Escola Artística Soares dos Reis – a educação artística ainda mora aqui?

Para uma reflexão sobre a Escola Artística Soares dos Reis [parte I]

A longa história, de 132 anos da Escola Artística Soares dos Reis (EASR), confere-lhe um estatuto muito particular, pelo que seria de esperar que tivesse hoje um papel crucial na reflexão e orientação da Educação Artística, tutelada pelo Ministério da Educação, contribuindo de forma assertiva e decisiva para a melhoria da qualidade da rede do Ensino Público em Portugal, no entanto, lamentavelmente tal não se tem verificado. Essa nobre tarefa encontra-se suspensa, em virtude da escola estar há demasiado tempo tomada por uma conflituosidade interna, aparentemente insanável.
O estatuto de excepção da Escola Soares dos Reis, alcançado pela sua especificidade, em construção há mais de um século, está ferido, magoado, cansado, visivelmente extenuado… tem sofrido os mais vis ataques, necessita de ser seriamente intervencionado, para que recupere e se recomponha, pois a sua luz faz falta à Educação Artística em Portugal.

A cronologia dos eventos, que narra o passado recente da instituição, é esclarecedora, conta-nos a estória de uma escola embrulhada numa sucessão de episódios lamentáveis, sobre os quais muito haverá para escrever, a história, num futuro próximo, ocupar-se-á de relatar, com detalhe, as intrigas e os enredos sórdidos que moram neste local.
Entretanto, no presente, há que encarar um enorme desafio – tentar salvar a instituição, libertá-la dos interesses mesquinhos instalados, dos umbigos pequeninos, da falta de paixão pela criação artística, da gestão desorientada, que tem provocado feridas letais, quiçá jamais recuperáveis!
É urgente salvaguardar o interesse público, resgatar a escola das intricadas, complexas e hediondas tramas a que tem estado submetida, pelo que é imperioso promover uma séria reflexão sobre as circunstâncias e os modelos que têm (des)norteado as práticas administrativas e pedagógicas da instituição.

A  Soares dos Reis, que ainda é uma escola pública, é actualmente considerada, por muitos docentes de Artes Visuais e afins, um abrigo, um último reduto, onde é mais suportável conviver com o pesadelo de ter visto aumentada a idade para atingir a reforma. Este lugar, convertido numa espécie de última morada profissional, dá também guarida aos professores que, num passado recente, aceitaram serenamente a implosão da formação artística, que sucedeu nos currículos do ensino básico e secundário. Hoje,  vítimas do seu próprio silêncio, fogem desesperados das 10, 11 ou 12 turmas, a abarrotar de alunos, necessárias para conseguirem ter um horário completo, que justifique o seu posto de trabalho, na escola que lhes foi apresentada pelo destino. Na Soares dos Reis consideram-se a salvo desses (mas não de outros) problemas!
A Escola alberga ainda um amplo grupo de docentes de técnicas especiais. A especificidade da Soares dos Reis contribuiu também, para a criação dessa nova “tipologia” profissional, à qual o Ministério, estrategicamente,  convencionou chamar Docente de Técnicas Especializadas. Sem grupo de recrutamento, ou tão pouco enquadramento na carreira docente, encontram-se à margem dos Concursos Nacionais, pelo que são recrutados (a baixo custo) em regime de contratação direta, pelas escolas que deles possam eventualmente necessitar.

A criação dos Cursos Artísticos Especializados, lá longe em finais dos anos 80, gerou uma cisão, que ainda mora neste lugar, nomeadamente entre os Professores do Grupo de Artes Visuais e os recém criados Docentes de Técnicas Especiais. Inúmeros eventos têm contribuído para acrescentar ruído ao relacionamento, aparentemente difícil, entre esses dois grupos de professores, entre os quais se destacam as modalidades de recrutamento, o peso diferenciado que assumem nas equipas pedagógicas e a sobrevalorização das atividades de uns, em detrimento das tarefas de outros.

Têm fama e reconhecimento nacional as sui generis entrevistas, realizadas pela equipa directiva, recentemente exonerada, aos candidatos a Técnicos Especializados, o alegado descrédito relativamente ao processo de seriação é tal, que atualmente  só os menos avisados se dedicam à organização de portfólio e à preparação séria e empenhada da entrevista para a obtenção de colocação.
A autonomia para contratar, entretanto confiada às escolas públicas portuguesas, tem gerado uma série de “candidatos premiados” os quais rapidamente se convertem em subservientes e humildes obreiros, garantindo com a sua bacoca lealdade os consensos autoritários, cuidando com estima e dedicação do bafio e do bolor, que crescem viscosos em torno da claustrofóbica unanimidade, necessária para garantir a “gestão pacificada” dos estabelecimentos escolares. O impacto destas contratações na EASR, assim como noutras escolas um dia há-de ser aferido!

