{"id":3405,"date":"2022-09-26T16:09:11","date_gmt":"2022-09-26T16:09:11","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=3405"},"modified":"2022-09-26T16:12:09","modified_gmt":"2022-09-26T16:12:09","slug":"viver-na-praia-ou-morrer-no-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2022\/09\/26\/viver-na-praia-ou-morrer-no-mar\/","title":{"rendered":"Viver na Praia ou morrer no Mar!"},"content":{"rendered":"\n<p>[ navegar \u00e0 bolina dos Acordos de Pescas &#8211; Parte I ]<\/p>\n\n\n\n<p>Longe vai o tempo, em que a temer\u00e1ria navega\u00e7\u00e3o \u00e0 bolina era a \u00fanica forma de mitigar o isolamento das ilhas de Cabo Verde. Grandes homens, ao leme de pequenas embarca\u00e7\u00f5es, entre fa\u00e7anhas e infort\u00fanios, lan\u00e7aram ao mar uma fr\u00e1gil e fina rede de liga\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas e, assim, encontraram forma de evitar que os ilh\u00e9us sucumbissem \u00e0s agruras, impostas pelas fronteiras do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, lamentavelmente, no tempo que vai hoje, a desloca\u00e7\u00e3o entre ilhas permanece enredada numa s\u00e9rie de desventuras e perip\u00e9cias, tantas vezes insuper\u00e1veis, que condicionam a vida (e a morte) dos cabo-verdianos. Pois, se no entretanto, as embarca\u00e7\u00f5es foram ganhando escala, os homens que tomaram o leme ter\u00e3o perdido car\u00e1ter e eleva\u00e7\u00e3o. So\u00e7obram os ilh\u00e9us, enredados em promessas vagas, acordos sem fundo e parcerias abusivas.<\/p>\n\n\n\n<p>A insularidade, condi\u00e7\u00e3o que por si s\u00f3 apresenta uma s\u00e9rie de constrangimentos, v\u00ea-se fatalmente agravada com a actual debilidade das liga\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas. \u00c9, no m\u00ednimo, confrangedor que um pa\u00eds com 99,3% de territ\u00f3rio mar\u00edtimo, explorado por enormes arrast\u00f5es estrangeiros, continue enclausurado em dez peda\u00e7os de ch\u00e3o, que representam apenas&nbsp; 0,7% do seu territ\u00f3rio!<\/p>\n\n\n\n<p>A frota desajustada, a frequ\u00eancia irregular, o abandono de certas rotas, a displic\u00eancia de quem governa, a aus\u00eancia de embarca\u00e7\u00f5es para acudir a emerg\u00eancias, entre muitos outros aspectos, t\u00eam contribu\u00eddo para acentuar as vicissitudes, inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser ilh\u00e9u. Infelizmente, n\u00e3o faltam provas, relatos e evid\u00eancias da ang\u00fastia que, \u00e0 vista de todos, flutua no mar. Ser\u00e1 este quadro obra de uma qualquer senten\u00e7a divina? Ou uma previs\u00edvel desgra\u00e7a, provocada pela falta de zelo dos governantes da na\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se, num passado remoto, a pen\u00faria das liga\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas traduzia as debilidades econ\u00f3micas e estruturais do pa\u00eds, como se justificar\u00e1 que, hoje, num presente patrocinado pelos acordos de pescas com a Uni\u00e3o Europeia (UE), a pen\u00faria se mantenha?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estar\u00e3o os governantes da na\u00e7\u00e3o habilitados para negociar tratados de mobilidade com a UE, quando, efectivamente, n\u00e3o conseguem sequer garantir que os seus concidad\u00e3os possam navegar entre-ilhas de forma confort\u00e1vel, digna e segura?<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, as in\u00fameras evid\u00eancias e ret\u00f3ricas discursivas apontam para um rotundo N\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um facto incontorn\u00e1vel o que t\u00eam ganho os armadores da UE, com os famigerados acordos de pesca, no entanto, \u00e9 muito dif\u00edcil percepcionar as melhorias efectivas que esta parceria especial ter\u00e1 trazido \u00e0 vida da generalidade dos cabo-verdianos!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Melhoria da frota pesqueira? Aumento de capacidade de pesca? Melhores condi\u00e7\u00f5es de armazenagem e tratamento do pescado? Mercados de peixe mais apetrechados? Portos mais seguros? Embarca\u00e7\u00f5es de transporte de passageiros mais dignas? Equipamentos de socorro e emerg\u00eancia? Incremento de vigil\u00e2ncia e dete\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas ilegais e de pesca abusiva? Diminui\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia desleal entre a frota pesqueira estrangeira e a frota nacional? Inspe\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o da sobre-explora\u00e7\u00e3o praticada pelos atuneiros da UE? Cria\u00e7\u00e3o de medidas de gest\u00e3o adequadas \u00e0 regula\u00e7\u00e3o do sector das pescas e salvaguarda dos recursos marinhos?