Tudo isto existe, tudo isto é triste, nada disto é fado

“O neoliberalismo não é possível sem uma colonização psíquica, que responde pela obediência inconsciente.”
Nora Merlin

“O último passo da colonização é o que chamo de Mente nullius: a colonização das nossas mentes”.
Vandana Shiva


Em cada esquina, um lacaio. Em cada rosto, obediência!

A instabilidade, provocada pelo advento da pandemia, tem agravado a indigência da discurseira em torno da Educação. São confrangedoras as intervenções, que visam condicionar o Conhecimento e subverter o Ensino, aventadas por uma miríade de gente, ostensivamente alinhada com as cartilhas governativas.
Na concepção desses players de super-mercado, a Escola é um mero pedaço de terra nullius, o que, na sua sórdida visão de mundo, é motivo bastante para justificar a demagogia da oratória e das práticas colonizadoras que levam a cabo. 
Lamentavelmente, o exercício dessa abusiva atividade, que tomou de assalto as instituições, tem feito vingar a resignação que embrulha a educação numa servil obediência.
Este repugnante processo de submissão tem semeado, em cada esquina institucionalizada, um lacaio, e inscrito em cada rosto oficial, uma repugnante subserviência. Pelo que, assim achados, não é surpreendente que estejamos incapazes de responder aos desafios e emergências, ditados pela doença que deu a volta ao mundo, ao ritmo de uma frenética globalização.
A generalizada incapacidade do Estado, para cuidar do Ensino e salvar a Educação, é fruto da execução de políticas medíocres e oportunistas, gizadas para açambarcar os recursos públicos, em prol do favorecimento de interesses e capitais escusos. A insidiosa missão dos governantes, sustentada pelo autoritarismo dos chefes ao seu serviço, tem provocado maleitas sociais irremediáveis. São inúmeras as evidências dos abusos cometidos, que se amontoam à porta da escolas; é profundo o buraco, para onde se arremessou a dignidade da generalidade dos agentes educativos.
O povo já nada ordena nesta terra mesquinha, destituída de fraternidade!

A nomeação de um bárbaro, para administrar o pântano onde estão atoladas as instituições de ensino, é prova cabal do insuportável Estado-de-sítio em que nos encontramos. A grosseria que habita o Ministério da Educação evidencia a tragédia, anterior à pandemia, que nos esmaga. Certamente, não terá sido fácil achar um sujeito tão capaz de conjugar imbecilidade e servidão, que estivesse disponível para envergonhar, com a má-utilização da Língua, a debilitada educação portuguesa.
Abnegado servente, o Bárbaro tem feito de tudo para acrescentar lodo ao famigerado pântano. Consta que terá enfiado a pasta da educação num fétido saco de lixo burocrático, urdido por uma legião de bestas, empenhadas em submeter, com o verbo autoritário, o conhecimento, a pedagogia e a liberdade de pensamento. Desgraçadamente, a propensão para essa escritaria paranóica tornou-se viral, num ápice viu-se, por aclamação, convertida em (novi)língua oficiosa de um Estado desumanizado.
O povo já nada ordena, dentro de ti, ó pantanosa cidade!

Tudo isto existe, tudo isto é triste, mas nada disto é fado!

É herança, não repudiada, a cantiga que tolhe o discernimento, esmaga a educação e faz medrar bárbaros nos pântanos. Não é Fado, é Usura, esse famigerado género musical, entoado para entorpecer este chão à beira mar plantado!
Miseráveis composições poéticas, executadas em português domado, delapidam a cidadania, vencem as almas, escurecem os dias e espalham sombras bizarras por todo o lado.
Tudo isto existe, tudo isto é triste e nada disto é fado!

A violência do vírus estrangeiro, num ápice e sem rodeios, colocou em evidência as debilidades que agudizam e assolam a educação do país. Uma, atrás de outra, foram sendo reveladas as maleitas provocadas pelos aficcionados da Usura.
A Escola – colonizada por interesses neoliberais, a braços com um cenário de emergência sanitária, foi compelida a enfrentar a crise humanitária e, como seria de prever, falhou em todas as frentes.
Numa desesperada tentativa de encobrir a sua incapacidade sistémica, mobilizaram-se os habitués do costume para, à pressa, escrevinharem umas loas e ocas diretrizes e, assim, se desviar a atenção para assuntos de somenos importância.
Os funcionários da indústria de propaganda, trataram de exaltar as virtudes do engodo, apostando na difusão de mensagens simplórias, orientações simpáticas e normativos fofinhos, para convencer a população a aceitar as quimeras, forjadas a ferro-e-fogo, pelos bárbaros administradores de pântanos.
A persuasão deu frutos, a generalidade da população, sem disponibilidade para elaborar pensamento próprio, adoptou a nova máxima – as instituições de ensino eram afinal lugares hiper-seguros, dotados de poderes-especiais para resistir à Peste!

O ensino submisso e desumanizado voltou, assim, a marcar presença. Os habituais espaços exíguos voltaram a encher-se de gente obediente, empenhada em manter, sempre que possível, a realidade à distância. Essa vil obediência, que nunca serviu para salvar coisa alguma, terá sido determinante para inviabilizar o ensino presencial e instaurar uma sinistra “nova normalidade” – uma repugnante indiferença pela própria vida e pela morte alheia.

E dentro da porção da tua vida, é a ti
Que cabe o não trocar nenhum futuro pelo presente
É curto o espaço de tempo, vais preenchê-lo com o frio da submissão, ou com o calor da liberdade?


Sobra o castigo, a mentira, a dor e as cinzas; escasseia o lume, a paixão e a vontade para mandar às favas a desdita que humilha a liberdade e explora o cidadão.
Sobra a ruptura e solidão, a quem ousa enfrentar bárbaros proclamando o inestimável valor da dignidade!
Não tem salvação a Escola colonizada, de onde se foi o aroma a urze e quedou um fétido cheiro a lama.
Não há espaço para a empatia nesses antros submissos, onde se ensina e aprende a investir no individualismo e a desprezar a humanidade! 

A última aula presencial, foi magistralmente esclarecedora – quando convocado a defender a vida, o povo preferiu continuar a lavar o rio e a talhar, com passividade, as tábuas do seu caixão.


Ó triste Povo,
é tempo de voltar a escutar o Fado e reinventar a canção!
pode haver quem te ofenda,
quem humilhe o teu chão sagrado,
mas a tua vida não!


Antónia Marques
fev.2021



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