Escola da Ponte, 41 anos após a sua criação, permanece exemplar único do ensino público em Portugal!

Escola da Ponte, 41 anos após a sua criação, permanece exemplar único do ensino público em Portugal!

“É uma escola reconhecida mundialmente pelo seu projecto inovador, pois desde 1977 que o lema desta escola é “tentar fazer crianças felizes” e baseia-se na autonomia dos alunos e professores, assim como, rompe o sistema padrão de seriação/ciclos adoptado pelas restantes instituições de ensino em Portugal e grande parte do mundo.
É uma escola com práticas educativas alternativas, desde 1976, que se afastam do modelo tradicional. embora se insiram num método de Ensino designado por indirecto.
Tem como máxima o ensinar a liberdade responsável e a solidariedade.
Assim como os alunos são educados para serem cidadãos, exercitando a cidadania. São chamados a praticar a democracia dentro da própria escola, como cidadãos autónomos. Na prática, tal como numa democracia directa, organizam assembleias gerais e debates para resolverem problemas de disciplina e outros entre eles. O aluno e mesmo o professor que desrespeitar as regras, predeterminadas por eles mesmos, é convidado, perante todos, a reflectir e pronunciar-se sobre seu comportamento dentro da escola.O espaço é estruturado de modo que todos possam trabalhar com todos. Nenhum aluno é aluno de um professor só, nem um professor é professor só de alguns alunos.”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte

 

A Escola da Ponte acolheu, em pleno regime ditatorial português, um pequeno grupo de docentes inquietos, preocupados, ativa e criticamente atentos à adequação das suas práticas letivas às reais necessidades individuais dos seus alunos. As sinergias que entre si criaram, a partilha e a pesquisa conjunta, consolidaram as bases sob as quais assentaria o Projeto de Escola Alternativa da Ponte.

O contexto difícil, em que esses professores deram forma a um projeto educativo inovador, jamais serviu de justificação para lhes conter o ímpeto, ou para adiar a responsabilidade, perceberam, a tempo, a fundamental relevância da sua profissão, e consequente função social, pelo que, em equipa, procuraram criar um caminho novo, alternativo, repensando as práticas pedagógicas, de forma a que pudessem honrar o compromisso estabelecido com seus alunos, o meio e suas famílias, na consolidação das competências que lhes permitissem desenhar expectativas e projectar em liberdade o futuro.

Os desejos e sonhos de mudança viram-se concretizados, nasceu em 1977 uma outra escola pública, exemplar único, capaz de atender às necessidades individuais dos alunos, em estreita relação com as suas realidades locais e seus contextos familiares.

Os nobres objetivos, as preciosas e iluminadas práticas educativas, a constante fundamentação das ações, a gestão horizontal (onde se tomam decisões por consenso), o indomável ímpeto de mudança, são aspetos que definiam a matriz do Projeto.

Em 2005, após 28 anos de relacionamento difícil com a tutela, a Escola viu finalmente reconhecido o seu mérito e carácter de excepção, celebrou com o Ministério da Educação o Contrato de Autonomia, o primeiro do País para uma escola pública de ensino não-superior.

Estranhamente, 41 anos após a sua formulação inicial, a Escola Pública Alternativa da Ponte, continua a ser um caso isolado, apesar de ser publicamente louvada e considerada exemplar, não mais se repetiu a experiência em “solo público” sob a alçada do Ministério da Educação português.

A ampliação do Projeto Alternativo, criado no seio da Escola da Ponte, teria sido perfeitamente normal, no entanto, tal nunca sucedeu.

É recorrente e hiper-abundante a citação da Escola da Ponte, como exemplo de modelo educativo alternativo, as maravilhas da sua estrutura e do seu modus operandi, são propaladas a sete ventos, as suas virtudes elogiadas, as suas conquistas escalpelizadas até ao osso, no entanto, raramente se reflete sobre a ausência da disseminação, de tão exemplar projeto, a outras escolas públicas!

Creio que jamais terá sido ambição dos mentores da Escola da Ponte, convertê-la num exemplar único de Educação Alternativa em Portugal, de certo nunca terá sido sua intenção montar em São Tomé de Negrelos um altar de devoção, ou inscrever a localidade num trilho de raras excentricidades pedagógicas!

A unanimidade superficial, a adoração despida de apego sincero, o consenso acéfalo, erguidos em torno da nomeação da exemplaridade da Escola da Ponte, sem qualquer exigência de ampliação a outros estabelecimentos públicos de ensino, reforçam a anulação da sua singularidade, da ambição formativa rebelde inscrita na sua matriz!

A alternativa pedagógica da Ponte, apesar do percurso solitário que tem efectuado, tem dado provas bastantes de eloquência e sucesso, no entanto, o seu funcionamento continua restrito a uma única escola pública, o que justificará este isolamento?

Será que a tutela teme o impacto positivo que a generalização, de tais ousadias pedagógicas, poderia ter na implementação do seu requintado modelo de sub-desenvolvimento educativo?

Existirá uma insanável divergência de objetivos e finalidades, entre a formação que a Escola da Ponte tenta promover e a formatação que o Ministério da Educação e seus acéfalos obreiros tentam “vender”, como via única de acesso a um lugar no mercado?

O professor raro, o esclarecido que ainda não perdeu o ímpeto, o tal que entende o papel fundamental da sua profissão, bem como a capacidade que detém de operar fundas e significativas transformações sociais, entende, com total clareza e lucidez, os motivos que justificam a ausência de projetos pedagógicos alternativos nas escolas públicas portuguesas!

A vulgarização da nomeação da exemplaridade da Escola da Ponte, terá tido início após um longo período de quarentena, durante o qual as instâncias de poder cuidaram de eliminar qualquer perigo de contágio!

José Pacheco, um dos mentores da Alternativa, encontra-se actualmente a disseminar a sua obra no Brasil pois, de certo terá entendido, que a sua profissão se exerce onde quer que exista uma instituição escolar interessada em cuidar, de forma séria e empenhada, da formação do alunos / cidadãos.

A Escola Pública da Ponte segue seu caminho pedagógico solitário, enquanto uma multidão de gente especializada no ensino (apesar de jamais terem leccionado uma única aula em suas vidas), reunida em fóruns de reflexão sobre os benefícios das excentricidades educativas, continua a nomear e a citar as maravilhas e os feitos da Escola da Ponte, como se de uma novidade se tratasse!

A calamidade pública há muito está instalada no Ensino Público, sabem disso os professores, os alunos e seus Encarregados de Educação, no entanto, foi firmado um pacto, onde as partes em estreita cumplicidade, prometem eterno silêncio! Apesar das divergências insanáveis, existente entre os diversos intervenientes, foi possível atingir o acordo, sem necessidade de recurso a concertação social! A força desse contrato reside num (de)interesse comum e amplamente generalizado, as partes envolvidas abominam o conhecimento, em todas as suas dimensões, bem como o impacto transformador que o mesmo poderia assumir na definição das suas vidas individuais e colectivas!

Se, a tempo, quem pôde não teve vontade de ampliar a alternativa, hoje haja decoro e decência no recurso à citação da Ponte, como a escola maravilha,  pelo respeito que merecem aqueles que, fora do pacto do silêncio, continuam a pugnar, com coragem e ousadia pelo conhecimento, enfrentado em cada escola os monstros desvairados que abominam as alternativas

 

Antónia Marques

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