No colo do vulcão

é de génio e fibra essa gente do Fogo,
que teima viver no colo do vulcão.
será loucura ou amor puro,
prezar viver na caldeira
onde ferve a próxima eclosão?

não é anarquia, é estado 
esse lugar derramado
em permanente re-bulição

chão culto e elevado,
sobrevivente, parente próximo das nuvens, 
riscado pela agreste lava recém-vertida,
é relevo negro,
forjado pela cadência do coração que irrompe da terra!

solo delirante, consumido pelo derrame fervente 
que cobriu de rigorosa penumbra as casas, os campos,
as videiras, as maçãs pequenas os legumes e as verduras,
seu calor lancinante queimou, outra vez, 
sonhos, lares, lágrimas e abalou de novo a esperança!

o chão da caldeira é um caderno de notas
amplo, vivo e ilustrado em permanente combustão!

a ação coletiva 
quebra o luto da paisagem,
preenche os silêncios e os vazios,
aconchega a ânsia de voltar a ter esperança,
cultiva a paciência, 
fala de morada e de pertença!

as mãos re-unidas esquartejam a lava
pedaço a pedaço,
vira pedra de estrada, roda parede de funco!
pedaço a pedaço,
crescem paredes sobre telhados,
suspensos entre uma e outra erupção!

à noite, no pico dessa ínsula ardente,
apaga-se o céu e sobre a terra cai uma brutal ausência, 
os sentidos entorpecidos e desorientados, 
abandonam o corpo, 
temem mergulhar para sempre na silenciosa escuridão!
sensação estranha, ansiar pela luz e ruído 
para recuperar da tontura e vislumbrar de novo o mundo!

viver entorpecido pela vertigem de ser inquilino de um vulcão 
não é missão, não é destino, é decisão!

o habitante de Chã das Caldeiras não teme viver ao colo do Vulcão, 
teme abalar da sua terra e morrer sobre outro chão!

 

[ do que vi, ouvi e senti sobre chão de Fogo, ao colo do vulcão]

Antónia Marques

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