MEDO

Medo? ou tão só uma insuportável herança?

O poder político em Portugal no decurso dos últimos 40 anos, em sintonia com uma agenda global, especializou-se na agilização de expedientes burocraticamente corrosivos, através dos quais desmorona continuamente os conceitos de liberdade, democracia, justiça. educação e cultura.

A quem serve este processo de desgaste e descredibilização das instituições? porque sucede de forma dissimulada? quais os objetivos desta missão?

Boaventura Sousa Santos, refletindo sobre o atual estado das instituições, referiu que ” as ruas são hoje os únicos espaços públicos não colonizados pelos mercados financeiros e é por isso que estamos num período pós-institucional (…) as instituições estão lá, mas não estão a funcionar como deveriam, porque foram sequestradas por antidemocratas em nome da democracia.”

Este sequestro fragiliza a relação entre as pessoas e os poderes instituídos, cria tensões, gera desconfiança, potência a incerteza e vulnerabilidade que assolam e inibem a liberdade da ação humana, provocando o medo.

Na sociedade portuguesa o medo está presente, é talhado em função de objetivos delineados pelos diversos poderes instituídos, impõe-se como um instrumento de persuasão, opera no sentido de viabilizar a transição entre as nuances de regime, que têm fragilizado a liberdade da democracia, como afirmou José Gil “enquanto sociedade de transição, entre um regime de medo e um regime que produz um certo tipo de terror (da exclusão), Portugal, antes mesmo de ter conquistado e construído a liberdade da democracia, está já a perdê-la, entrando na sociedade globalizada de controlo.”

O medo, imposto pela Ditadura Salazarista, que submeteu, torturou e humilhou uma imensa parte da população portuguesa, através do esforço sofrido e a inabalável resistência terá sido inteiramente vencido?

A tragédia dos eventos conduzidos pelo autoritarismo salazarista entranhou-se nos corpos e depositou-se nas profundezas da alma, o medo instalou-se e não deu, nem dá tréguas. José Gil considera que o “o medo, sedimentado, invisível, permaneceu” pois, na sua opinião, o processo revolucionário de saída do salazarismo terá sido demasiado suave e cordial com os responsáveis pelo antigo regime, pelo que não terá provocado a necessária libertação do modelo de repressão instituído.

A cordialidade e brandura dos gestos e das ações, o medo das afirmações potencialmente geradoras de conflito, são traços vincados, herança de um temperamento moldado pelas vontades caprichosas de um ditador. O Antigo Regime foi substituído, no entanto, não terá sido totalmente vencido, pois os traços caracterizadores da sua personalidade persistem, assolam e inibem a ação coletiva e contribuem para o fenómeno da não-inscrição que caracteriza a população portuguesa.

O processo de submissão, empreendido pelo antigo regime, exigiu obediência incondicional e marcou de forma muito particular a população portuguesa. As consequências ainda se fazem sentir e determinam alguns dos comportamentos estruturantes quer individual quer coletivamente. O medo paira e regressa para assombrar os vivos, como descreveu José Gil.

“O 25 de Abril recusou-se, de um modo completamente diferente, a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo salazarista. Não houve julgamentos de Pides nem de responsáveis do antigo regime. Pelo contrário, um imenso perdão recobriu com um véu a realidade repressiva, castradora, humilhante de onde provínhamos. Como se a exaltação afirmativa da “Revolução” pudesse varrer, de uma penada, esse passado negro (…) quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afetivo (de uma força), o morto e a morte virão para assombrar os vivos sem descanso.” 

O antigo regime encontrou na prisão e na tortura, de homens e mulheres que ousavam divergir no discurso dominante, os mais fortes aliados para fazer imperar o medo, no entanto, esmo quando encarcerados, o terror físico e psicológico extremo, não fez com que os presos políticos vacilassem. O que terá inspirado essa força anímica? Que vestígios desse comportamento terão permanecido na sociedade portuguesa? O que terá restado dessa experiência de não claudicar?

O medo inibe e paralisa a ação de muitos, no entanto, não consegue submeter e oprimir inteiramente a capacidade de resistência de todos!

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