filme anotado [Ronda da Noite]

 

Ronda da Noite, de Tiago Resende

A Ronda da Noite

Sinopse
Um povo que se perde na noite e que renascerá numa manhã de nevoeiro, ainda com resquícios de morte. Será que desapareceu? Um fantasma ronda por um lugar, uma época que se dissipou n noite. De dia, o expoente de luz, cor e vida, é habitado por artistas portugueses que criam um olhar crítico deste Portugal. Aguarda-se com esperança um amanhecer redentor. A noite e o Dia anseiam por um tempo. O Portugal Futuro.
Palavras-Chave: Memória, Presente, Futuro, Arte

O Tiago, realizador da Ronda da Noite, lançou-me um desafio, necessitava de umas quantas palavras para acompanhar o enredo do seu filme. Escrita orientada, foi o exercício a que acedi com entusiasmo. Sucederam-se irrequietos momentos de criação, encontrar a métrica, encaixar a palavra nos recantos da fábrica, ajeitar a frase, para fluir entre a luz e a penumbra!
Segue-se a partilha das palavras anotadas, na margem do filme do Tiago!
(recomendo uma leitura acompanhada, pela visualização do filme).

ESCURO [00:00 – 03:10]

O vazio, insuportável herança,
transborda de promessas abandonadas,
de tantos compromissos suspensos!

angústia, dor, tristeza
longa a carta das emoções

anseio,
procuro-te em cada centelha
confesso,
arrepiam-me os teus novos ruídos
estranho,
encontro prazer nesses arrepios
preciosos e belos instantes
vertiginosas viagens no abismo do tempo
recuo para te resgatar

[inicia-se voz-off – 01:25]

esta é a tua morada
mas não te encontro
Francisco Gonçalves
onde te escondes? em que gaveta
te perdeste?
em que pilha de papéis
te deixaste adormecer?

parte de mim hesita, vacila
ante a trágica imponência do sepulcro
que tomou conta da tua fundição

procuro-te, preciso de entender o que de ti foi real
temo ter enlouquecido,
a voracidade do tempo abala sem piedade as convicções
receio que tenhas sido obra de um devaneio coletivo

atrevo-me,
a chave que guardei ainda abre o teu coração
magoado, abandonado
trocado por promessas de glória fácil

o silêncio escuro instalou-se
a tua penumbra foi vilipendiada
está repleta de sombras fortuitas,
desenhadas por uma luz frágil, vadia
passeia-se, sem deferência, pelos vestígios de um tempo defunto

os teus despojos abandonados,
sem honrarias ou cerimónias
desprezados, remetidos para o limbo,
enredados entre o esplendor e a poeira

não me deixo intimidar
ouso enfrentar o pó, confirmo,
celebro a tua / minha existência
reconheço-me nas tuas formas
preencho as tuas marcas
a luz, que guardas nas tuas entranhas
ajudar-me-á a diluir a escuridão que me baralha

anseio encontrar uma razão
no meio da insuportável solidão

03:00
procuro-me(nos) em ti
preciso encontrar o que fui (fomos)

LUZ 03:23 – 03:40 (vegetação)

patine verde luz, oscila devagar, respira
testemunha viçosa da oxidação temporal
de passagem, entre a última e a próxima viagem
procuramos o sol
procuramos a luz
abandonamos o mar
procuramos achar forma fácil de chegar

pelo sonho fomos
inebriados pelas promessas
tontos e agitados caminhamos,
sem mapa, ignorando o destino
seguimos, orientados pela crença
confiamos no sonho coletivo,
aclamado, adorado

milagrosa solução
apostamos tudo
deixamos no prego a nossa
vontade, empenhamos até a identidade
em prol de ti Europa
dispostos a tudo,
renovamos os votos de silêncio,
selamos as discórdias

deslumbrados,
fizemo-nos à estrada
era finalmente nossa a larga avenida,
prometida pelo consenso autoritário,
seguimos a alta velocidade

num repente, rápido, veloz de mais
o aperto impôs-se, tudo ficou curto, justo, apertado
a larga avenida desembocou num miserável beco sem saída

