Artista Dragoeiro

O dragoeiro: Tal como Homem, de uma semente são necessárias várias gerações para ser árvore. Espécie rara. Fóssil vivo, teimosamente resistente desde a noite dos tempos. De um tronco esguio, crespo e agreste rebentam no topo braços e folhas-lanças espetadas para o céu. O dragoeiro e o Homem cabo-verdiano, uma teimosia, dois caprichos da Natureza.

Gilberto Lopes, Coleção Dragoeiro

Sobre uma jangada de letras, à bolina do Harmatão, 
tomo assento sobre chão insular e (d)escrevo a ventura de Ser artista dragoeiro.

esboço exploratório, sobre folhas-lança
do caderno arborescente

Escapar à insularidade social é ventura de artista.
Perdurar, entre a fortuna das ázaguas (1) e a carestia da estiagem prolongada, é natureza de dragoeiro.
Conciliar, o ofício da evasão artística, com a tenacidade da espécie que resiste desde a noite dos tempos, é minha obra de vida, gerada no ventre da multidão. 
Na leitura encontro pão & fonema para nutrir a analogia que me liga à árvore da vida.
Extraio, do miolo dos livros, a substância-prima para alimentar o propósito da fuga e salvar a razão.

o miolo dos livros
do caderno arborescente

Leio, 
palavras sem dono, manuscritas sobre páginas sem peias 
tropeço na comoção das frases, vagueio pelas margens 
Leio,
capas e contra-capas, procuro vestígios de Humanidade 
escuto murmúrios em manifestos abandonados
Leio, 
nas palavras bravas, impressões para transformar o mundo
tomo notas, 
Leio, 
no verso das narrativas clandestinas, rupturas insanáveis
sublinho trechos e passagens, guardo letras na memória
Leio, 
linhas e entre-linhas, viro do avesso as páginas, quando parecem escritas a retalho
lamento orações subordinadas
Leio, 
Debord, Krenak, Corsino Fortes, Anselm Jappe, Fannon, Osvaldo Osório, …

Leio,
Este Livro não tem unidade.
Seu equilíbrio está na desunião natural dos seus quadros!
Luís Romano

Leio, na lucidez da prosa a honestidade do verbo que me orienta o traço
e escrevo, 
como quem faz um esboço exploratório com sangue-de-dragão

apontamentos sangue-de-dragão
do caderno arborescente

o lápis afiado revolve as fibras do papel, abro fendas para inscrever a rebelião
a grafite percorre o papel de almaço, registo rizomas vários
os traçados fluem, expresso o que li nas páginas sem peias
preencho formas reflexivas com a textura do crioulo 

da lavra exploratória
do caderno arborescente

guardo tudo, escrevo de novo.

Espécie rara, teimosamente resistente o artista dragoeiro deixa, por onde passa, impressões (ar)riscadas em tonalidades diversas de sangue-de-dragão. Avesso à (mono)cultura subordinada, a criatura rara que resiste desde a noite dos tempos, encontra na criação iconográfica, livre de ónus e encargos, forma de erguer os braços e as folhas-lanças e reclamar a propriedade do seu Tempo.
Claro está que, pelo facto de não estar alinhada com o modus faciendi vigente, esta florescência é ceifada pelos zeladores da (mono)cultura enfadonha, que operam de forma desconcertante, a fim de evitar que a vivacidade da espécie, rara, se propague e sobreponha ao cinzentismo dominante.
Porém, quando a semente é genuína, não há como deter a sua insurreição ou mirrar o seu alcance!

Antónia Marques,
artista dragoeiro
sobre chão insular

(1) Azáguas, termo do chão insular, que significa estação das chuvas.
Fonte: Dicionário Caboverdiano-Português, de Manuel Veiga, 2ª edição, 2012.

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