Impermanência geográfica induzida, ao serviço da implosão [espetacular] da sociedade civil!

Impermanências Geográficas

No final dos anos oitenta e início dos anos noventa, os acontecimentos políticos conduziram a uma desintegração da ordem mundial (…) A ordem anteriormente vigente está a ser substituída por tendências de globalização, com efeitos em todo o mundo, causando o surgimento de novas cartografias mentais e assim exigindo sistemas de coordenadas radicalmente diferentes. Duas estratégias de reação estão a tornar-se visíveis: por um lado, existe o retorno a uma compreensão estática e defensiva da localização própria, destinada a garantir algum tipo de estabilidade (espaço de regressão, ethnospace), e por outro, a possibilidade daquilo que pode ser considerado como uma localização mais flexível do self, que se destina a garantir um meio de orientação dentro dos emergentes meta-espaços resultantes da mobilidade global (espaços mundo/ espaços trânsito). (Arns, 1997)

A mobilidade entre classes sociais, em virtude da igualdade de oportunidades de acesso à cultura, educação, saúde, emprego, cuja generalização um dia se acreditou ser possível, encontra-se hoje suspensa. A mobilidade geográfica impôs-se em sua substituição. As crescentes movimentações de pessoas e bens, ficam a dever-se essencialmente às excêntricas e imprevisíveis vontades de um mercado voraz, sem rosto, sede ou geo-localização permanente.

O desenraizamento das populações que se movem, à procura de soluções que viabilizem suas vidas,  produz uma angustiante ausência de envolvimento com os lugares, provocando uma trágica diluição das responsabilidades coletivas, dos direitos e deveres cívicos de participação, intervenção e construção social.

Um amplo e meticuloso quadro de circunstâncias, conduziram à emergência de espaços mundo /espaços trânsito. Espaços onde todos somos migrantes latentes, assim o mercado resolva converter, alterar ou reposicionar o rumo das suas intenções financeiras, vivemos encravados entre uma comunidade internacional pouco solidária e um mercado global devorador.

Os migrantes representam os temores da falta de meios de subsistência, do exílio forçado, da degradação social, da exclusão extrema, definitiva, do sermos relegados para um não-lugar, alheio ao universo da lei e dos direitos, e deste modo, encarnam todos aqueles medos existenciais subconscientes ou parcialmente conscientes que atormentam os homens e mulheres de todas as sociedades líquido-modernas. (Bauman, 2013).

Num contexto extraordinariamente ambivalente, as relações que se estabelecem entre os homens e mulheres em trânsito e os poderes dominantes, estão impregnadas de um catastrófico desequilíbrio.

Os movimentos de pessoas, em busca de zonas de conforto, bloqueiam a fundação de uma empatia identitária mais afetiva e efetiva com os lugares, os conceitos de morada e profissão permanente, dão lugar à vertigem provocada pela iminência de um permanente estar em trânsito em busca de uma vida diferente e melhor. Pelo que o envolvimento, em processos coletivos que impliquem um compromisso com a comunidade a médio e longo prazo dificilmente ocorrem.

A inibição em curso, decorrente do estar de passagem, promove a superficialidade das relações de responsabilidade cívica entre as pessoas e os lugares por onde passam, os conceitos de residência e de comunidade surgem apenas em jeito de lembrança saudosa, pontual e esporadicamente.

As características que definem este tempo difícil em que estamos submersos encontram-se disseminadas pelo vasto e diversificado território mundial, têm caminhado no sentido de normalizar as virtudes e agudizar os problemas, convertendo distâncias em proximidades, redefinindo periferias e centralidades, introduzindo novos conceitos de vizinhança. Esta longa, agreste e predadora empreitada tem avançado contra tudo e todos aqueles que, de alguma forma, tentam obstaculizar a voracidade dos modelos delineados pelos poderes instituídos.

Este processo de facilitação da aproximação global, apresenta-se sedutor e fascinante, os desenvolvimentos tecnológicos são fortes aliados, pois efetivam e reduzem distâncias geográficas de modo vertiginosamente acelerado, no entanto, o conjunto de atributos positivos proporcionados pelo processo de normalização globalmente imposto é amplamente ultrapassado por uma imensidão de aspetos negativos, de consequências trágicas para a vida das populações em todo o planeta, que nos tem conduzido a um novo totalitarismo, o Globalitarismo.

