Liquidação Total [os vendilhões do templo]

 

Parte I

A cidade do Porto, à semelhança do que sucede noutras urbes do dito mundo globalizado, encontra-se sitiada, sob o jugo de um maquiavélico plano de ocupação, que visa a sua total rendição aos caprichos do poder capital. Esse processo de liquidação, meticulosamente traçado, por entidades públicas e privadas, tem alcançado sem oposição ou sombra de resistência os seus mais sórdidos objetivos, a dimensão desse desgraçado sucesso reside, em grande medida, na eficácia implacável da sua preambular fase de implementação (ocorrida nas décadas de 80 e 90, do século anterior), inteiramente dedicada à orquestração de uma incondicional aceitação do programa de invasão cidade, concretizada através da manipulação e instrumentalização dos habitantes nativos!

Reza a história (recente) que a população autóctone terá sofrido danos morais irreparáveis e graves ilusões, em virtude de ter sido exposta, sem adequada proteção, a um extenso rol de manobras de distração. A confusão criada, pela dimensão das artimanhas, terá afetado irreversivelmente o discernimento do dito povo, pois jamais terá suspeitado do embuste em que estava a ser enrolado.
Os efeitos da exposição desencadearam uma profunda mutação – o povo seduzido e deslumbrado pela exuberância do recreio, aceitou trocar o estatuto de nativo por um free pass para shows e eventos – a fantasia recreativa terá assim, de forma expressiva, vencido a maçadora realidade!

A eficácia, dessa fase primeira, assegurou a sua inscrição nos anais da história, sob o epíteto “grandiosa era da salvação”, ainda que na verdade, a sua implementação se tenha traduzido numa sumária liquidação da identidade da cidade!
O resgate estratégico, premeditadamente arquitectado, foi aplicado em momento concertado, num cenário concebido à medida – a urbe encontrava-se gravemente doente, padecia de um galopante processo de degradação, considerado, pela maioria, consequência inevitável da passagem do tempo – por cima do seu granito sujo e envelhecido, carcomido até às entranhas, os profetas do resgate fizeram assentar um chão de madeira prensada, a base do estaleiro erguido para acolher o plano de salvação da cidade.
Entre as entidades promotoras da empreitada, encontram-se todo o tipo de vendilhões  – gestores públicos, consultores imobiliários, marketeers, agentes da especulação e uma casta restrita de investidores obstinados – não há “templo” que resista à voracidade dos seus apetites económicos! Seus currículos estão impregnados de imoralidades, exercem um leque diversificado de funções, trabalham todos para o mesmo dono – o Sr. Capital.
Esses mercenários da alta finança são alérgicos a códigos de conduta, prestam devoção às folhas de cálculo, não estabelecem relações afetivas com humanos, só têm olhos para a bolsa onde o mundo guarda as moedas de ouro!

Antónia Marques

 

[under construction]

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