Onde estás 25 de Abril?

Esta é a tua morada
Mas não te encontro
Onde te escondes ABRIL?
Em que lugar
Te perdeste?
Em que sórdidos enredos
Te deixaste entorpecer?

Parte de mim vacila
ante o trágico homicídio
dos teus projetos de democracia,
mas não hesito,
continuo a viagem,
sigo com tenacidade e coragem,
não há obstáculos que me façam arrepiar caminho.
Procuro-te ABRIL, preciso de entender o que de ti foi real.
A voracidade do tempo abala sem piedade as convicções,
receio que tenhas sido invenção de um devaneio coletivo.

procuro-te!

preciso encontrar o que de ti foi verdade!

A tua revolução foi espezinhada por cérebros pequeninos.
Está repleta de sombras fortuitas, frouxas, cobardes, mesquinhas
que escurecem sem remorsos a frágil democracia.

ABRIL,
a tua revolução fez eclodir promessas,
desejos e vontades de liberdade
mas implodiu muito antes de conseguir acabar com a desigualdade,
os despojos desse colapso, estão por aí abandonados,
perdidos
entre a pompa da celebração esporádica e a cobardia da renúncia diária.

anseio encontrar uma razão
no meio da insuportável solidão,
recuso acreditar que te tenhas sumido!

O povo, animado pela tua jovialidade Abril,
festejou, encantado saiu à rua
iniciou um novo itinerário,
entusiasmado, deslumbrado com as novidades
que foi encontrando pelo caminho,
esqueceu a direção, ignorou a orientação!
Acreditou em fanfarrões que clamavam saber o destino.
O objetivo que parecia fácil de cumprir,
foi ficando cada vez mais impossível de agarrar.
Esse povo inebriado, fraquejou, não conseguiu transformar em realidade o sonho coletivo.

O percurso, o tal que parecia fácil, viu-se dificultado, minado,
por aqueles que chegavam dos lugares para onde haviam fugido.
Os senhores pides e suas extensas proles chegaram fortes, robustos, luzidios,
regressavam das férias prolongadas.
Lá longe, nos seus lugares encantados,
atentos ao evoluir da situação,
perceberam que o novo tempo era filho de uma revolução
que usou cravos como munição.
Os frutos da tortura ainda não haviam apodrecido!
Teria sido necessário muito mais para acabar com tão medonho legado!
48 anos de ditadura jamais se desvaneceriam com cravos e cantigas de revolução.
Confiantes, entenderam que o regresso seria tranquilo.
Fizeram-se à estrada, chegaram, instalaram-se nos seus coutos privados,
discretamente reorganizaram os seus impérios,
recuperaram força, influência e poder!

Abril,
não foi este o futuro que te desejei! 
Não foi para isto que tão zelosamente te cuidei.
Terás sido vencido ou cobardemente atraiçoado?

Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação
cantava a revolução.
O povo decorou a letra, entoou a canção, mas não lhe apreendeu o sentido!
A liberdade a sério, em fase embrionária, foi pouco estimada,
faltou a responsabilidade, o compromisso e a entrega abnegada.
Mesmo que sem liberdade a sério, foi instaurada uma pretensa democracia!

Acabou a clandestinidade,
era então possível ser oposição à luz do dia!
Chegou
a liberdade de expressão,
a autorização para promover ajuntamentos,
iniciaram-se
as conversas livres,
os pensamentos fluídos,
as discussões acesas,
os debates ideológicos
veio também
a campanha
a eleição
o voto
e a decisão!

recuo para te resgatar,
não suporto a cobardia que se instalou na tua liberdade!

Tudo parecia alinhado,
o futuro prometia ser encantado.
A causa pública, preciosa jóia desse projeto ambicioso,
pretendia implantar-se, substituir a exclusividade do privado!
Avançou determinada, fez obra,
tomou conta da praça, do  terreiro, do mercado.
Mais iguais do que antes, muitos foram estudar,
outros largaram o trabalho onde eram explorados,
uns calçaram pela primeira vez uns sapatos,
outros passaram a comer uma sardinha inteira!
Afastava-se pouco a pouco a tragédia de outros dias!
A miséria extrema viu-se substituída por penúrias mais controladas.
Entretanto,
a escola fez-se pública
a saúde prometia ser para todos
o pão, bem ou mal amassado, pretendia alimentar todas as bocas
a habitação projetada para ser camarária, comunitária, associativa, almejava dar abrigo a todos.
Foram desenhados, pintados e esculpidos muitos projetos
ricos, intensos, fizeram-se nascer fantásticas estórias!
A mobilidade social, foi por escassos momentos, uma realidade,
o conhecimento foi, durante curto espaço de tempo, passaporte para os mais diversos destinos!

Mas os senhores, os tais que haviam regressado,
estavam determinados, queriam recuperar o comando!
Dotados das melhores ferramentas,
elaboraram complexos enredos.
Foram apoiados por um bando de gente angustiada,
que havia sido espoliada do poderzinho de denunciar a vida do vizinho.
Uns com os outros, organizaram um exército silencioso e discreto,
instalaram-se sorrateiramente em lugares decisivos, recuperaram lideranças,
preencheram cadeiras esvaziadas pela revolução.
Riscaram do bilhete de identidade o sobrenome,
disfarçaram o laço que os ligava a um passado pouco digno.
Foram céleres a fazer o caminho!

Hoje estão em todo o lado, os filhos desses homens sem brilho!
Reproduziram-se como coelhos,
perfilharam, adoptaram, apadrinharam, valeu de tudo para dar a volta ao destino!
Ressuscitaram o Fado,
Re-centraram o mundo na Família,
Louvaram as mil maravilhas do Futebol.
Resgataram as mordaças, conseguiram o país estava de novo, pelo medo de existir, unido!

Abril como foi possível silenciar a tua revolução?
Porque que dinheiro se venderam os teus mais entusiastas obreiros?

As nobres e notáveis famílias foram recuperando os seus sobrenomes,
criaram fundações, instituições privadas de utilidade pública,
fizeram germinar a promiscuidade entre o público e o privado.
Fizeram ruir a escola pública,
a saúde passou a ser um excelente negócio,
a habitação, essa tornou-se feudo da especulação,
rendeu milhões ao empreendedorismo imobiliário.

Num ápice se esfumaram os sonhos de igualdade!
A democracia, era ainda uma criança,
quando quando lhe foi diagnosticada uma doença crónica,
está hoje aposentada!

Sem perder tempo,
instalou-se no seu lugar a União Europeia,
a tal que trouxe os subsídios sem fundo
os investimentos que nos levaram a alma,
por eles,
hipotecamos a vergonha, a honra e a identidade.
Vendemos o Fado, as Famílias e o Futebol,
foi tudo convertido em hipoteca de um país civicamente falido!
Reza a fábula que tudo aconteceu, porque o povo viveu acima das suas parcas possibilidades.

Abril terá sido ferida de morte a tua revolução?
Aparece, envia um sinal, ainda te restam alguns fiéis herdeiros.
Desperta desse sono demorado e escuro.
Celebra a tua própria festa!
É tempo de existires sem medo!
É tempo de afirmares a tua presença, inscreveres nas dúvidas
a vontade férrea de construir certezas.
Sacode o mofo, espanta a poeira,
Estamos aqui, somos poucos, mas fortes e corajosos.
Trazemos um pano novo, cru, limpo.
Já iniciamos o desenho de um lugar esclarecido,
fruto da Viagem à terra da verdade,
e aos sonhos de humanidade!
Aparece Abril, temos o presente para libertar, e um outro futuro para desenhar!

 

Antónia Marques, nascida em 1974

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