Anotações ilustradas, d’après “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”

“A versão abreviada do mundo foi tornada possível por uma concepção do tempo presente que o reduz a um instante fugaz entre o que já não é o que ainda não é. Com isto, o que é considerado contemporâneo é uma parte extremamente reduzida do simultâneo. O olhar que vê uma pessoa cultivar a terra com uma enxada não consegue ver nela senão o camponês pré-moderno.
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A contracção do presente esconde, assim, a maior parte da riqueza inesgotável das experiências sociais no mundo.
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O que está em causa é a ampliação do mundo através da ampliação do presente. Só através de um novo espaço-tempo será possível identificar e valorizar a riqueza inesgotável do mundo e do presente. Simplesmente, esse novo espaço-tempo pressupõe uma outra razão. Até agora, a aspiração da dilatação do presente tem sido formulada apenas pelos criadores literários. Um exemplo entre muitos é a parábola de Franz Kafka sobre a precariedade do homem moderno comprimido entre dois fortes adversários, o passado e o futuro.
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O objetivo da sociologia das ausências é transformar objetos impossíveis em possíveis e com base neles transformar as ausências em presenças. Fá-lo centrando-se nos fragmentos da experiência social não socializados pela totalidade metonímica
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A segunda lógica assenta na monocultura do tempo linear, a ideia de que a história tem sentido e direcção únicos e conhecidos. Esse sentido e essa direcção têm sido formulados de diversas formas nos últimos duzentos anos: progresso, revolução, modernização, desenvolvimento, crescimento, globalização. Comum a todas estas formulações é a ideia de que o tempo é linear e que na frente do tempo seguem os países centrais do sistema mundial e, com eles, os conhecimentos, as instituições e as formas de sociabilidade que neles dominam. Esta lógica produz não-existência declarando tudo o que, segundo a norma temporal, é assimétrico em relação ao que é declarado avançado. é nos termos desta lógica que a modernidade ocidental produz a não-contemporaneidade do contemporâneo, a ideia de que a simultaneidade esconde as assimetrias dos tempos históricos que nela convergem.”

Boaventura Sousa Santos
Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, out 2002 237-280

Anotações ilustradas, d’après
“Para uma sociologia das ausências
e uma sociologia das emergências”

RODAR / Norte_Sul [montes ao Douro, Picos e Serra Malagueta] Antónia Marques, 2018

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