fincar os pés no (m)ar de Salamansa

 

[ata em fio de norte, sobre areia de Salamansa]

 

gosto de tatear o mundo, de-vagar, com a palma das mãos e com a planta dos pés, encontro nesta predileção, desde sempre assumida com apaixonada veemência, forma de colher um imenso património sensorial – energia vital, que atribui plasticidade às recordações e textura às memórias

[fala escrita a propósito de Salamansa]

fincar os pés no (m)ar de Salamansa
para observar de-vagar
a partir do leito as margens da ilha que tem Mindelo no centro

[arqui.grafias persistentes de sal e poeira ]

 

chão de Salamansa
é diálogo
é confronto
é entreposto
à margem, o apelo perpétuo do mar
adentro, a vertigem do monte que se desfaz no ar
terra laboriosa,
clausura a céu aberto

 

fincar os pés no (m)ar de Salamansa
para observar de-vagar
a condição de viver encalhado sobre o chão de uma ilha cercada de inibições por todos os lados.

[paisagens mentais  erguidas sobre terra vermelha ]

obra de sal e poeira,
é leito sem água potável
é chão despojado de vontade
é cabelo crespo atrapalhado
é pele curtida pela saudade,
paisagem persistente
edificada por um mar de gente inquieta

 

fincar os pés no (m)ar de Salamansa
para observar de-vagar
como ligar o wireless à rede de pesca

[a água de todos os dias esqueceu-se de nascer neste txon]

terra (sala) mansa
retiro forçado, 
morada de promessas vitalícias,
ninguém merece a pena de viver enclausurado
na inércia da gente de estado

 

fincar os pés no (m)ar de Salamansa
para observar de-vagar
a substituição do exercício da cidadania pelo jogo da desigualdade

[ caminhos divergentes sobre solo fervente ]

 

falta fleuma, vontade
falta garra à juventude imensa para erradicar com vigor a resignação que tolhe a liberdade,
falta aprender a pronunciar, na língua (da) mãe, desobediência e contestação! 

 

[ tronos de madeira real, à porta do Sr. Armando ]

 

sala (mansa) de gente nobre,
respeitáveis velhos, 
guardiães do tempo,
proeminentes figuras de relevo social
sobre os seus tronos de madeira real,
à porta dos aposentos,
proferem, sem dizer palavra, eloquentes discursos,
oferecem a quem ousa demorar-se ante sua presença
belíssimas e elegantes coreografias, 
ensaiadas na correnteza de outros oceanos!

 

fincar os pés no (m)ar de Salamansa
para observar de-vagar
a substituição do exercício da cidadania, pelo jogo da virtualidade

[ re.creio amplo, após a hora de minguarda]

 

nas rugas das memórias da gente mais velha
está inscrita a estória do chão que se dissolve no mar,
responsabilidade imensa, 
cuidar do património, 
evitar que se dilua na areia e se perca nas profundezas do oceano,
aperto no peito, angústia sem medida,
ante a incapacidade de inscrever na firme epiderme da juventude a herança social imaterial
generation gap é sarilho global com tradução em crioulo!

 

[ paisagens mentais em movimento ]

 

fincar os pés no (m)ar de Salamansa 
para observar de-vagar
que quem aprende a viver desconectado da realidade, só tem olhos para o mundo digitalizado!

2 thoughts on “fincar os pés no (m)ar de Salamansa

  1. Gostei do texto e da composição fotográfica de uma parcela da minha Ilha-berço . Visitei Salamansa poucas vezes e espero lá voltar dentro de poucas semanas.

  2. Salamansa, uma parcela da minha Ilha-berço. Gostei do texto e das fotografias. Dentro de semanas vou revisitar Salamansa e ”rolá n’areia, passá sô sab” como disse um poeta e compositor. Saudações.

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