{"id":3409,"date":"2022-09-26T16:17:38","date_gmt":"2022-09-26T16:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=3409"},"modified":"2022-09-26T16:17:40","modified_gmt":"2022-09-26T16:17:40","slug":"cnad-po-de-ser-o-epicentro-da-contra-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2022\/09\/26\/cnad-po-de-ser-o-epicentro-da-contra-revolucao\/","title":{"rendered":"CNAD, p\u00f3 de ser o epicentro da contra-revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Adaptar o Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD) \u00e0 estrat\u00e9gia das ind\u00fastrias criativas, ter\u00e1 sido a miss\u00e3o, no decurso dos \u00faltimos sete anos, do director que h\u00e1 dias cessou fun\u00e7\u00f5es. E\u2026 talvez, tenha sido esse o seu maior equ\u00edvoco!<\/p>\n\n\n\n<p>Reza a hist\u00f3ria que, em 2015, o jovem gestor, \u00e0 data um entusiasta das economias criativas, ter\u00e1 assumido as fun\u00e7\u00f5es directivas do, ent\u00e3o, Centro Nacional de Artesanato (CNA). Logo em seguida, em 2016, rec\u00e9m-chegado \u00e0 pasta das Ind\u00fastrias Criativas, o Ministro tomou o (epi)centro cultural de Mindelo e, num (p)acto solene, empossou Irlando Ferreira como representante do Minist\u00e9rio da Cultura e das Ind\u00fastrias Criativas na regi\u00e3o Norte, para manter sob controle as ventanias culturais do barlavento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De l\u00e1, at\u00e9 hoje, a cultura cabo-verdiana tem percorrido um <em>caminho longe, que j\u00e1 n\u00e3o devia ter sangue<\/em>, mas tem\u2026 em que as bocas j\u00e1 n\u00e3o deviam <em>reservar fechadas a dor para mais al\u00e9m<\/em>, mas\u2026 fechadas est\u00e3o. Malogradamente, esse caminho tem sido trilhado no sentido de desviar as institui\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia cultural, <em>fincada no h\u00famus da realidade material do meio onde se desenvolve<\/em>, outrora preconizada por Am\u00edlcar Cabral.<\/p>\n\n\n\n<p>Simbolicamente, o acidentado percurso do CNA coloca em evid\u00eancia as consequ\u00eancias sociais e culturais operadas pelo tr\u00e1gico desvio \u00e0 direita que o pa\u00eds tem vindo a empreender, e, talvez por isso mesmo, valha a pena refletir sobre a institui\u00e7\u00e3o, que hoje se apresenta ao mundo sob uma fachada (des)colorida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Reza a sabedoria popular que o esp\u00edrito do tempo inaugural, do p\u00f3s-independ\u00eancia, ter\u00e1 dado a alento \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma quimera cultural colectiva, da qual haveria de resultar, em 1976, a cria\u00e7\u00e3o da primeira institui\u00e7\u00e3o cultural de Cabo Verde &#8211; Cooperativa Resist\u00eancia. Um ano depois, o <em>p\u00e3o &amp; fonema<\/em>, lan\u00e7ados com ousadia e determina\u00e7\u00e3o \u00e0 terra-rec\u00e9m libertada, fariam brotar o CNA.<\/p>\n\n\n\n<p>Gerado pela tenacidade experimental de um grupo de professores e artistas, o original CNA conferiu ao Artesanato, criado pelo <em>povo das ilhas, uma voz diferente<\/em>, livre, aut\u00f3noma e eloquente. E, assim ter\u00e1 contribu\u00eddo de forma incisiva para a consolida\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o da identidade cultural da juven\u00edssima na\u00e7\u00e3o cabo-verdiana. Ao sabor de um tempo novo, particularmente exigente e desafiante, esse ousado e criativo processo de valoriza\u00e7\u00e3o social, das obras realizadas com mestria pelas m\u00e3os do povo, urdiu uma significativa revolu\u00e7\u00e3o, que ter\u00e1 despertado fundamentais actos de cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o esp\u00edrito desse tempo revolucion\u00e1rio foi-se dissipando e, \u00e0 medida que as ousadias culturais perdiam o f\u00f4lego, diminu\u00eda a capacidade de resist\u00eancia do CNA. A institui\u00e7\u00e3o ter\u00e1 resistido, enquanto p\u00f4de, \u00e0 mediocridade e \u00e0 prepot\u00eancia dos \u201cpoderes\u201d. Mas\u2026 acabaria por sucumbir, ao ver a sua ess\u00eancia enredada nas tramas neoliberais, das famigeradas ind\u00fastrias criativas.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, o fatal e lament\u00e1vel decl\u00ednio do CNA ter\u00e1 sido apenas a face de um perecimento mais alargado, que se repercutiu no enfraquecimento da Voz do povo cabo-verdiano, menorizando a sua sapi\u00eancia cultural e desvalorizando socialmente a mestria das suas cria\u00e7\u00f5es. Infelizmente, o alento, experienciado no inaugural tempo do p\u00f3s-independ\u00eancia, n\u00e3o ter\u00e1 passado de uma sensa\u00e7\u00e3o fugaz, um breve lapso entre dois momentos antag\u00f3nicos. De um lado, a fragilidade da resist\u00eancia colectiva, que reivindicava o direito a ser dono de si e do pr\u00f3prio ch\u00e3o, do outro, a pujan\u00e7a da contra-revolu\u00e7\u00e3o, patrocinada