Europa, projecto falhado, mascarado de utopia

fizeste das nossas fraquezas a tua energia
abriste de novo as nossas envergonhadas feridas,
enganados, espoliados e de mão ainda estendida
arriscamos perceber o que resta de tão ruinosa feitoria

cicatrizes, inscrições arranhadas,
tatuagens emotivas,
não aceitamos cultivar de novo a
angustia de não termos saída

desta vez seguiremos equipados,
com detalhe ou a arriscando a falta de precisão,
com criatividade e muita emotividade
encontraremos outro rumo, um renovado aroma para este tempo

ESCURO 05:16

Arrisco adentrar a penumbra, uma e outra vez,
é longa a viagem. com a frágil luz da lanterna desenho o caminho.
rodopio, trémulo e titubeante, procuro encontrar o passado
neste lugar amplo, despido e rejeitado

circulo com precaução, para evitar perder-me no labirinto da saudade
receio alucinar.
aponto a luz, aplico o golpe, rende-te, aparece!
sei que estás por aí! vou encontrar-te!
não há parede ou breu que inibam o meu destino.

cuido de ti Francisco, amparo-te nesta solidão
entre ilusões e miragens, escuto a atualidade

LUZ 07:34

sentes? respira, é o aroma do tempo novo
veio com a luz, está a instalar-se, dizem!
oportunidade, neste lugar esventrado,
faltam os vidros, caíram-se as janelas,
é agora, entram os ventos, espantam-se as tempestades
é agora, tempo do aroma renovado

soltem-se as amarras, temos de partir,
agitar, bulir, sacudir a praga deste presente
que se viu consumido pela vontade de se eternizar

sem canduras, revolvemos-te as entranhas,
não te deixaremos adormecer
o fumo extenuado que libertas é sinal da tua vitalidade,
sim, mutilaram-te o corpo, porém deixaram-te intacta a sensibilidade

ESCURO 09:35

só agora, entendi
compreendi finalmente o que nos dizias
o aviso esteve sempre lá, expressiva mensagem, afixada em sítio fácil de visionar
o ruído, inquilino permanente da oficina, falou sempre mais alto, perturbou a comunicação não se cumpriu a tua vontade,
deixamos desprotegidas as viaturas, descuramos os objetos
à gerência nada foi entregue, pelo que não foi possível evitar a subtração

hoje, coleccionas abandonos,
acolhes brisas carregadas de destinos interrompidos,
as tuas paredes estão repletas de lamúrias e desoladores unguentos
oh Francisco! a quem confiaste a tua grandiosidade?

LUZ 11:33

aqui estamos,
somos alguns
outros estão a caminho
viemos e queremos ficar
procuramos ajustar a forma,
encontrar um jeito de te recuperar

de passagem
entrincheirados nas entranhas
resistimos
persistentes, determinados
de ferramentas criativas dotados
arriscamos, é tempo de ocupar

enfrentar o vazio, resgatar as insígnias,
do coma induzido.
queremos desenhar outros símbolos,
recuperar significado, brilho e sentido.
as estrelas douradas prometidas perderam o brio
a constelação, a tal que luzia sobre um fundo azul veludo, implodiu!
o que fazer com os destroços?

Escuro 13:23

avanço pelo corredor estreito,
recordo as intermináveis caminhadas,
calcorreei vezes sem conta as tuas ruas e vielas
perscrutei os becos, afastei sem temor intrusos e tantos outros abusos.
eis-me de volta, vigio de novo a tua noite!
vejo, nesta penumbra, o que não consegui enxergar com a luz forte do dia!

não sei o que me fez baixar a guarda,
abandonar a ronda,
desprotegido e entregue a um insondável destino

fraquejei, agora
resta-me o castigo,
oh, trágica punição!
testemunhar o teu declínio,
visitar a tua sepultura.

não foi este o futuro que te desejei!
não foi para isto que tão zelosamente te cuidei.

espelho teu, existirá alguém mais decepcionado do que eu?

