Palavras escritas em voz alta!

Privatizaram as estantes de sol na Cidade Alta
privatizaram o mar, o céu e as estrelas
e o povo angolano entrou
na escuridão mercadológica
a morder os frutos da zunga
e a fugir porrada da polícia
com uma mão na frente e outra
atrás do sonho que privatizaram.
(“Privatizaram os Monumentos”, José Luís Mendonça)

Fala escrita, a propósito das palavras ditas, em voz alta, pelo poeta que veio de Angola, me diz ainda.

1º andar
edifício antigo,
sala exígua,
paredes de papel escrito,
são miolo,
são corpo,
são folhas reunidas
são páginas de livro.

Loja idosa,
lugar arquivo,
tempo suspenso,
albergue clandestino
lugar a prazo,
dependente
de um quase vencido contrato de arrendamento

Enclave entorpecido,
isolado,
assiste às vicissitudes,
que consomem a cidade,
através de uma montra de vidro fino.

No entre tanto
enquanto as ondas de choque,
provocadas pelo meteorito capital,
que se abate sobre a cidade,
não quebram o fino vidro,
preenche-se a acústica da sala
com som sustenido,
ecoado pela palavra dita,
a alta voz.

Alto, de pé,
perto de uma pequena mesa redonda,
José Luís Mendonça diz
como se encontra dilacerado
seu país,
palimpsesto de sonhos
jamais alcançados.

Fala de um país, ainda, destroçado,
violentado,
por múltiplas injúrias e explorações.

O homem, poeta,
fala do chão que conhece,
eterno campo de batalha
onde a maioria das pessoas
(sobre) vive tremendamente mal.
Atormentada pelo medo,
pela falta de pão,
em permanente luta diária,
encravada entre a desprezível realidade
e a urgência de ter algo para vender no mercado!
Angustiada
por não saber como escrever futuro,
por ter de conter e esconder suas paixões!

O discernimento que alimenta
a lucidez da escrita,
do homem poeta,
tem preço elevado,
empunhar a palavra
para contar a verdade,
pode, no seu país instável,
ser ato punido com pena de prisão.

As palavras que nos trouxe,
faladas e impressas em papel novo,
eram já antigas,
permaneceram longo tempo escondidas,
por receio das manobras pervertidas
impostas pelo Ngola autoritário!
Assim disse o cidadão poeta.

Liberdade proscrita,
mal maior
sintoma de doença global,
fatal
que transforma
países em condomínios privados,
pessoas em angustiados cativos.
Sofremos (quase) todos do mesmo mal!

O homem, alto,
cuidador de palavras,
respira fundo,
sorve com sofreguidão o ar
que dizem ser novo,
enche de fôlego a escrita,
mas, não está capaz, ainda, de anunciar se o tempo é verdadeiramente outro!

Do alto da sua escrita,
não consegue vislumbrar
o projeto de mudança,
socialmente ambicionado,
falta a nitidez da ação do governo
para consolidar a pretensão do povo!

Do alto da sua escrita
olha em redor,
reconhece sem dificuldade os traços,
os sulcos profundos,
cavados pela dor,
imposta pela força armada do colono!

Do alto da sua escrita,
verifica,
a força armada do (novo) colonizador
ainda que disfarçada e multicolor,
dotada de total insensibilidade à dor,
mantém-se implacável na arte de provocar e ampliar o terror!

As palavras com que o poeta vê o mundo,
falam de um país onde mora uma imensa juventude,
abandonada, dilacerada, desorientada,
sem escola capaz de ensinar a ler a vida!

Estamos mergulhados numa tragédia comum,
pensamento livre, crítico e desalinhado
não servem o capitalismo,
não interessam à globalização!

tragédia tamanha,
ser fonte “inesgotável”,
de bens com elevado valor,
transacionados sem pudor,
num desumano mercado!

Antónia Marques

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *