Fala escrita em cima da Fraga

Fala escrita em cima da Fraga

[parte primeira]

Gosto de tatear o mundo, de-vagar, com a palma das mãos e com a planta dos pés, encontro nesta minha predileção, desde sempre assumida com apaixonada veemência, forma de colher um imenso património sensorial – energia vital, que atribui plasticidade às recordações e textura às memórias.
Acomodo livremente os frutos, dessa farta colheita, num amplo terreno emotivo. Nesse lugar, perfumado por aromas sem idade, existe um miradouro, plantado em cima de uma fraga, vistosa proeminência granítica onde, em consciência, num tempo bastante recuado, terei firmado pela primeira vez os pés. 
Percebi, recentemente, a fundamental relevância desse momento inaugural, pois ter-se-á então operado, de forma simples, uma ligação tátil arrebatadora que, para sempre haveria de ficar inscrita na epiderme que reveste a planta dos meus pés.
Jamais fui pequena de altura, mesmo quando fui pequena de idade, sei hoje ter aprendido a valorizar a elevação de carácter nesses lapsos de tempo em que, descalça, em cima da fraga alta e quente, me dediquei a mirar o mundo de uma perspectiva elevada. 
Lá no alto, nesse púlpito de granito, proferi memoráveis discursos, ante uma audiência esplendorosa – a paisagem que cresce atrás-dos-montes. A magnitude dessa plateia foi sempre fonte de inspiração e entusiasmo, celebrei, em cada vocábulo aventado, o aroma da terra recém-molhada, prestei tributo às virtudes do sol, à liberdade inquieta do vento e evoquei os caprichos da água da chuva.
Meus pés cresceram, despidos, nesse chão sincero, agreste, concreto, imenso, percorri sem limitações todo esse corpo nu terrestre, trouxe, dessas longas caminhadas à terra da fraga – Aldeia (da) Mãe, coisas em pedaços, sem aparente serventia ou significado, reservei esses achados numa saca de pano estampado com a inscrição things i can’t live with out. 
No solo, desse lugar bizarro, está depositado um impressionante acervo de suspiros antigos. Escutei com a palma das mãos os sussurros dos pés de videira, dizimados pela filoxera; os gemidos do volfrâmio, abafados pela bipolaridade dos aliados; os murmúrios dos filhos legítimos, concebidos em leitos bastardos; as lamentações dos escombros, restos mortais de paixões ilegais; os queixumes dos compromissos, assassinados por ilusões e promessas aventureiras. 
Tateei cada centímetro desse chão sofrido, palpei as suas fendas, frustrações, e cicatrizes, compreendi a origem dos gemidos, percebi o significado da melodia desconcertante que têm a capacidade de gerar – é o desígnio da denúncia, assumido em consciência, sem medo das punições que possam eventualmente desencadear!

 

A terra da fraga é uma aldeia escondida atrás dos montes (Sabrosa, 2018)

 

Na Terra da Fraga mira-se o mundo de um perspetiva elevada (Alto Douro Vinhateiro, 2018)

 

Na Terra da Fraga existe um depósito de suspiros, protegido por agulhas afiadas, cedidas pelos pinheiros (Sabrosa, 2018)

 

Na Terra da Fraga os pinheiros têm dores de resina (à procura do Vale-dasGatas, 2018)

 

Na Terra da Fraga existe uma Paisagem Esplendorosa, que cresce rebelde atrás de cada monte (à procura do Vale-das-Gatas, 2018)

 

Antónia Marques

 

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