Luz 15:10

nas paredes esventradas,
acumulam-se cicatrizes de feridas mal tratadas.
fios suspensos evocam ligações amputadas,
coisas pequenas,
são tudo o que restou de um reino perdido.

luz natural à espreita,
fluxo de energia vital
luz clara e branca
derradeira oportunidade
urge agarrar o sonho,

salvar a coragem para desenhar o caminho
anda daí, vem comigo procurar outra razão
traz a cola, as tintas e o lápis afiado
temos um laborioso futuro para esboçar

deixa repousar as estrelas,
sobre o templo das memórias,
erguido sobre ferrugem, ferro, latão e aço sumido

nascem novos dias neste lugar de saudade,
é preciso acordar do passado,
com preguiça, bem devagar a solidão vai deixando o lugar
empurrada pela irrequietude da gente que veio para criar.

a vida é muito mais do que uma simples soma de desilusões
é desgosto sim, mas é acima de tudo criação
vida sofrida, sentida, animada pela intensidade da entrega
revigorada pela força singular que se abre a outra revolução

corre uma nova seiva
fluído viscoso, denso, arenoso,
congela-se nele o tempo passado,
com garra e genica
criam-se outras camadas, tapam-se fendas e buracos
isolam-se as más vontades
rasgam-se documentos sem glória

na fábrica, vive-se de novo a azáfama
já não se recuperam carros, já não se fundem metais
procura-se forma de ocupar o espaço
com o que ainda temos de humanidade

ESCURO 19:15 – 20:57

perdido na noite deste lugar,
vagueio entre memórias e estórias,
longos episódios sombrios, escondem um pretérito envergonhado,
narrativas repletas de perseguições, inibições e todo o género de privações.
faço um esforço imenso para dissecar esse tempo escuro
anseio resgatar a claridade,
pôr termo à noite que se instalou no meu dia.

dói-me a vida que aqui vivi,
recordo, com angustia o que de mim deixei por aqui.

neste recanto isolado, revestido de vidro martelado,
estão arquivados os sons, as grafias e os retratos,
gravados pela sombra de um tempo conturbado.
ouso accionar o código, estabelecer por fim ligação
é hora de confrontar a lembrança!
desejo voltar, para entender o porquê, a esse passado!

LUZ  26:10

é tempo de existir sem medo,
afirmar a presença, inscrever na dúvida
a vontade férrea de construir certezas.
já sacudimos o mofo, espantamos a poeira,
colocamos no lixo fardos de hábitos velhos.

pano cru,
tela limpa,
lugar esclarecido,
fiel depositário da esperança,
achada numa curva apertada do caminho.

o engenho coletivo,
opera desembaraçado,
neste lugar (de)novo,
ergue-se a estrutura,
amplia-se a partilha.
é dia de festa, aqui criamos o futuro.
exibimos com orgulho as provas,
foi frutuosa a viagem à terra da verdade,
visitamos por aí vários sonhos de humanidade.

27:15

com rigor, prudência e sensibilidade imensa,
cuidamos de encontrar uma forma sincera de revelar
documentos, provas, retratos falados e fotografias,
queremos compartilhar, convidar outros a viajar.

ocupamos este nobre espaço com deferência, mas sem reverência.
a fábrica, outrora lugar do orgulho que comovia a população,
desperta com talento, de um sono demorado e escuro.
espaço luminoso, albergue de novas vontades coletivas,
não sucumbiu à passagem, arrisca continuar, ainda que por outra via,
a projetar um rumo para chegar lá chegar!

hoje, aqui na fábrica,
outrora morada de Francisco Gonçalves,
é dia de celebrar a criatividade,
expôr sem vergonha as fragilidades,
refletir sobre os pedaços de luz,
que ousam habitar este lugar!

ESCURO 29:23

procuramos o sol
encontramos apenas e de novo a penumbra
aceitamos a caridade em troca da vitalidade
queríamos o estatuto que as tuas estrelas prometiam
és mais uma palavra que termina em OPIA
mais uma tatuagem emotiva
miragem perdida na paisagem

solução fácil
redenção de todos os pecados
promessas caras, frustradas
estranha forma de converter o sonho em pecado

pobres, andaram baralhadas, mal acompanhadas
mil vezes policopiadas
impressas em papel de rascunho
perderam o brio, conviveram com os piores parceiros

aí se enterram, aí se abandonaram em sorte e em destino.

Antónia Marques, 2016

 

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