{"id":1496,"date":"2018-09-02T14:11:34","date_gmt":"2018-09-02T14:11:34","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=1496"},"modified":"2019-09-09T20:52:03","modified_gmt":"2019-09-09T20:52:03","slug":"onde-estas-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2018\/09\/02\/onde-estas-abril\/","title":{"rendered":"onde est\u00e1s abril?"},"content":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a tua morada<br \/>\nMas n\u00e3o te encontro<br \/>\nOnde te escondes ABRIL?<br \/>\nEm que lugar<br \/>\nTe perdeste?<br \/>\nEm que s\u00f3rdidos enredos<br \/>\nTe deixaste entorpecer?<\/p>\n<p>Parte de mim vacila<br \/>\nante o tr\u00e1gico homic\u00eddio<br \/>\ndos teus projetos de democracia,<br \/>\nmas n\u00e3o hesito,<br \/>\ncontinuo a viagem,<br \/>\nsigo com tenacidade e coragem,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culos que me fa\u00e7am arrepiar caminho.<br \/>\nProcuro-te ABRIL, preciso de entender o que de ti foi real.<br \/>\nA voracidade do tempo abala sem piedade as convic\u00e7\u00f5es,<br \/>\nreceio que tenhas sido inven\u00e7\u00e3o de um devaneio coletivo.<br \/>\n<i><br \/>\nprocuro-te!<\/i><br \/>\n<i>preciso encontrar o que de ti foi verdade!<\/i><\/p>\n<p>A tua revolu\u00e7\u00e3o foi espezinhada por c\u00e9rebros pequeninos.<br \/>\nEst\u00e1 repleta de sombras fortuitas, frouxas, cobardes, mesquinhas<br \/>\nque escurecem sem remorsos a fr\u00e1gil democracia.<\/p>\n<p>ABRIL,<br \/>\na tua revolu\u00e7\u00e3o fez eclodir promessas,<br \/>\ndesejos e vontades de liberdade<br \/>\nmas implodiu muito antes de conseguir acabar com a desigualdade,<br \/>\nos despojos desse colapso, est\u00e3o por a\u00ed abandonados,<br \/>\nperdidos<br \/>\nentre a pompa da celebra\u00e7\u00e3o espor\u00e1dica e a cobardia da ren\u00fancia di\u00e1ria.<\/p>\n<p><i>anseio encontrar uma raz\u00e3o<\/i><br \/>\n<i>no meio da insuport\u00e1vel solid\u00e3o,<\/i><br \/>\n<i>recuso acreditar que te tenhas sumido!<\/i><\/p>\n<p>O povo, animado pela tua jovialidade Abril,<br \/>\nfestejou, encantado saiu \u00e0 rua<br \/>\niniciou um novo itiner\u00e1rio,<br \/>\nentusiasmado, deslumbrado com as novidades<br \/>\nque foi encontrando pelo caminho,<br \/>\nesqueceu a dire\u00e7\u00e3o, ignorou a orienta\u00e7\u00e3o!<br \/>\nAcreditou em fanfarr\u00f5es que clamavam saber o destino.<br \/>\nO objetivo que parecia f\u00e1cil de cumprir,<br \/>\nfoi ficando cada vez mais imposs\u00edvel de agarrar.<br \/>\nEsse povo inebriado, fraquejou, n\u00e3o conseguiu transformar em realidade o sonho coletivo.<\/p>\n<p>O percurso, o tal que parecia f\u00e1cil, viu-se dificultado, minado,<br \/>\npor aqueles que chegavam dos lugares para onde haviam fugido.<br \/>\nOs senhores <i>pides<\/i> e suas extensas proles chegaram fortes, robustos, luzidios,<br \/>\nregressavam das f\u00e9rias prolongadas.<br \/>\nL\u00e1 longe, nos seus lugares encantados,<br \/>\natentos ao evoluir da situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nperceberam que o novo tempo era filho de uma revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nque usou cravos como muni\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs frutos da tortura ainda n\u00e3o haviam apodrecido!<br \/>\nTeria sido necess\u00e1rio muito mais para acabar com t\u00e3o medonho legado!<br \/>\n48 anos de ditadura jamais se desvaneceriam com cravos e cantigas de revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConfiantes, entenderam que o regresso seria tranquilo.<br \/>\nFizeram-se \u00e0 estrada, chegaram, instalaram-se nos seus coutos privados,<br \/>\ndiscretamente reorganizaram os seus imp\u00e9rios,<br \/>\nrecuperaram for\u00e7a, influ\u00eancia e poder!