Conversar – a sério!

a fala escrita
não tem
pretensão de ser
género ou estilo,
nada tem de literário.

a fala escrita
é registo, simples
de vocábulos afoitos,
impossíveis de deter
ou arrumar num canto do pensamento,
indomáveis, clamam mergulhar
na volúpia de uma conversa – a sério.

palavras inquietas,
avessas a condicionamentos,
amam de paixão
a fala eloquente,
o argumento inteligente,
o confronto aguerrido,
gostam de exaltar a emoção!

obstáculos intransponíveis,
desafios impraticáveis,
não constituem crise ou problema,
os vocábulos, rebeldes criaturas,
aprenderam o poder da organização,
sabem empunhar frases curtas,
no momento certo,
sabem discurso de luta,
sabem como enobrecer e defender causas minoritárias!

esses vocábulos redondos
não temem monstros absolutos
nem discursos serôdios,
medo de facto não sentem,
mas,
conhecem
uma angústia triste,
sempre que a conversa se vê bloqueada
pela declarada inexistência de pessoa[s]
com quem trocar argumentos!

não há como empreender uma conversa – a sério,
quando o interlocutor se revela incapaz de respeitar a palavra ou de compor pensamento!
o bloqueio da fala, embora medonho, não tem força capaz de inibir o seu registo,
guarda-se a grafia do discurso,
na esperança de que surja um leitor – a sério
pessoa[s] sem medo de mergulhar apaixonadamente na conversa até que falhe o ar!

a minha fala escrevinhada
não é presumida,
é garbosa,
sim, gosta de exibir sem modéstia
a paixão assolapada que sente pela palavra – a sério!

 

aprecio que me vejam
prezo que me leiam
mas,
gosto mais que me conversem.
vem, demora-te por aqui um pouco, vamos conversar!

Antónia Marques

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