A globalização é, de certa forma, o ápice de internacionalização do mundo capitalista. (Santos, 2000)

Milton Santos, controverso Geógrafo Brasileiro, refletindo sobre os processos que têm originado a drástica degradação das condições de vida da maioria dos indivíduos, identificou a tirania global do dinheiro e da informação como principais responsáveis, no entanto, considera que as sequelas, associadas ao empobrecimento crescente das massas, poderão assumir formas de transformação incontroláveis, pelo que acreditou existirem condições para a criação de Uma Outra Globalização, tema explorado pelo autor num livro assim intitulado.

Esta análise é partilhada por um conjunto de pensadores os quais, com a tenacidade do seu trabalho, vão oferecendo resistência à crescente vontade, dos poderes instituídos ao serviço do mercado capitalista neoliberal, de fazer vingar o pensamento único. A persistência, a coragem e a solidez dos argumentos veiculam uma mensagem de extrema preocupação para com as lamentáveis condições de vida de uma grande maioria da população do mundo financeiramente globalizado. A possibilidade de reverter os processos de degradação da vida quotidiana das pessoas parece não ser viável, o discurso global dominante veicula a impossibilidade de se repor o equilíbrio.

Aqueles que são marginalizados pelas estratégias financeiras, as quais convertem o mundo num frenético e desumanizado mercado, poderão assumir um papel interventivo e decisivo na mudança de rumo e na definição de alternativas, numa tentativa de suprir aquilo que Boaventura Sousa Santos considera estar em falta “um pensamento alternativo sobre as alternativas”. (Sousa Santos, 2015)

Implosão espetacular da sociedade civil

Diversas circunstâncias têm contribuído para a alteração das dinâmicas de envolvimento das populações nos processos cívicos de tomada de decisões.

A fragilidade e a precaridade dos vínculos, profissionais, afetivos, geográficos, entre outros, impõem-se. As populações em trânsito movem-se entre condições de vida adversas, procuram adaptar-se aos modelos de vida em permanente transformação. Neste enquadramento, as responsabilidades cívicas encontram-se suspensas, a participação consciente nos processos cívicos, em prol da construção de uma sociedade civil mais justa, informada, educada e equilibrada, encontra-se adiada.

Esta suspensão acelera o processo de diluição da sociedade civil, enfraquecendo as hipóteses da organização e estruturação de caminhos que se possam constituir como alternativas às narrativas da desgraça, impostas pelos discursos dominados pelos consensos autoritários.

Consequentemente, o espaço esvaziado de intervenção, em virtude da suspensão do processo de participação cívica, está disponível para outras formas de ocupação.

A ausência de organização social, fundada em contendas cívicas, é colmatada pelos ajuntamentos de massas, espetacularmente concebidos, numa tentativa de corresponder às necessidades individuais associadas ao estar entre os outros, e o envolvimento na defesa coletiva de causas comuns.

A alienação do espetador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive: quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. (Debord, 2003)

Guy Debord em 1967, em reflexão sobre a “Sociedade Espetáculo”, referiu que ela ter-se-á instalado em diversas dimensões da vida social; desde então o poder espetacular concretizou-se de modo abrangente, os lugares, anteriormente dedicados a manifestações artísticas, vão sendo ocupados por demonstrações de espetacularidade, frequentemente ligeiras e folclóricas. Esta ocupação tem sido contagiante e apresenta a possibilidade de qualquer um poder ser o espetáculo e brilhar, ainda que momentaneamente, num improvisado palco, com direito a uma vasta e impetuosa audiência.

Nos territórios assim ocupados será possível agir/intervir de forma a suspender o processo, aparentemente irreversível, de “submissão” às regras da espetacularização?

A manutenção de um ambiente de festa permanente, onde existe sempre algo para celebrar ou festejar, ocorre sob a égide de planos de recuperação, intervenção prioritária, reabilitação, múltiplos sinónimos para uma intenção única, descaraterizar espaços e objetos em prol da construção de cenários sedutores e repletos de memórias feitas à medida. Nesse sentido, é de referir a pertinência da abordagem dos autores Lipovetsky e Serroy, ao consideraram que “… o património é reformado, reabilitado, e quando não satisfaz suficientemente as exigências da aparência, não se hesita em construir o falso antigo. A cidade-museu é uma cidade limpa, maquilhada, protegida, oferenda aos prazeres estéticos das multidões turísticas: ela constitui a apoteose urbana do processo de estetização hipermoderna do mundo.” (2014).

Os meios de comunicação social têm sido cúmplices desses processos de espetacularização, promovendo a mediatização dos episódios vulgares, banais e acessórios onde o cidadão comum é o principal ator, preenchendo assim, uma parte significativa das agendas de programação de canais televisivos, da imprensa escrita, etc. Os processos de híper exposição da vida particular e íntima desses atores têm sido recorrentes, a renovação dos modelos e formatos de exibição tem sido constante, de forma a manter elevados os níveis de atração.

As redes sociais assumiram também um papel determinante nesse contexto, criando um novo espaço de exposição, onde a agilidade e instantaneidade dos procedimentos operativos rapidamente convertem um anónimo em “celebridade”. Numa curiosa e polémica abordagem a estas temáticas, Byung-Ghul Han em “A Sociedade da Transparência”, considera que “o exibicionismo e voyeurismo alimentam as redes enquanto panóptico digital (…) A sociedade do controlo consuma-se onde o seu sujeito se desnuda não por coação externa, mas por força de uma necessidade gerada em si próprio, ou seja, quando o medo de ter de renunciar à sua esfera privada e íntima cede à necessidade de se exibir sem vergonha”. (2014).

Não se pretende adotar uma leitura condescendente relativamente do comportamento do cidadão comum que decide espontaneamente, aderir a estes processos de mediatização/ espetacularização massiva, procura-se sim compreender o que alimenta a sua motivação e o seduz.

Os fenómenos de sedução têm feito um percurso notável, encontram-se em acelerada transmutação, reinventam constantemente a forma como se apresentam, Guy Debord, em finais da década de 60, debatia-se com a análise das transformações em curso, considerando que “a origem do espetáculo é a perda da unidade do mundo (…) O que une os espetadores não é mais do que uma relação irreversível com o próprio centro que mantém o seu isolamento. O espetáculo reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado.” (2003).

Esse processo, de perda de unidade do mundo, onde os espetadores são reunidos em função de critérios associados ao mundo do show permanente, ainda se encontra em acelerada expansão e reinvenção, a exploração das potencialidades decorrentes das sinergias estabelecidas pela ação coletiva concertada, continua a suceder, quase apenas e só, para dar origem a eventos onde se promove a banalidade, superficialidade e frivolidade dos encontros, momentos que “…espelham os desígnios desta civilização do espetáculo que nos habituamos a aceitar com passiva indiferença.” (Chafes, 2012)

Em nome dos poderes e das forças misteriosas instituídas, envolvem-se as populações em encontros dedicados a um suposto exercício de cidadania, envolvidos pela promessa da experimentação de um conjunto de sentimentos esfusiantes capazes de lavar as almas e aliviar consciências. Os momentos banais da vida quotidiana dos cidadãos anónimos são fonte de inspiração para novelas mediáticas espalhafatosas, acompanhadas por milhões de atentos, motivados e alienados fãs.

A mediatização espalhafatosa ocorre em ritmo frenético e acelerado, apresenta-se como um jogo aparentemente acessível e bastante sedutor, uma transferência do exercício da cidadania ativa. Nela se esgota a responsabilidade e a participação social, de uma extensa maioria da população. Multiplicam-se os acontecimentos de carácter sensacionalista, programados, que disciplinam e conduzem à sistematização e manutenção da passividade e da indiferença. Em “A Sociedade do Cansaço” Byung-Chul Han, filósofo de nacionalidade coreana, polémico e provocador, considerado uma das vozes filosóficas mais inovadoras da atualidade na Alemanha, referiu que “o cansaço da sociedade de produção é um cansaço individual que separa e isola” (2014a, p.52), a suspensão dessa separação e isolamento acontece, de forma calculada, para dar lugar a megaeventos, momentos de hiper-socialização em prol de “causas comuns”, promovidos pelas autodenominadas indústrias criativas, financiadas por rentáveis operações económicas sombrias, onde se celebra a magia do encontro, do coletivo, em jeito de catarse non sense.

“Formas alternativas de vida limitam-se a despertar um tipo de interesse de espetador perante um espetáculo de variedades cintilante e apimentado (…) mas tão pouco um sentimento de camaradagem;” (Bauman, 2007, p.283). As entidades impulsionadoras do espetáculo conhecem minuciosamente os comportamentos sociais dos indivíduos, percebem a importância da “camaradagem”, pelo que gerem meticulosamente os elementos, para envolver os participantes numa dimensão lúdica e /ou solidária que lhes proporcionará um sentimento de “dever cumprido”.

Antónia Marques
(In, “Em trânsito, pela Criação de Lugares Indisciplinados”, 2015)

 

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