{"id":1722,"date":"2020-04-25T21:40:05","date_gmt":"2020-04-25T21:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=1722"},"modified":"2020-04-26T19:35:02","modified_gmt":"2020-04-26T19:35:02","slug":"iso-lamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2020\/04\/25\/iso-lamento\/","title":{"rendered":"tempo de minguarda"},"content":{"rendered":"\n<p><em>1.<\/em> <br><em> mar\u00e7o,<br> tinha tudo para ser um m\u00eas igual aos outros,<br> [quase] nada sugeria o contr\u00e1rio,<\/em><br> <br> os h\u00e1bitos enfadonhos e as rotinas banais&nbsp;<br> garantiam estabilidade \u00e0 passagem do tempo,<br> as atividades [escolares],<br> sucediam-se ordeiramente, sem novidade ou surpresa&nbsp;<br> <br> a papelada do costume, acumulava-se nos locais de sempre,<br> as conversas triviais, pavoneavam-se em todos os cantos e esquinas<br> os olhares vazios vagueavam sem abrigo<br> os rostos esmaecidos ocultavam, sob espessas camadas de <em>fond teint,<\/em> ang\u00fastias antigas<br> os movimentos entorpecidos prestavam tributo ao t\u00e9dio institu\u00eddo<br> <br> <em>2.&nbsp;<\/em><br> <em>o m\u00eas&nbsp;<br> deslizava sereno entre as noites e os dias&nbsp;<br> [quase] nada perturbava a m\u00e1quina de produzir quotidianos<\/em><br> <br> o corpo [docente] quebrado<br> padecia de um extenso rol de f\u00e1bulas e mitos,<br> que justificavam a sua falta de valentia<br> os filhos, os netos, as presta\u00e7\u00f5es da casa, a mudan\u00e7a de carro,&nbsp;<br> a casa da aldeia, a mulher-a-dias,&nbsp;<br> o medo de perder o direito de ir duas vezes por semana ao cabeleireiro,&nbsp;<br> o p\u00e2nico de ter um hor\u00e1rio de trabalho incompat\u00edvel com a pacata repeti\u00e7\u00e3o do dia-a-dia!<br> <br> sem raz\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o ou vontade de ter opini\u00e3o,<br> esse corpo [doente],&nbsp;<br> h\u00e1 muito vivia confinado, encontrara no bloqueio intelectual volunt\u00e1rio&nbsp;<br> forma de se proteger das urg\u00eancias e dos caprichos da liberdade!<br> <br> <em>3.&nbsp;<\/em><br> <em>mar\u00e7o, efetivamente&nbsp;<br> decorria com normalidade,<br> ainda que o normal fosse apenas uma ilus\u00e3o coletiva&nbsp;<br> <\/em><br> mas,&nbsp;<br> num \u00e1pice, o devaneio colapsou&nbsp;<br> o tempo rendeu-se \u00e0 aritm\u00e9tica da calamidade&nbsp;<br> as horas perderam a utilidade,<br> a curva da pandemia substituiu os ponteiros do rel\u00f3gio!<br> <br> uns confessaram-se surpreendidos, outros embasbacados,&nbsp;<br> os mais afoitos, clamaram que a praga <em>made in China<\/em> n\u00e3o justificava semelhante afli\u00e7\u00e3o.<br> <br> por\u00e9m, a indisciplinada epidemia,<br> aproveitando o alheamento e neglig\u00eancia da generalidade dos mortais,&nbsp;<br> arranjou forma de dar a volta ao mundo em meia-d\u00fazia de voos,<br> num abrir e fechar de malas instalou-se nos cinco continentes,<br> pelo caminho fez implodir as rotinas e a pacatez da vida-de-todos-os-dias!<\/p>\n\n\n\n<p><em>4.&nbsp;<\/em><br> <em>o terceiro m\u00eas do ano,<\/em><br> <em>afinal padecia de uma grave maleita e n\u00e3o sabia,<br> regurgitou uma pandemia,<br> que virou do avesso o calend\u00e1rio [escolar]<br> <\/em><br> parte do tal corpo [docente], desmembrado por uma s\u00e9rie de enfermidades,<br> viu sua condi\u00e7\u00e3o agravada pela urg\u00eancia da calamidade,<br> encontrava-se desabilitado para lidar com as inusitadas ocorr\u00eancias,&nbsp;<br> pelo que se limitou a aguardar pelas instru\u00e7\u00f5es,<br> para saber como sumariar a exponencial entropia!<br> <br> os escrevinhadores oficiais tentaram administrar essa emerg\u00eancia&nbsp;<br> com planos [de conting\u00eancia] e directrizes errantes,<br> o recurso \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de papelada destitu\u00edda de utilidade p\u00fablica,&nbsp;<br> foi considerada, por esses in\u00e1beis de servi\u00e7o,<br> a melhor forma de conter a rebeldia da peste!<br> <br> mas,&nbsp;<br> rapidamente se percebeu&nbsp;<br> que a epidemia desprezava a literatura desnecess\u00e1ria&nbsp;<br> e tinha uma ambiciosa agenda de expans\u00e3o!<br> pelo que,<br> os programas de salva\u00e7\u00e3o nacional,&nbsp;<br> alinhavados a destempo,<br> se revelaram incapazes de impedir a eclos\u00e3o do dantesco turbilh\u00e3o de perip\u00e9cias,<br> que tornou o ar infeccioso.<\/p>\n\n\n\n<p>5.&nbsp;<br><em> mar\u00e7o&nbsp;<br> viu-se for\u00e7ado a revisitar&nbsp;<br> o seu legado romano<br> invocou Martius,&nbsp;<br> e a tradi\u00e7\u00e3o antiga,<br> suspendeu [quase] tudo&nbsp;<br> e deu in\u00edcio a outra forma de narrar o tempo<\/em><br> <br> o miser\u00e1vel desempenho dos administradores do planeta<br> liberalizou a circula\u00e7\u00e3o dos agentes infecciosos entre humanos,<br> a capitaliza\u00e7\u00e3o das suas in\u00e1beis governan\u00e7as,<br> rendeu \u00e0 nova doen\u00e7a o estatuto de pandemia,<br> era dia 11 de mar\u00e7o e, em solo luso, a vida [escolar] de-corria!