{"id":3068,"date":"2022-02-02T17:25:56","date_gmt":"2022-02-02T17:25:56","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=3068"},"modified":"2022-02-14T13:01:00","modified_gmt":"2022-02-14T13:01:00","slug":"do-exilio-perene-como-morada-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2022\/02\/02\/do-exilio-perene-como-morada-da-resistencia\/","title":{"rendered":"do ex\u00edlio perene como morada da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cOs povos origin\u00e1rios ainda est\u00e3o presentes neste mundo, n\u00e3o porque foram exclu\u00eddos, mas porque escaparam. \u00c9 interessante recordar como, em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta, resistiram com todas as suas for\u00e7as e coragem para n\u00e3o serem completamente engolidos por este mundo utilit\u00e1rio. (\u2026) Escapar dessa captura e experimentar uma exist\u00eancia que n\u00e3o se rendeu ao sentido utilit\u00e1rio da vida cria um lugar de sil\u00eancio interior. Nas regi\u00f5es que sofreram uma forte interfer\u00eancia utilit\u00e1ria da vida essa experi\u00eancia de sil\u00eancio foi prejudicada.\u201d<br><\/p><cite>Ailton Krenak, A vida N\u00e3o \u00e9 \u00fatil, ideias para salvar a Humanidade<br><br><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-background has-very-dark-gray-color has-very-light-gray-background-color\">A luta, pela conquista de poder, tem suscitado contendas grotescas entre esp\u00edritos sacros e rendeiros da democracia. Uns e outros, n\u00e3o olham a meios, quando em causa est\u00e1 a usurpa\u00e7\u00e3o do Tempo, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o do ritmo a que sucede a vida-de-todos-os-dias da Humanidade, que resta.<br><br>Rivais de circunst\u00e2ncia, arqui-inimigos, figurinhas not\u00e1veis, elites emergentes, herdeiros de capitais an\u00f3nimos, administradores de organiza\u00e7\u00f5es-sem-outros-fins-que-n\u00e3o-sejam-os-lucrativos, l\u00edderes de gr\u00e9mios oportunistas e indiv\u00edduos portadores de um sem fim de t\u00edtulos acad\u00e9micos, juntos ou uns contra outros, ora travam lutas mesquinhas, ora celebram medonhos pactos de agiotagem, com os quais se prop\u00f5em (continuar a) reduzir \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o a natureza humana.<br><br>A pegada de destrui\u00e7\u00e3o, que esta corja deixa por onde passa, tem provocado a ru\u00edna da empatia social, o que, lamentavelmente, tem acelerado a degrada\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas.<br><br>Contudo, e apesar de ruinosos, os planos de explora\u00e7\u00e3o destes Vendilh\u00f5es do Tempo, contam com farta coopera\u00e7\u00e3o e in\u00fameros aliados, o que tem ampliado consideravelmente o seu potencial destrutivo. Pelo que, n\u00e3o h\u00e1 ramo de atividade que escape \u00e0s investidas desses parceiros de conveni\u00eancia, que actuam, deliberadamente, no sentido de corromper, pela cobi\u00e7a, a dignidade humana. Lamentavelmente, n\u00e3o faltam criaturas desprez\u00edveis, desprovidas de afei\u00e7\u00e3o que, a troco de fama e fortuna, se predisponham \u00e0 indec\u00eancia e ao trabalho-sujo de cultivar a mediocridade, como forma de tolher o discernimento da humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"571\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Captura-de-ecr\u00e3-2022-02-02-\u00e0s-15.46.08-1024x571.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3073\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Captura-de-ecr\u00e3-2022-02-02-\u00e0s-15.46.08-1024x571.png 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Captura-de-ecr\u00e3-2022-02-02-\u00e0s-15.46.08-300x167.png 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Captura-de-ecr\u00e3-2022-02-02-\u00e0s-15.46.08-768x428.png 768w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Captura-de-ecr\u00e3-2022-02-02-\u00e0s-15.46.08.png 1933w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>das ind\u00fastrias criativas da Cultura de Massas <br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-background has-very-dark-gray-color has-very-light-gray-background-color\">Ora, perante este desgra\u00e7ado quadro de circunst\u00e2ncias, n\u00e3o ser\u00e1 de espantar que a natureza humana se encontre desvalida e, por isso, resignada \u00e0 (mono)cultura med\u00edocre, que transforma o mundo num pardieiro mal-frequentado!<br><br>Neste decadente cen\u00e1rio, desenhado pela gan\u00e2ncia e colorido com matizes diversas de soberba, o Tempo v\u00ea-se aprisionado e a Vida despojada de emo\u00e7\u00e3o, como\u00e7\u00e3o, sensibilidade e mem\u00f3ria.&nbsp;<br>O triunfo desta agiotagem est\u00e1 estabelecido de pedra-e-cal, \u00e9 imagem de marca de uns quantos bazares de quinquilharias e bugigangas, administrados por <em>expertises<\/em> na forja de artes e letras e na sua venda a retalho!&nbsp;<br><br>Enclausurada, numa invisibilidade forjada a ferro-e-fogo, a natureza humana est\u00e1 incapaz de interpelar a ordem f\u00e9rrea estabelecida, para reclamar o direito a enxergar e ser enxergado de forma digna!<br><br>Apesar de parecer imposs\u00edvel escapar a esta vil realidade, h\u00e1 quem tenha essa proeza, dispondo-se \u00e0 ventura de encontrar no ex\u00edlio caminho para a autodetermina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a evas\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suave; exige coer\u00eancia e sensibilidade para distinguir os bons instantes das miser\u00e1veis consequ\u00eancias.