d’après Oswaldo Osório

Escrevo para fugir à ditadura do tempo e tentar marcar a minha época cultural com a marca da minha diferença entre os meus iguais


criações, em diálogo com a obra de Oswaldo Osório

[suspensões contemporâneas]
os sonhos e as lutas 
as pedras e os poetas
[ Antónia Marques d’après Oswaldo Osório ]

mar adentro,
rumo às
ilhas do meio do mundo

mar adentro,
numa jangada de letras
rumo
às ilhas do meio do mundo
percorro,
com a visão,
vocábulos, que habitam o oceano
escuto 
com o coração
murmúrios, de água corrente
leio
com a palma das mãos
confidências, sopradas pelo Harmatão

na clar(a)idade que assim se espraia
apreendo
o verbo
que (in)conforma a morfologia do território.

mar adentro
rumo
às (im)permanências sensoriais,
numa jangada de letras

[ Antónia Marques d’après Oswaldo Osório ]

( sucedem-se as páginas, surgem diálogos, conciliam-se letras e paisagens e assim nascem outras )

“Osvaldo Osório, com o pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio. Nascido no Mindelo a 25 de Novembro de 1937, distingue-se como poeta e contista, sendo um dos fundadores do caderno de cultura do Notícias de Cabo Verde, Sèlo. Fez os estudos secundários e o seminário Nazareno, tendo exercido várias funções profissionais, como trabalhador de rádio, funcionário público, empregado de comércio, presidente da União dos Sindicatos, diretor do “Suplemento de Poesia dos Anos 80”, Voz di Povo, co-fundador da página de cultura Seló, onde iniciou a sua atividade como poeta e prosador.
Em consequência das suas atividades políticas, estreitamente ligadas às ações culturais durante o regime de Salazar, Osvaldo Osório foi preso por quatro vezes.”
http://www.caboverde-info.com/Identidade/Personalidades/Osvaldo-Osorio

o futuro só é tempo quando chega
de permeio,
o perene
e a (datilo)grafia
do (iso) lamento
[ Antónia Marques d’après Oswaldo Osório ]

“Oswaldo Osório, pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio, anunciou há quarenta anos o livro que será lançado na Praia no dia 29 de Junho agora com o título “As Ilhas do Meio do Mundo”. Numa narrativa memorialista, o romance traça um percurso de luta de mais de 50 anos que conduziu o autor por quatro vezes às prisões da polícia política portuguesa. Apesar de alguns desencantos, Oswaldo Osório continua a acreditar que é possível construir um mundo melhor do que aquele que temos, porque, como diz “é desagradável saber que há camadas da nossa sociedade que não têm aquele bem-estar com que todos nós sonhamos”.
(…)
Escreve na página 128 que estas ilhas estariam antropológica e socialmente virgens, permitindo ensaiar com a independência um novo tipo de relações humanas e de sociedade. Havia algo de utópico nesta construção?
Sem utopia você não consegue chegar a parte alguma. Fernando Pessoa tem muita razão quando diz que o sonho comanda a vida. Se você não projectar, não faz nada. É que o lastro físico que nós temos é tão pesado que se você não tiver a capacidade de sonhar, você não voa. Não faz coisa nenhuma. Mas às tantas a sociedade parece que se acomoda. Quando algumas camadas se tornam possidentes e se sentem senhores não sei de quê, porque ninguém é senhor de nada, o sonho começa a se tornar muito pessoal, não para todos. Aí é que reside o mal.
(…)    
Ovídio é hoje um poeta quase esquecido, mas foi um homem que se sacrificou pela independência.
Sim, foi um batalhador incansável no sentido cultural. A deficiência auditiva limitava-o bastante. Portanto, fez da escrita a sua arma que esgrimiu como poucos.   
(…)
Se nascesse de novo voltaria a percorrer o mesmo caminho que traço no seu livro?
Voltaria, mas com as alterações que certamente o meu espírito e minha mente fariam para se adaptarem ao tempo e ao espaço em que viveria.”  

https://expressodasilhas.cv/cultura/2016/06/26/oswaldo-osorio-continua-a-acreditar-num-mundo-melhor/49155

chão, parte de cima de habitação
[a indisciplina, sobre pátio organizado]
[ Antónia Marques d’après Oswaldo Osório ]


“JPG – O título Clar(a)idade Assombrada tem uma ressonância com outras Claridades da literatura cabo-verdiana. 
Oswaldo Osório – Sim, o título tem uma dupla leitura.É Clara Idadee é também Claridade. Claridade Assombrada. As coisas desejadas que não se faziam ou que ainda não se fizeram. É o homem deslumbrado com o tempo em que vive.  
JPG – Mas Claridade remete para a história literária de Cabo Verde, a revista Claridade, publicada nos anos 30 e 40, os poetas da geração da Claridade, os chamados Claridosos, que seguiam o caminho dos neo-realistas portugueses … 
PG – Então, onde se situa a sua poesia?
Oswaldo Osório – A minha poesia é uma viagem.
JPG – E a viagem da poesia cabo-verdiana navega em que sentido?
Oswaldo Osório – Em vários sentidos conforme a utopia que vive em cada escritor.”
http://especiedemocracia.blogspot.com/2016/12/a-clara-idade-assombrada-da-poesia-de.html

Clar(a)idade assombrada
Praia, Cabo Verde
Instituto Caboverdiano do Livro, 1987

“O livro tem o selo da editora «Dada» e conta com o patrocínio da Biblioteca Nacional, estando já nas gráficas para publicação em breve, em comemoração dos 80 anos do autor cumpridos em Novembro de 2017. Trata-se de uma colectânea de poemas, cujo título é inspirado na personagem de nome Tiresias na célebre peça de teatro «Antígona» da mitologia grega, escrito por Sófocles. Tiresias, recorda Osório, é um cego que vê o futuro e o passado, ou seja, “tem um olhar voltado para o passado e para o futuro”.
Assim como na referida tragédia grega, este livro pretenderá abordar a vivência humana, a espiritualidade e a moralidade e, em particular, o antagonismo entre o desenvolvimento tecnológico e a constante “desumanização” do homem. “Problemas que nos tocam a todos e que sinto, como poeta, que o homem está cada vez mais a distanciar-se do próprio homem e isso cria um vazio na alma e no relacionamento humano”, reflecte.”
https://santiagomagazine.cv/cultura/oswaldo-osorio-tem-novo-livro-de-poemas-tiresias-vai-ser-lancado-em-breve

iso.lamentos

Tiresias 
do poeta 
das ilhas do meio do mundo
[ Antónia Marques d’après Oswaldo Osório ]
a escola ainda não é morada da “instrução”,
é tão só lugar de esperanças frustradas,
templo consagrado à obediência! 
Está por concretizar o sonho do poeta!


“escrever para o povo não é falar-lhe de milho 
nem afoitar-se a uma escrita linear 
de uma redacção da quarta classe 
Escrever para o povo até conota mal: 

coisas simples para o povo, porque o povo se umas 
coisas compreende outras não, então! 
Mas isso é o resultado do nível de instrução 
e do aparelho educacional e cultural 

O escritor escreve como escreve 
como o pintor pinta como pinta 
Entre ele e o leitor uma só lição: 
dêem-lhe a instrução que propicia a comunicação”

(“Clar(a)idade Assombrada” Oswaldo Osório, 1987) 

[ + informação, para outras viagens na companhia das letras de Osório Oswaldo
Programa da Margarida Fontes – com Osvaldo Osório (escritor)https://desporto.sapo.pt/video/leNAFTBGlChFM2EzkREP ]


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