O espaço dedicado aos professores do grupo de Artes Visuais, considerados, até há pouco tempo, matriz essencial e definidora da EASR, foi sendo progressivamente tomado por um conjunto de práticas operativas e oficinais, desenvolvidas por um grupo extenso de Docentes de Técnicas Especiais, aos quais é atribuída a glória de terem construído uma nova identidade da escola.
O desequilíbrio instalado, pela consideração e reconhecimento profissional diferenciado, introduziu um enorme ruído nas dinâmicas de trabalho. Consequentemente, tal diferenciação tem contribuído para inviabilizar trabalhos e projetos transdisciplinares, tem feito aumentar  o reduto que cresce em torno das diferentes áreas de conhecimento, elevando os muros que se erguem em volta dos espaços oficinais de trabalho. Inevitavelmente, tais circunstâncias contribuem para o empobrecimento das experiências pedagógicas que se proporcionam aos alunos.

São inúmeros os problemas que inibem o desejável bom funcionamento da escola, o ambiente conturbado, tenso e particularmente inquinado entre docentes, será de facto aquele que mais estragos produz.
O mau relacionamento entre pares é evidente, traduz-se numa tensão constante, que se encontra na génese de uma panóplia de eventos estranhos, perfeitamente desnecessários e completamente descabidos. A arrogância no trato impera e corrói os mais básicos preceitos de educação e respeito, aniquilando qualquer hipótese de que o convívio profissional possa ser profícuo. Esses comportamentos indecorosos, lamentavelmente, intentam encobrir inseguranças, frustrações, fragilidades técnicas, científicas e pedagógicas.
As repercussões, deste relacionamento profissional disruptivo, são imensas e abalam ruinosamente os projetos, as equipas pedagógicas e as aprendizagens dos alunos. Esta despropositada “batalha campal” absorve, sem modéstia, a já tão reduzida força anímica dos professores, faz implodir as dinâmicas de trabalho colaborativas e relega para um plano terrivelmente secundário o(a) aluno(a).

O “estado da arte”, quer internamente quer a nível nacional, apontam para a necessidade profunda de repensar, de reformular, de renovar estratégias, atualizar metodologias e modelos de gestão, em prol de uma significativa valorização e inovação dos projetos da escola.
Assim, é essencial criar condições que permitam encetar um diálogo reflexivo, livre, sério e construtivo, sobre um vasto conjunto de temas, enfrentando com coragem os actuais problemas, abrindo caminho a uma renovação fundamental e fundamentada do Ensino Artístico em Portugal.
Internamente esse processo reflexivo encontra-se bloqueado por “forças ocultas” e receios infundados, teme-se que os resultados dessa reflexão possam conduzir a uma alteração profunda das rotinas pedagógicas há anos instituídas, ou que, inevitavelmente, obriguem a uma séria actualização do modelo de escola, para a qual não existe paciência nem a mínima vontade.

Interessa entender, perante este cenário desolador, como se poderá salvar e reinventar o projeto educativo e pedagógico, de forma a recuperar a jovialidade da formação artística, capaz de responder com coragem, inovação e criatividade aos desafios que se colocam à Educação Artística em pleno século XXI.
Uma escola é por natureza um “organismo vivo”, mantido e alimentado pela energia criativa de todos aqueles que fazem acontecer o seu presente, no entanto, na atual EASR, e apesar de esta ser uma Escola Artística Especializada, existe pouco disponibilidade para encarar, com a nobreza necessária, a construção do pensamento e da ação livre, crítica e genuinamente criativa.

Ensinar a SER através da Arte é uma missão suspensa na EASR, pois aparentemente os sérios e complexos problemas de gestão interna absorvem, neste momento, boa parte da energia de todos aqueles que defendem acerrimamente os frágeis interesses instalados.

A EASR é actualmente uma escola dilacerada, angustiada e sem rumo definido, que entendeu adiar, para data incerta, a eleição de um Diretor, que se apresente capaz de desenhar um plano que envolva a comunidade escolar, na definição responsável de um novo caminho!

Urge encetar a reflexão, abrir o debate, vencer os traumas, limpar a casa dos medos instalados e convidar a liberdade.
É imperioso reconstruir a seriedade e a nobreza do Serviço Público de Educação Artística.
Enquanto tal não suceder perdemos todos!

10 de junho, de 2017

Antónia Marques
Artista e Educadora

(a prazo)
Docente de Técnicas Especiais da Escola Artística Soares dos Reis

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