do mistério da rotcha scribida ao mister da criação iconográfica

ó universo de mil tons, inaudível

Reza a lenda que a rotcha terá sido scribida no passado, primordial tempo das ilhas, anterior ao mito da descoberta.
Ampliam-se, desde então, os mistérios – provas refutáveis de outras vidas, sobre a terra Verde.

jalofos à deriva?
piratas sem pátria?
palavras outrora soltas?
idioma de vulcão?
escrita recôndita de povo ágrafo?

A dúvida, sobre a autoria da escrita, re.existe e fecunda a subjetividade coletiva da gente das ilhas.
Reza a morna melodia que o veredicto geológico (1) não terá sido capaz de extinguir o simbolismo das improbabilidades, pelo que, prossegue existindo, scribida na rotcha, a utopia – valente comoção.

Entre fonemas divergentes, oscilações magmáticas e evocações solares prospera, flutuando em água de prata, um genuíno desprezo pela escritaria submissa (2) que afasta da Terra a humanidade e arranca da Vida a brava sensibilidade.

ó catedral de mil rostos, invertida
ó pirâmide de vígilia, recém-vertida

É de lava quebrada a utopia, inamovível, que permanece viva nas fendas da razão.
É comoção deliberada celebrar, camada por camada, o mistério da sua preservação.
É valorosa a linguagem sensorial, gerada pela tua chama, pela tua lava.
É perpétuo o movimento da paisagem incandescente, sobre a rotcha recém-vertida.
É privilégio De sal! sangue & paradoxo dialogar com o universo das inscrições esquecidas.

Na tua letra & sílaba a escrita indizível – fonte inesgotável de inspiração.

O mistério da escrita incrustada na rocha, segue existindo, em permanente mutação, reza a lenda que terá dado origem ao mister de criação iconográfica!

na tua semântica

Ó pirâmide de vigília
Filha! mãe! irmã gémea da ilha?
Ó catedral de mil rostos
Ó rosto de mil lábios
na tua crónica
na tua letra & sílaba
da palavra inamovível
Ó corpulência & sonho
Surdo? Mudo?
Na tua nudez de mutante
Ó bíblia de murmúrio
na tua semântica
De sal! sangue & paradoxo
Ó universo de mil sons
Que circulam
Pela maternidade
Do versículo que nos une
Na tua chama
NA tua lava
No teu tambor inenarrável

Rotcha Scribida,
Corsino Fortes
A Cabeça Calva de Deus

na tua letra & sílaba, o mister da criação

“Por vezes as camadas de tufos, por efeito da pressão exercida pelos terrenos que as cobrem, fendem-se e, quando os lapílli se lhe sobrepõe directamente, os elementos que o constituem introduzem-se nestas fendas produzindo incrustações de formas muito curiosas que fazem lembrar letras de inscrições antigas”. (3)

a utopia, delineada a lápis-lázuli
perpétuo movimento da paisagem incandescente, sobre a rotcha recém-vertida

Antónia Marques
( 26 maio / 1 julho )

(1) “Como não abundam registos credíveis sobre os primeiros tempos destas ilhas, um conjunto de informações sem a necessária comprovação e apenas alimentadas pelo rico imaginário da tradição oral, têm conduzido a especulações várias por parte dos menos avisados. No âmbito de referências a inscrições rupestres, estará o caso da “Rotcha Scribida” (topónimo que serviu de tema para uma das mais conseguidas mornas características daquela ilha) no vale da Ribeira Prata, S. Nicolau (Há quem diga que originalmente o nome daquele local seria Ribeira dos Piratas e não Ribeira da Prata, que a tradição diz resultar do reflexo do sol nas suas águas). Mais concretamente as pretensas “inscrições” nela “apostas” e sempre presentes no imaginário sanicolaense, são apresentadas como testemunho deixado por antigos habitantes. Porém, as mesmas foram consideradas por Bacelar Babiano, que as examinou e fotografou, como sendo um mero fenómeno natural…”
João Lopes Filho, “Alguns Mitos relacionados com Cabo Verde”
fonte: https://www.lopesfilho.com/?ID=4&cod=51B482150D337B5F07B

(2) Escritaria Submissa – sistema oficioso de escrita, utilizado na produção de literatura servil, destinada a consolidar a desumanização e dessensibilização dos indivíduos.
A massificação deste sistema perverso visa condicionar o pensamento divergente, desvitalizar a sensibilidade e eliminar o conhecimento valoroso.
fonte: compilação de palavras re.criadas, Antónia Marques

(3) BABIANO, Bacelar – “A Geologia do Arquipélago de Cabo Verde” in Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, Tomo XVIII, Lisboa 1932.
fonte: https://www.lopesfilho.com/?ID=4&cod=51B482150D337B5F07B

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