por capitais estrangeiros, que tem vindo a adulterar o semblante da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A altera\u00e7\u00e3o de nomenclatura do CNA para CNAD, implementada no decurso da Comiss\u00e3o de Servi\u00e7o que administrou a institui\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos sete anos, assinala indelevelmente essa adultera\u00e7\u00e3o. Colocar a Arte e o Design no Centro das din\u00e2micas culturais da institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ter\u00e1 sido um mero acto de gest\u00e3o. Muito pelo contr\u00e1rio, essa altera\u00e7\u00e3o simboliza um (p)acto pol\u00edtico determinante, que tornou oficial o ruinoso processo de mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura cabo-verdiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, efectivamente, os cidad\u00e3os mais desavisados poder\u00e3o considerar exagerada esta \u00faltima infer\u00eancia, uma vez que, a rentabiliza\u00e7\u00e3o do potencial econ\u00f3mico e social do setor cultural e criativo, aparenta ser uma coisa bastante positiva. No entanto, quem conhece com detalhe os efeitos ruinosos, que resultam da desregulada e impiedosa mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura e do conhecimento, saber\u00e1 que, infelizmente, n\u00e3o existe qualquer excesso na afirma\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos tais cidad\u00e3os mais desavisados que, eventualmente, queiram entender os meandros dessa problem\u00e1tica,&nbsp; recomenda-se que caminhem pelos recantos mais inacess\u00edveis das ilhas, procurem pelos artistas, visitem as oficinas dos artes\u00e3os, que \u00e0 margem dos regulamentos e dos cart\u00f5es de acesso \u00e0 ind\u00fastria do marketing criativo, ousam continuar a transformar a vida com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Caso tenham a boa-fortuna de encontrar uma dessas almas eloquentes, apreciem a sua sabedoria, desfrutem da sua obra e resist\u00eancia, e escutem as suas opini\u00f5es acerca do (im)pacto da mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura e as (des)vantagens das ind\u00fastrias criativas nas suas pr\u00e1ticas di\u00e1rias. Estou certa de que a grandiloqu\u00eancia dos depoimentos e a crueza das circunst\u00e2ncias, com que esses artistas se debatem e labutam, ser\u00e3o suficientes para esclarecer o cidad\u00e3o, evitando que continue a acreditar nas fal\u00e1cias, propaladas, aos gritos, pelos entusiastas gestores das enfadonhas ind\u00fastrias e economias criativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos cidad\u00e3os, eventualmente mais avisados, cabe o desafio de continuar a refletir e a intervir de forma divergente, evitando integrar o coro de opini\u00f5es girat\u00f3rias, influenciadas pelos poderes que transformaram o CNAD num mero palco de actua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para (des)orientar esse caminho reflexivo, que sirva de mote a an\u00e1lise das consequ\u00eancias resultantes do excessivo entusiasmo com as economias criativas e da acr\u00edtica subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas culturais de \u00edndole neoliberal, que ter\u00e3o levado o ex-director do CNAD a implementar uma mudan\u00e7a institucional que, qual ironia do destino, haveria de culminar no seu pr\u00f3prio afastamento do cargo directivo!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 deveras lament\u00e1vel que a matriz da Cooperativa&nbsp; Resist\u00eancia, tenha dado lugar a um espa\u00e7o assim &#8211; cativo dos enredos das <em>gentes de morada<\/em> e dos neg\u00f3cios abusivos das ind\u00fastrias criativas.<\/p>\n\n\n\n<p>A todas as demais almas livres e eloquentes, que continuam a viver e a criar as suas pr\u00f3prias (trans)forma\u00e7\u00f5es \u00e0 margem das institui\u00e7\u00f5es, resta-vos aguardar que os artistas institucionalizados, ao abrigo das economias criativas, percebam que toda e qualquer aus\u00eancia de revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um (f)acto que enfraquece a cultura cabo-verdiana!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n\n\n\n<p>ao centro<\/p>\n\n\n\n<p>das ilhas do meio do mundo&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Este artigo foi originalmente publicado no jornal \u201cSantiago Magazine\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/santiagomagazine.cv\/colunista\/cnad-po-de-ser-o-epicentro-da-contra-revolucao\">https:\/\/santiagomagazine.cv\/colunista\/cnad-po-de-ser-o-epicentro-da-contra-revolucao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contudo, o esp\u00edrito desse tempo revolucion\u00e1rio foi-se dissipando e, \u00e0 medida que as ousadias culturais perdiam o f\u00f4lego, diminu\u00eda a capacidade de resist\u00eancia do CNA. 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