<\/p>\n<p><i>Abril,<\/i><br \/>\n<i>n\u00e3o foi este o futuro que te desejei!\u00a0<\/i><br \/>\n<i>N\u00e3o foi para isto que t\u00e3o zelosamente te cuidei.<\/i><br \/>\n<i>Ter\u00e1s sido vencido ou cobardemente atrai\u00e7oado?<\/i><\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 liberdade a s\u00e9rio quando houver a paz, o p\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncantava a revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO povo decorou a letra, entoou a can\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o lhe apreendeu o sentido!<br \/>\nA liberdade a s\u00e9rio, em fase embrion\u00e1ria, foi pouco estimada,<br \/>\nfaltou a responsabilidade, o compromisso e a entrega abnegada.<br \/>\nMesmo que sem liberdade a s\u00e9rio, foi instaurada uma pretensa democracia!<\/p>\n<p>Acabou a clandestinidade,<br \/>\nera ent\u00e3o poss\u00edvel ser oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do dia!<br \/>\nChegou<br \/>\na liberdade de express\u00e3o,<br \/>\na autoriza\u00e7\u00e3o para promover ajuntamentos,<br \/>\niniciaram-se<br \/>\nas conversas livres,<br \/>\nos pensamentos flu\u00eddos,<br \/>\nas discuss\u00f5es acesas,<br \/>\nos debates ideol\u00f3gicos<br \/>\nveio tamb\u00e9m<br \/>\na campanha<br \/>\na elei\u00e7\u00e3o<br \/>\no voto<br \/>\ne a decis\u00e3o!<\/p>\n<p><i>recuo para te resgatar,<\/i><br \/>\n<i>n\u00e3o suporto a cobardia que se instalou na tua liberdade!<\/i><\/p>\n<p>Tudo parecia alinhado,<br \/>\no futuro prometia ser encantado.<br \/>\nA causa p\u00fablica, preciosa j\u00f3ia desse projeto ambicioso,<br \/>\npretendia implantar-se, substituir a exclusividade do privado!<br \/>\nAvan\u00e7ou determinada, fez obra,<br \/>\ntomou conta da pra\u00e7a, do\u00a0 terreiro, do mercado.<br \/>\nMais iguais do que antes, muitos foram estudar,<br \/>\noutros largaram o trabalho onde eram explorados,<br \/>\nuns cal\u00e7aram pela primeira vez uns sapatos,<br \/>\noutros passaram a comer uma sardinha inteira!<br \/>\nAfastava-se pouco a pouco a trag\u00e9dia de outros dias!<br \/>\nA mis\u00e9ria extrema viu-se substitu\u00edda por pen\u00farias mais controladas.<br \/>\nEntretanto,<br \/>\na escola fez-se p\u00fablica<br \/>\na sa\u00fade prometia ser para todos<br \/>\no p\u00e3o, bem ou mal amassado, pretendia alimentar todas as bocas<br \/>\na habita\u00e7\u00e3o projetada para ser camar\u00e1ria, comunit\u00e1ria, associativa, almejava dar abrigo a todos.<br \/>\nForam desenhados, pintados e esculpidos muitos projetos<br \/>\nricos, intensos, fizeram-se nascer fant\u00e1sticas est\u00f3rias!<br \/>\nA mobilidade social, foi por escassos momentos, uma realidade,<br \/>\no conhecimento foi, durante curto espa\u00e7o de tempo, passaporte para os mais diversos destinos!<\/p>\n<p>Mas os senhores, os tais que haviam regressado,<br \/>\nestavam determinados, queriam recuperar o comando!<br \/>\nDotados das melhores ferramentas,<br \/>\nelaboraram complexos enredos.<br \/>\nForam apoiados por um bando de gente angustiada,<br \/>\nque havia sido espoliada do poderzinho de denunciar a vida do vizinho.<br \/>\nUns com os outros, organizaram um ex\u00e9rcito silencioso e discreto,<br \/>\ninstalaram-se sorrateiramente em lugares decisivos, recuperaram lideran\u00e7as,<br \/>\npreencheram cadeiras esvaziadas pela revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRiscaram do bilhete de identidade o sobrenome,<br \/>\ndisfar\u00e7aram o la\u00e7o que os ligava a um passado pouco digno.<br \/>\nForam c\u00e9leres a fazer o caminho!<\/p>\n<p>Hoje est\u00e3o em todo o lado, os filhos desses homens sem brilho!<br \/>\nReproduziram-se como coelhos,<br \/>\nperfilharam, adoptaram, apadrinharam, valeu de tudo para dar a volta ao destino!