tempo de minguarda

1.
março,
tinha tudo para ser um mês igual aos outros,
[quase] nada sugeria o contrário,


os hábitos enfadonhos e as rotinas banais 
garantiam estabilidade à passagem do tempo,
as atividades [escolares],
sucediam-se ordeiramente, sem novidade ou surpresa 

a papelada do costume, acumulava-se nos locais de sempre,
as conversas triviais, pavoneavam-se em todos os cantos e esquinas
os olhares vazios vagueavam sem abrigo
os rostos esmaecidos ocultavam, sob espessas camadas de fond teint, angústias antigas
os movimentos entorpecidos prestavam tributo ao tédio instituído

2. 
o mês 
deslizava sereno entre as noites e os dias 
[quase] nada perturbava a máquina de produzir quotidianos


o corpo [docente] quebrado
padecia de um extenso rol de fábulas e mitos,
que justificavam a sua falta de valentia
os filhos, os netos, as prestações da casa, a mudança de carro, 
a casa da aldeia, a mulher-a-dias, 
o medo de perder o direito de ir duas vezes por semana ao cabeleireiro, 
o pânico de ter um horário de trabalho incompatível com a pacata repetição do dia-a-dia!

sem razão, emoção ou vontade de ter opinião,
esse corpo [doente], 
há muito vivia confinado, encontrara no bloqueio intelectual voluntário 
forma de se proteger das urgências e dos caprichos da liberdade!

3. 
março, efetivamente 
decorria com normalidade,
ainda que o normal fosse apenas uma ilusão coletiva 

mas, 
num ápice, o devaneio colapsou 
o tempo rendeu-se à aritmética da calamidade 
as horas perderam a utilidade,
a curva da pandemia substituiu os ponteiros do relógio!

uns confessaram-se surpreendidos, outros embasbacados, 
os mais afoitos, clamaram que a praga made in China não justificava semelhante aflição.

porém, a indisciplinada epidemia,
aproveitando o alheamento e negligência da generalidade dos mortais, 
arranjou forma de dar a volta ao mundo em meia-dúzia de voos,
num abrir e fechar de malas instalou-se nos cinco continentes,
pelo caminho fez implodir as rotinas e a pacatez da vida-de-todos-os-dias!

4. 
o terceiro mês do ano,
afinal padecia de uma grave maleita e não sabia,
regurgitou uma pandemia,
que virou do avesso o calendário [escolar]

parte do tal corpo [docente], desmembrado por uma série de enfermidades,
viu sua condição agravada pela urgência da calamidade,
encontrava-se desabilitado para lidar com as inusitadas ocorrências, 
pelo que se limitou a aguardar pelas instruções,
para saber como sumariar a exponencial entropia!

os escrevinhadores oficiais tentaram administrar essa emergência 
com planos [de contingência] e directrizes errantes,
o recurso à multiplicação de papelada destituída de utilidade pública, 
foi considerada, por esses inábeis de serviço,
a melhor forma de conter a rebeldia da peste!

mas, 
rapidamente se percebeu 
que a epidemia desprezava a literatura desnecessária 
e tinha uma ambiciosa agenda de expansão!
pelo que,
os programas de salvação nacional, 
alinhavados a destempo,
se revelaram incapazes de impedir a eclosão do dantesco turbilhão de peripécias,
que tornou o ar infeccioso.

5. 
março 
viu-se forçado a revisitar 
o seu legado romano
invocou Martius, 
e a tradição antiga,
suspendeu [quase] tudo 
e deu início a outra forma de narrar o tempo


o miserável desempenho dos administradores do planeta
liberalizou a circulação dos agentes infecciosos entre humanos,
a capitalização das suas inábeis governanças,
rendeu à nova doença o estatuto de pandemia,
era dia 11 de março e, em solo luso, a vida [escolar] de-corria!

uma suave tristeza tomou conta de alguns rostos
era sinistro o tempo que acabara de chegar,
o sol despedia-se do mar sem o poder tocar.

incapaz de processar tal comoção,
o corpo [docente],
habituado a encarar o presente com apatia,
limitou-se a cumprir a desdita do costume,
enfiou-se, com a restante população [escolar],
nas salas [de aula] habituais, 
destituídas de janelas para vislumbrar o mundo!

porém,
o surto cresceu, 
a apatia sucumbiu,
a rotina virou entropia  
e [quase] tudo foi suspenso.

a iminência do contágio forçou a reclusão a mudar de residência,
ainda era março quando, em solo luso, a vida [escolar] foi interrompida!

6. 
março, 
mês excêntrico,
enleado entre a aurora e a escuridão, 
foi tomado pelo dia eterno,
por tempo [ainda] indeterminado 

o rigor da calamidade, 
que virou o quotidiano [escolar] do avesso,
é produto de uma sinistra obra coletiva, em constante progressão!
de negligência em negligência, 
de delito em delito,
essa ação conjunta tem fomentado a ruína das estruturas [de ensino] 
e a decadência dos seus recursos [humanos].

os despojos dessa guerra ruinosa,
desprovidos de ornamentos, 
foram compelidos, pela urgência da pandemia 
a sair à rua num dia assim… eterno 

vítima de incúria prolongada, 
esvai-se, nesse tempo vago, o corpo [docente],
num confrangedor estado de emergência,
enterram-se as relações humanas numa multiplicidade de transações binárias,
num segundo se arruma a vida toda numa versão digital do mundo!

na penumbra de uma primavera adiada, 
as conversas remotas sucedem-se 
através de uma paranóica multiplicidade de ecrãs,
é a vida [escolar] do futuro, que chegou adiantada, 
clamam, entusiasmados, os famigerados gestores da ruína globalizada!

fincado num confinamento solitário
o corpo [docente] perdeu o lugar de fala
não consegue perceber que
é tempo de minguarda,
é hora de salvar as memórias,
para evitar continuar a viver entorpecido!
[ *do crioulo cabo-verdiano – a hora em que o sol está a pino ]

“o futuro só é tempo quando chega”
de permeio, o perene e a (datilo)grafia do (iso)lamento 
[d’après Oswaldo Osório]
na imagem, sala [de-aula] com futuro ao fundo
na imagem, paisagens simultâneas, em movimento
na imagem, memórias de uma aula perto do mar, sob a hora de minguarda

Antónia Marques
março, 2020

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