{"id":184,"date":"2016-08-26T22:14:08","date_gmt":"2016-08-26T22:14:08","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=184"},"modified":"2017-04-19T22:51:22","modified_gmt":"2017-04-19T22:51:22","slug":"li-ber-da-des","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2016\/08\/26\/li-ber-da-des\/","title":{"rendered":"li.ber.da.des"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>ousadia. franqueza. licen\u00e7a. desassombro. demasiada familiaridade.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante um tempo, quase eterno, acumularam-se<em> layers<\/em> de medos diversos<br \/>\nMedo do vizinho, medo do amigo, medo do mo\u00e7o da esquina, medo do barbeiro, medo da senhora do peixe, medo do professor, medo do doutor, medo imenso dos ativos servos do senhor que ditava os destinos.<br \/>\nMedos mesquinhos alimentaram a intriga,<br \/>\nA pobreza de car\u00e1cter tratou do resto,<br \/>\nUm vasto ex\u00e9rcito de civis, munidos de c\u00e9rebros resignados \u00e0 clausura perp\u00e9tua, foram adquirindo intoler\u00e2ncia cr\u00f3nica, odiavam quem arriscava outra sorte tentando desenhar outro caminho.<br \/>\nSem lugar para d\u00favidas ou questionamentos, cada um se habituou a ocupar a fun\u00e7\u00e3o que lhe coubera em jeito de destino. abafar a brisa nova que de leve soprava converteu-se em primordial des\u00edgnio!<br \/>\nAssim cresceu e se fortaleceu a &#8220;tropa&#8221;, os fi\u00e9is servidores ampararam com dedica\u00e7\u00e3o os caprichos do ditador, cumpriram os des\u00edgnios, teceram uma rede fina, forte e resistente que atribuiu firmeza \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es macabras de um homem s\u00f3, simpl\u00f3rio, bacoco e pequenino.<br \/>\nEntretanto, na surdina do anonimato, bem l\u00e1 no fundo da clandestinidade, os desertores ousaram prevaricar, resistiram estoicamente \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio. Na penumbra, debaixo da escada, na cave profunda, debaixo da pedra, em papel fino e delicado gravaram as coordenadas, constru\u00edram um outro caminho.<br \/>\nN\u00e3o foram muitos, seguiram desgastados, acossados, refugiados em lugares ermos e despidos. Os tormentos apareceram em v\u00e1rias curvas do caminho.<br \/>\nO ditador era bul\u00edmico, tinha uma fome insaci\u00e1vel, a tirania era o seu sustento preferido. Cada vez mais exigente na qualidade dos cozinhados, empreendeu um caminho de voraz e monstruosa criatividade. Nunca lhe faltaram <em>chefs<\/em> dedicados, alimentaram o monstro com uma imensid\u00e3o de pratos sanguin\u00e1rios.<br \/>\nCerto dia, depois de muitos dias, j\u00e1 o ditador havia ca\u00eddo (por descuido sentou-se numa cadeira apodrecida) surgia a liberdade.<br \/>\nNa mem\u00f3ria coletiva foram semeados os \u00edcones do dia de festa. A flor, o soldado, a espingarda convertida numa jarra, o ve\u00edculo pesado de guerra revestido de gente, mais umas quantas cenas pac\u00edficas, ternas e amorosas pintaram de vermelho quente esse 1\u00ba dia.<br \/>\nHoje, tantos dias transcorridos, festejam-se as mem\u00f3rias em cerim\u00f3nias despidas de gl\u00f3ria.<br \/>\nFaltou a inscri\u00e7\u00e3o, falhou a atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidade, l\u00e1 longe em 74, na euforia dos festejos, dilu\u00edram-se as figuras, apagaram-se os vest\u00edgios e muita gente m\u00e1 partiu sem acusa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs regressos n\u00e3o tardaram a acontecer, o regresso da gente m\u00e1, o regresso dos medos mesquinhos, o regresso das vontades tiranas, o regresso dos homens bacocos e pequeninos.<br \/>\nOntem , 42 anos depois, festejou-se o dia em que tudo parecia novo. Ontem, uma vez mais, foi lembrado o dia que anunciou a liberdade. hoje e nos pr\u00f3ximos amanh\u00e3s a liberdade continuar\u00e1 a ser uma promessa adiada, por muitos desconhecida e por outros tantos odiada!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ousadia. franqueza. licen\u00e7a. desassombro. demasiada familiaridade. Durante um tempo, quase eterno, acumularam-se layers de medos diversos Medo do vizinho, medo do amigo, medo do mo\u00e7o da esquina, medo do barbeiro, medo da senhora do peixe, medo do professor, medo do doutor, medo imenso dos ativos servos do senhor que ditava os destinos. 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