<br \/>\nRessuscitaram o Fado,<br \/>\nRe-centraram o mundo na Fam\u00edlia,<br \/>\nLouvaram as mil maravilhas do Futebol.<br \/>\nResgataram as morda\u00e7as, conseguiram o pa\u00eds estava de novo, pelo medo de existir, unido!<\/p>\n<p><i>Abril como foi poss\u00edvel silenciar a tua revolu\u00e7\u00e3o?<\/i><br \/>\n<i>Porque que dinheiro se venderam os teus mais entusiastas obreiros?<\/i><\/p>\n<p>As nobres e not\u00e1veis fam\u00edlias foram recuperando os seus sobrenomes,<br \/>\ncriaram funda\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es privadas de utilidade p\u00fablica,<br \/>\nfizeram germinar a promiscuidade entre o p\u00fablico e o privado.<br \/>\nFizeram ruir a escola p\u00fablica,<br \/>\na sa\u00fade passou a ser um excelente neg\u00f3cio,<br \/>\na habita\u00e7\u00e3o, essa tornou-se feudo da especula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrendeu milh\u00f5es ao empreendedorismo imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Num \u00e1pice se esfumaram os sonhos de igualdade!<br \/>\nA democracia,\u00a0era ainda uma crian\u00e7a,<br \/>\nquando quando lhe foi diagnosticada uma doen\u00e7a cr\u00f3nica,<br \/>\nest\u00e1 hoje aposentada!<\/p>\n<p>Sem perder tempo,<br \/>\ninstalou-se no seu lugar a Uni\u00e3o Europeia,<br \/>\na tal que trouxe os subs\u00eddios sem fundo<br \/>\nos investimentos que nos levaram a alma,<br \/>\npor eles,<br \/>\nhipotecamos a vergonha, a honra e a identidade.<br \/>\nVendemos o Fado, as Fam\u00edlias e o Futebol,<br \/>\nfoi tudo convertido em hipoteca de um pa\u00eds civicamente falido!<br \/>\nReza a f\u00e1bula que tudo aconteceu, porque o povo viveu acima das suas parcas possibilidades.<\/p>\n<p><i>Abril ter\u00e1 sido ferida de morte a tua revolu\u00e7\u00e3o?<\/i><br \/>\n<i>Aparece, envia um sinal, ainda te restam alguns fi\u00e9is herdeiros.<\/i><br \/>\n<i>Desperta desse sono demorado e escuro.<\/i><br \/>\n<i>Celebra a tua pr\u00f3pria festa!<\/i><br \/>\n<i>\u00c9 tempo de existires sem medo!<\/i><br \/>\n<i>\u00c9 tempo de afirmares a tua presen\u00e7a, inscreveres nas d\u00favidas<\/i><br \/>\n<i>a vontade f\u00e9rrea de construir certezas.<\/i><br \/>\n<i>Sacode o mofo, espanta a poeira,<\/i><br \/>\n<i>Estamos aqui, somos poucos, mas fortes e corajosos.<\/i><br \/>\n<i>Trazemos um pano novo, cru, limpo.<\/i><br \/>\n<i>J\u00e1 iniciamos o desenho de um lugar esclarecido,<\/i><br \/>\n<i>fruto da Viagem \u00e0 terra da verdade,<\/i><br \/>\n<i>e aos sonhos de humanidade!<\/i><br \/>\n<i>Aparece Abril, temos o presente para libertar, e um outro futuro para desenhar!<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nia Marques, nascida em 1974<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a tua morada Mas n\u00e3o te encontro Onde te escondes ABRIL? Em que lugar Te perdeste? Em que s\u00f3rdidos enredos Te deixaste entorpecer? Parte de mim vacila ante o tr\u00e1gico homic\u00eddio dos teus projetos de democracia, mas n\u00e3o hesito, continuo a viagem, sigo com tenacidade e coragem, n\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culos que me fa\u00e7am [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":434,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,13,72,56],"tags":[],"class_list":["post-1496","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-25-abril","category-apontamentos-do-avesso","category-cidadania","category-democracia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1496","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1496"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1496\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1497,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1496\/revisions\/1497"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}