Taru-Andé

Temos de parar de nos desenvolver e começar a envolver-nos.

Ailton Krenak, A Vida não é útil, Ideias para salvar a Humanidade

Ossatura de Areia
do Monte Cara, São Vicente


Articular a palavra preocupada com o traçado arriscado é lema de vida, que flui, entre trechos de músicas, nacos de livros e lugares de escuta. 
Fundado nas emergências silenciadas, dotado de vida e movimento, o desenho à mão livre tece uma requintada trama sensorial, onde se interligam uma multiplicidade de impressões emocionais. 

A iconografia, elaborada d’aprés Tarú Andé , foi gestada no cruzamento dos fonemas que d-escrevem a urgência de salvar a Humanidade!


Taru Andé
gestado no cruzamento dos fonemas que d-escrevem a urgência de salvar a Humanidade

A criação sensível é um cuidado desenho à mão livre
em plein-air o traçado decide a-riscar, des-orientando os gestos 
Carvão vegetal, tinta nankim ou lápis afiado, qualquer riscador tem serventia para d-escrever a sensibilidade que falta ao humano! 

Tatear a epiderme da Terra é desígnio da planta do pé. 
Apreender a correnteza do Tempo é compromisso de Vida.
Perscrutar o sopro do Vento é aprendizado de Luta, corpo-a-corpo.

Compêndios, tratados, enciclopédias, dicionários, volumosos livros de capa resistente, singelos livros finos, repletos de letras aflitas, a-guardam a comoção da humanidade!


A Humanidade suspensa
À procura da comoção
no Monte Cara, São Vicente

Estou interessado é na caminhada que fazemos aqui, na busca por uma espécie de equilíbrio entre o nosso movimento pela Terra e a constante criação do mundo. Pois a criação do mundo não foi um acontecimento como o Big Bang, antes algo que acontece a cada momento, aqui e agora.

Ailton Krenak,A Vida não é útil, Ideias para salvar a Humanidade

desenho à mão livre, com luz

Taru Andé

desalinhado, o termo provém da margem esquerda do rio  
primordial, a língua insubmissa dá origem ao ritual,
consagrado, o organismo abraça a torrente e celebra
o encontro do céu com a terra.

as coreografias originárias, ex-cêntricas
estranhas para a generalidade dos humanos sem tempo, 
são manuais de perseverança, ancestrais,
desgraçadamente,
a Humanidade apressada está incapaz de ler em voz alta!

Coreografias originárias, ex-cêntricas

É mais ou menos o seguinte: se acreditarmos que quem domina este organismo maravilhoso que é a Terra são os tais humanos, incorremos no grave erro de achar que existe uma qualidade humana especial. Ora, se essa qualidade existisse, não estaríamos hoje a discutir a indiferença de algumas pessoas em relação à morte e à destruição da base da vida no planeta. Destruir a floresta, o rio, destruir paisagens, assim como ignorar a morte das pessoas, mostra que não há qualquer parâmetro de qualidade na Humanidade, que isso não passa de uma construção histórica não confirmada pela realidade.

Ailton Krenak,A vida não é útil – ideias para adiar o fim do mundo

Epiderme da Terra

Alguns povos entendem que os nossos corpos estão relacionados com tudo o que é vida e que os ciclos da Terra são também os ciclos dos nossos corpos. Observamos a Terra e o céu e sentimos que não estão dissociados dos outros seres. O meu povo, assim como outros parentes esta tradição de suspender o céu. Quando ele fica muito perto da Terra, há um tipo de Humanidade que, pelas suas experiências culturais, sente essa pressão.  Ela é sazonal e, aqui nos trópicos, essa proximidade dá-se na entrada da Primavera.
É preciso dançar e cantar para a a suspender, para que as mudanças referentes à saúde da Terra e de todos os seres aconteçam nessa passagem.
Quando fazemos o taru andé, o ritual que descrevi, é a comunhão com a teia da vida que nos dá potência.
Suspender o céu é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos. Trata-se de uma memória, uma herança cultural do tempo em que os nossos antepassados estavam tão harmonizados com a Natureza, que só precisavam de trabalhar algumas horas por dia para proverem tudo o que era preciso para viver. No resto do tempo, cantava-se, dançava-se, sonhava-se: o quotidiano era uma extensão do sonho. E as relações, os contratos tecidos no mundo dos sonhos continuavam a fazer sentido depois de acordar.

Ailton Krenak,A vida não é útil – ideias para adiar o fim do mundo

do Encontro, entre Céu e Terra

Como o mundo é todo desigual, alguns ficaram fora deste saco de civilização, pessoas que não estão engajadas no consumo planetário. Não se tornaram consumidores no sentido de clientela, já que, eventualmente, consomem alguma coisa do mundo industrial, mas não dependem disso para continuar a existir. 
Ainda há ilhas no planeta que que se lembram do que estão aqui a fazer. Estão protegidas por essa memória de outras perspectivas do mundo. Essas pessoas são a cura para a febre do planeta, e acredito que conseguirão contagiar-nos positivamente com uma percepção diferente da vida. Ou ouvimos a voz de todos os outros seres que habitam o planeta connosco ou declaramos guerra à vida na Terra.

Ailton Krenak,A vida não é útil – ideias para adiar o fim do mundo

Ilhas

Desenho à mão livre
Antónia Marques
Outubro 2021

Taru Andé é uma expressão que tem sua origem na língua Krenak, um povo indígena originário da região do Rio Doce, em Minas Gerais, e que significa ‘O encontro do Céu com a Terra’.

“Os desenhos à mão livre são construções da imaginação.
Um desenho à mão livre”, escreve Moses, “por estar vinculado às tradições seculares de criar imagens, tem um potencial imaginário poderoso”. Imediatamente, ele também pode “se mover tão rápido quanto uma corrente de pensamento” e “colocar o arquiteto no centro da mitologia de um edifício”. E, para Moses, resumindo o rico catálogo do seu livro, o desenho à mão devolve o edifício a um conjunto concebido organicamente, mas composto livremente. “A página em branco é um espaço não regulamentado, um campo com potencial imaginativo infinito. Isso possibilita que todas as arquiteturas sejam rigidamente pragmáticas, inquestionavelmente tradicionais ou inovadoras”.
https://www.archdaily.com.br/br/926686/desenhos-a-mao-livre-o-valor-da-interpretacao-emocional-na-arquitetura-contemporanea

En plein air é uma expressão francesa que significa ao ar livre. É usada para descrever o ato de pintar ao ar livre propriamente dito e não mais em estúdios.
https://pt.wikipedia.org/wiki/En_plein_air

Ailton Krenak, A vida não é útil, Ideias para Salvar a Humanidade, 2020
“A pandemia de Coronavírus que o mundo atravessa é apenas um dos vários desafios que enfrentamos hoje. Quando analisada, percebemos que é apenas o sintoma de uma doença maior: se a forma predatória e consumista como nos comportamos provocou esta pandemia, o autoritarismo e desprezo pela vida humana de alguns governos transformou-a numa autêntica tragédia para muitos.
É urgente ler Ailton Krenak e pensar com ele uma Humanidade melhor, um outro caminho, radicalmente diferente. Por um futuro que ainda não está perdido, precisam-se ideias para salvar a Humanidade.”

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