<\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente, quem ousa adentrar as ilhas de p\u00e9 na txon, \u00e0 margem de mordomias e privil\u00e9gios, rapidamente se d\u00e1 conta que as ditas melhorias s\u00e3o mais escassas do que a chuva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Os portos ao abandono, as embarca\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis e o cora\u00e7\u00e3o\u2026 sempre nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>O pescador asfixiado com a carestia da vida, mergulha \u00e0s escuras, para colocar peixe na boca dos mi\u00fados.<\/p>\n\n\n\n<p>A faina desprotegida, continua a ver passar navios para l\u00e1 das 2 milhas.<\/p>\n\n\n\n<p>O atum que escapa aos arrast\u00f5es \u00e9 raro e a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o debate-se com a falta de pescado.<\/p>\n\n\n\n<p>A peixeira rabida no mercado, labuta para vender o peixe antes que se derreta o gelo.<\/p>\n\n\n\n<p>De carreta, sob sol incandescente, vende-se o peixe embrulhado em panos da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quando o mar est\u00e1 agitado, os botes pikinotes ficam em terra, enquanto os arrast\u00f5es permanecem ao largo, subtraindo peixe gra\u00fado ao Atl\u00e2ntico!<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Infelizmente, s\u00f3 na melodia dos Tubar\u00f5es \u00e9 que \u201ctude kriston tude sinbron\/ ten diretu na se gota d\u2019\u00e1gu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Longe vai o tempo em que Cabo Verde celebrou com a UE um Acordo de Pescas. Por\u00e9m, lamentavelmente, no tempo que vai hoje, as vantagens e as medidas compensat\u00f3rias prometidas, permanecem afastadas da vida da generalidade dos cidad\u00e3os cabo-verdianos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Homens mesquinhos ao leme de enormes arrast\u00f5es, entre promessas v\u00e3s e patranhas azuis, continuam a lan\u00e7ar ao mar impiedosas redes e ret\u00f3ricas discursivas e, assim, v\u00e3o encontrando forma de capturar (i)legalmente quantidades insustent\u00e1veis de pescado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o do acordo, confirmam-se os piores receios e as mais temidas suspeitas, Cabo Verde&nbsp; sucumbiu \u00e0 hegemonia da Uni\u00e3o Europeia. O pequeno pa\u00eds insular, n\u00e3o tem quem o defenda. A elite, que governa a na\u00e7\u00e3o, baixou os bra\u00e7os e aprendeu a sussurrar, em l\u00edngua estrangeira, o pre\u00e7o da independ\u00eancia &#8211; 750 mil euros (por ano) e uns trocados pelas toneladas de peixe capturado!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente, aliviar a \u201cbida mariadu\u201d dos seus concidad\u00e3os n\u00e3o tem sido prioridade dessas elites, cujo empenho tem estado, quase exclusivamente, ao servi\u00e7o da salvaguarda dos interesses das suas cong\u00e9neres europeias!<\/p>\n\n\n\n<p>Esse infeliz posicionamento, que tanto enfraquece e envergonha a na\u00e7\u00e3o cabo-verdiana, tem favorecido a sobranceria da Uni\u00e3o Europeia. Essa primazia, que transparece em cada palavra proferida pelos representantes e comiss\u00e1rios da UE, sediados em Cabo Verde, \u00e9 insustent\u00e1vel!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 insustent\u00e1vel que os ilh\u00e9us continuem a naufragar em narrativas miserabilistas, enquanto o Ministro do Mar navega em \u00e1guas internacionais, apregoando a sustentabilidade dos Oceanos!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 insustent\u00e1vel que o Acordo de Pescas&nbsp; permane\u00e7a como est\u00e1 &#8211; uma patranha que faz sucumbir o Mar e a dignidade dos cabo-verdianos!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-2 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>da Praia<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n\n\n\n<p>24 agosto 2022<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p>Este artigo foi originalmente publicado no jornal \u201cSantiago Magazine\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/santiagomagazine.cv\/colunista\/viver-na-praia-ou-morrer-no-mar-navegar-a-bolina-dos-acordos-de-pescas-parte-i\">https:\/\/santiagomagazine.cv\/colunista\/viver-na-praia-ou-morrer-no-mar-navegar-a-bolina-dos-acordos-de-pescas-parte-i<\/a><\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o do acordo, confirmam-se os piores receios e as mais temidas suspeitas, Cabo Verde\u00a0 sucumbiu \u00e0 hegemonia da Uni\u00e3o Europeia. 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