<br> <br> uma suave tristeza tomou conta de alguns rostos<br> era sinistro o tempo que acabara de chegar,<br> o sol despedia-se do mar sem o poder tocar.<br> <br> incapaz de processar tal como\u00e7\u00e3o,<br> o corpo [docente],<br> habituado a encarar o presente com apatia,<br> limitou-se a cumprir a desdita do costume,<br> enfiou-se, com a restante popula\u00e7\u00e3o [escolar],<br> nas salas [de aula] habituais,&nbsp;<br> destitu\u00eddas de janelas para vislumbrar o mundo!<br> <br> por\u00e9m,<br> o surto cresceu,&nbsp;<br> a apatia sucumbiu,<br> a rotina virou entropia &nbsp;<br> e [quase] tudo foi suspenso.<br> <br> a imin\u00eancia do cont\u00e1gio for\u00e7ou a reclus\u00e3o a mudar de resid\u00eancia,<br> ainda era mar\u00e7o quando, em solo luso, a vida [escolar] foi interrompida!<br> <br> 6.&nbsp;<br> <em>mar\u00e7o,&nbsp;<br> m\u00eas exc\u00eantrico,<br> enleado entre a aurora e a escurid\u00e3o,&nbsp;<br> foi tomado pelo dia eterno,<br> por tempo [ainda] indeterminado&nbsp;<br> <\/em><br> o rigor da calamidade,&nbsp;<br> que virou o quotidiano [escolar] do avesso,<br> \u00e9 produto de uma sinistra obra coletiva, em constante progress\u00e3o!<br> de neglig\u00eancia em neglig\u00eancia,&nbsp;<br> de delito em delito,<br> essa a\u00e7\u00e3o conjunta tem fomentado a ru\u00edna das estruturas [de ensino]&nbsp;<br> e a decad\u00eancia dos seus recursos [humanos].<br> <br> os despojos dessa guerra ruinosa,<br> desprovidos de ornamentos,&nbsp;<br> foram compelidos, pela urg\u00eancia da pandemia&nbsp;<br> a sair \u00e0 rua num dia assim\u2026 eterno&nbsp;<br> <br> v\u00edtima de inc\u00faria prolongada,&nbsp;<br> esvai-se, nesse tempo vago, o corpo [docente],<br> num confrangedor estado de emerg\u00eancia,<br> enterram-se as rela\u00e7\u00f5es humanas numa multiplicidade de transa\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias,<br> num segundo se arruma a vida toda numa vers\u00e3o digital do mundo!<br> <br> na penumbra de uma primavera adiada,&nbsp;<br> as conversas remotas sucedem-se&nbsp;<br> atrav\u00e9s de uma paran\u00f3ica multiplicidade de ecr\u00e3s,<br> \u00e9 a vida [escolar] do futuro, que chegou adiantada,&nbsp;<br> clamam, entusiasmados, os famigerados gestores da ru\u00edna globalizada!<br> <br> fincado num confinamento solit\u00e1rio<br> o corpo [docente] perdeu o lugar de fala<br> n\u00e3o consegue perceber que<br> \u00e9 tempo de minguarda,<br> \u00e9 hora de salvar as mem\u00f3rias,<br> para evitar continuar a viver entorpecido!<br> [ *do crioulo cabo-verdiano &#8211; a hora em que o sol est\u00e1 a pino ]<br> <br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"566\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/isolamento_futuro-2-1024x566.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1822\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/isolamento_futuro-2-1024x566.jpg 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/isolamento_futuro-2-300x166.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/isolamento_futuro-2-768x425.jpg 768w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/isolamento_futuro-2.jpg 1402w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>&#8220;o futuro s\u00f3 \u00e9 tempo quando chega&#8221;<br>de permeio,&nbsp;o perene e a (datilo)grafia do (iso)lamento&nbsp;<br>[d&#8217;apr\u00e8s Oswaldo Os\u00f3rio]<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"569\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/janela_01-1024x569.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1813\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/janela_01-1024x569.jpg 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/janela_01-300x167.jpg 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loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"542\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ESCOLA-2-1024x542.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1823\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ESCOLA-2-1024x542.jpg 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ESCOLA-2-300x159.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ESCOLA-2-768x407.jpg 768w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ESCOLA-2.jpg 1758w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>na imagem, mem\u00f3rias de uma aula perto do mar, sob a hora de minguarda<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nia Marques<br>mar\u00e7o, 2020<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. mar\u00e7o, tinha tudo para ser um m\u00eas igual aos outros, [quase] nada sugeria o contr\u00e1rio, os h\u00e1bitos enfadonhos e as 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