<br><br>Nestes termos, o evasionismo \u00e9 acto de resist\u00eancia! Perene, tra\u00e7ado pela convic\u00e7\u00e3o de quem procura escapar \u00e0 vida contrafeita, \u00e0 agiotagem med\u00edocre e \u00e0 insularidade social que caracterizam a geo-grafia das sociedades sombrias e embrutecidas pela concorr\u00eancia entre indiv\u00edduos, nas quais n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o dispon\u00edvel para albergar uma <em>verdadeira comunidade e um verdadeiro di\u00e1logo<\/em>, que s\u00f3 podem &#8220;existir onde cada um pode ter acesso a uma experi\u00eancia directa dos factos e onde todos disp\u00f5em dos meios pr\u00e1ticos e intelectuais para decidir sobre a solu\u00e7\u00e3o dos problemas&#8221;. (in, Guy Debord, Anselm Jappe)<br>O ex\u00edlio \u00e9 um <em>caminho longe<\/em>, de vontade, que sucede entre a fortuna das <em>az\u00e1guas<\/em> e a estiagem prolongada. N\u00e3o \u00e9 penit\u00eancia, nem degredo, \u00e9 <em>sabura<\/em> <em>pa kem ki sta bai, trist\u00e9za pa kem ki sata fika (tempos apraz\u00edveis para quem parte, tristeza para quem fica).<\/em><br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"685\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/exiliose-c\u00f3pia-1024x685.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3075\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/exiliose-c\u00f3pia-1024x685.jpg 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/exiliose-c\u00f3pia-300x201.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/exiliose-c\u00f3pia-768x514.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>do ex\u00edlio como acto de resist\u00eancia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m a pr\u00e1tica da evas\u00e3o exige talento inato, rebeldia e coragem para consagrar a vida \u00e0 interpela\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias. Claro est\u00e1, que, pelos requisitos exigidos, o exerc\u00edcio deste of\u00edcio \u00e9 raro e, maioria das vezes, considerado inaceit\u00e1vel pelos restantes seres humanos. Por isso, estar em ruptura \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o natural das almas exc\u00eantricas, que ousam caminhar de forma desajustada ao estilo-de-vida-resignada institu\u00eddo.\u00a0<br><br>Seria fundamental identificar as circunst\u00e2ncias que desencadeiam o evasionismo, para compreender o teor e os termos da ofensiva que tem subtra\u00eddo \u00e0 natureza a sua humanidade. Seria, tamb\u00e9m, crucial identificar os agentes, que cometem esses ataques abjectos, para exp\u00f4r o impacto e o alcance das suas miser\u00e1veis e mesquinhas a\u00e7\u00f5es. No entanto, desgra\u00e7adamente, a essencialidade n\u00e3o se sobrep\u00f5e \u00e0 efic\u00e1cia da (des)ilus\u00e3o, pelo que, n\u00e3o \u00e9 de admirar que, num Tempo subordinado \u00e0 soberba dos Vendilh\u00f5es, n\u00e3o haja disponibilidade para refletir sobre a realidade!\u00a0<br><br>A manuten\u00e7\u00e3o, a ferro-e-fogo, da indisponibilidade para a reflex\u00e3o, que faz crescer a (des)ilus\u00e3o, \u00e9 atividade amplamente disseminada! Agraciada pela academia, submetida ao capital, assegurada pelos movimentos c\u00edvicos, comprometidos com as agendas pol\u00edticas e validada pelos intelectuais e ativistas, subsidiados por capitais antag\u00f3nicos \u00e0s causas que dizem defender. Entre as c\u00e1tedras f\u00fateis de uns e as causas oportunistas de outros se esvai a Humanidade.\u00a0<br><br>O Tempo agrilhoado a uma (des)ilus\u00e3o que algu\u00e9m quer eterna, n\u00e3o tem espa\u00e7o para dissid\u00eancias, t\u00e3o pouco para apreciar os seres que vagueiam pela crista da ruptura, ainda que sejam vitais para a preserva\u00e7\u00e3o da Humanidade, que resta.<br> <br>Ousar escrever a vida-de-todos-os-dias com uma caligrafia determinada, expressiva, livre de condicionalismos e amarras \u00e9 fen\u00f3meno invulgar e, por isso, senten\u00e7a de anonimato e invisibilidade no seio da dominante monocultura da mediocridade.\u00a0<br><br>Apesar de condenado e, assim, impossibilitado de se exibir nos bazares de quinquilharias e bugigangas, o exilado n\u00e3o hesita e continua a escrevinhar a sua vida e obra, pois, jamais foi sua pretens\u00e3o alcan\u00e7ar fama, notoriedade ou fortuna nessa ind\u00fastria da cultura submissa aos caprichos do Capital!<br> <br><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:right\" class=\"has-text-color has-background has-small-font-size has-very-dark-gray-color has-very-light-gray-background-color\">Ant\u00f3nia Marques<br>artista dragoeiro<br>em ex\u00edlio perene<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c\u2026cada ocasi\u00e3o em que o sujeito n\u00e3o modela o seu mundo \u00e9 considerada uma demiss\u00e3o\u2026\u201d<br><\/p><cite>Anselm Jappe, Guy Debord<\/cite><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs povos origin\u00e1rios ainda est\u00e3o presentes neste mundo, n\u00e3o porque foram exclu\u00eddos, mas porque escaparam. \u00c9 interessante recordar como, em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta, resistiram com todas as suas for\u00e7as e coragem para n\u00e3o serem completamente engolidos por este mundo utilit\u00e1rio. 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