fracassa na sociedade neoliberal do rendimento responsabiliza-se a si próprio e envergonha-se, em vez de por em questão a sociedade ou o sistema.”

“No regime neoliberal de auto-exploração, cada um orienta a agressão em direcção a si próprio, esta auto-agressão transforma o explorado não em revolucionário mas em depressivo.” (Byung-Chul Han, Psicopolítica)

os sintomas da epidemia social que nos consome estão amplamente diagnosticados, é vasta a produção de conhecimento dedicada ao estudo de tão grave e avassaladora peste. os estudos produzidos, proporcionam uma esclarecida compreensão dos motivos que inibem a acção colectiva concertada, que pudesse operar no sentido da criação de alternativas, capazes de desconstruir as ligações mercantis que regulam a generalidade dos relacionamentos humanos.  o explorado deprimido  (ou o revolucionário em stand by) jamais terá a capacidade de gerar dinâmicas colaborativas de vida, activismo e resistência, que se traduzam em momentos de livre a apaixonada partilha. urge encontrar cura para tão perigosa doença!

a epidemia alastra, a peste atinge os mais insuspeitos, a clausura e a quarentena, desta vez, não resolvem nada. padecer sozinho e em silêncio também não tem sido grande solução!

a profilaxia neoliberal recomenda medidas de tratamento e cura, tais como, evitar exposição à consciência e à lucidez, fazer de conta que estamos sós, ignorar os problemas dos outros, alimentar criativamente a indiferença, curtir estados profundos de apatia, experimentar ser vegetal. assim, dizem, se poderão aliviar os sintomas da peste!

no entanto, e nas profilaxias neoliberais há sempre um no entanto,  nas letras miúdas do edital da prescrição, deixa-se o aviso “a utilização frequente das medidas recomendadas pode provocar efeitos sociais irreversíveis.”

Eu não arrisco, acredito na possibilidade de se conceberem outras profilaxias, continuo a bater à porta da Casa do Povo!

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