{"id":3584,"date":"2024-02-19T15:02:45","date_gmt":"2024-02-19T15:02:45","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=3584"},"modified":"2024-02-19T15:55:03","modified_gmt":"2024-02-19T15:55:03","slug":"polemicas-compositas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2024\/02\/19\/polemicas-compositas\/","title":{"rendered":"Pol\u00e9micas comp\u00f3sitas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-black-color has-text-color has-medium-font-size\"><em><a href=\"https:\/\/santiagomagazine.cv\/ponto-de-vista\/polemicas-compositas\">Esta reflex\u00e3o incorformada decorre da necessidade de colocar em perspetiva alguns enredos, a prop\u00f3sito do lan\u00e7amento de uma pol\u00e9mica obra comp\u00f3sita, da autoria de Manuel Brito-Semedo<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Pode o Tempo ter muitas Esquinas mas, por mais obtusos que sejam os \u00e2ngulos, jamais se poder\u00e1 adulterar a (geo)grafia do que tem dentro! Esta observa\u00e7\u00e3o (geo)m\u00e9trica decorre da necessidade de colocar em perspetiva alguns enredos, a prop\u00f3sito do lan\u00e7amento de uma pol\u00e9mica obra comp\u00f3sita, da autoria de Manuel Brito-Semedo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Quis o destino que a apresenta\u00e7\u00e3o do livro <a href=\"https:\/\/brito-semedo.blogs.sapo.pt\/cabo-verde-ilhas-crioulas-lancod-na-679824\">\u201cCabo Verde &#8211; Ilhas Crioulas\u201d<\/a>, envolvido numa densa <em><a href=\"https:\/\/santiagomagazine.cv\/cultura\/antropologo-brito-semedo-afirma-que-as-ilhas-cabo-verdianas-nao-sao-africanas?fbclid=IwAR1iGZhDL9zsq0UuSzmfDl1RRHS9e7DEse-b75R6N5WoSU2slIqowTEV1Lw\">trama di terra<\/a><\/em>, fizesse uma viragem \u00e0 Europa e viesse aportar no <a href=\"https:\/\/www.gremioliterario.pt\/instalacoes.php\">Gr\u00e9mio de Lisboa<\/a>. No cora\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole, sob o obscurecido c\u00e9u de uma noite de inverno, a agremia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria abriu as portas para acolher a cerim\u00f3nia. Paramentada de veludos, tape\u00e7arias, berloques e talhas de ouro estilo Imp\u00e9rio, repleta de cadeiras ocupadas, a sala rendeu aos ilustres oradores as v\u00e9nias e as etiquetas da praxe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\"><a href=\"https:\/\/www.gremioliterario.pt\/instalacoes.php#biblioteca-4\">Entre bustos, mobili\u00e1rio de s\u00e9culo e um p\u00falpito de vidro forjado<\/a>, foram proferidos os discursos e as aprecia\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. A pol\u00e9mica comp\u00f3sita, que anima a campanha de promo\u00e7\u00e3o do livro, foi suavizada e traduzida para um irrepreens\u00edvel, por\u00e9m insosso e negligente, portugu\u00eas acad\u00e9mico, muito em voga nos mornos eventos elitizados, que sucedem sobre o envelhecido e pretensioso solo desta prov\u00edncia europeia!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente, por raz\u00f5es alheias \u00e0s emerg\u00eancias que afligem o povo, o idioma da academia n\u00e3o tem fibra nem margem para diverg\u00eancias, pelo que, de fora dos discursos ficou a controv\u00e9rsia, a tal seiva que escorre da <em>trama di terra<\/em> de que \u00e9 feita a promo\u00e7\u00e3o do livro!<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o actos de cultura, clamava Am\u00edlcar Cabral mas, para mal dos nossos pecados, nem todos os eventos culturais s\u00e3o necessariamente exerc\u00edcios de revolu\u00e7\u00e3o!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frustando as melhores expectativas, o dito lan\u00e7amento das <em>ilhas crioulas<\/em>, foi um mero exerc\u00edcio de subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s regras formais institu\u00eddas! De facto, a excessiva solenidade do acto, refor\u00e7ou a urg\u00eancia de se operarem, quer no universo dos literatos quer na esfera da academia, mudan\u00e7as profundas, capazes de sublevar os esp\u00edritos contra a prolifera\u00e7\u00e3o das domin\u00e2ncias abusivas, que cerceiam o pensamento e manipulam a a\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente, os combates, as interven\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, os movimentos de resist\u00eancia, que outrora se travaram em nome da subleva\u00e7\u00e3o, liberta\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o dos povos, ter\u00e3o sido prematuramente descontinuados. Pelo que, por inc\u00faria ou por excessivo culto do ego, as reminisc\u00eancias e legados, v\u00e3o-se esboroando em mil e uma fabula\u00e7\u00f5es e em delicodoces tratados, repletos de palavras submissas \u00e0s vozes dos novos donos!<\/p>\n\n\n\n<p>Heran\u00e7a do ancestral tempo revolucion\u00e1rio, a todo e qualquer cidad\u00e3o \u00e9 reconhecida a liberdade de express\u00e3o. Por\u00e9m, no atual tempo re-configurado pelos ditames da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, o exerc\u00edcio desse fundamental direito de nada serve se n\u00e3o servir a quem tem o poder de difus\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, dada a dimens\u00e3o dos obs\u00e9quios medi\u00e1ticos e honrarias editoriais, concedidos ao livro em apre\u00e7o, recomenda a previd\u00eancia revolucion\u00e1ria que se indague a inspira\u00e7\u00e3o do verbo e a inten\u00e7\u00e3o das prosas, com as quais se pretende aligeirar cicatrizes antigas, de forma a esclarecer a que causa serve a difus\u00e3o da obra, que prop\u00f5e um <em>olhar novo<\/em> sobre a identidade cabo-verdiana.<\/p>\n\n\n\n<p>A formalidade solene da <em>casa grande<\/em>, onde decorreu o cerimonial de apresenta\u00e7\u00e3o do livro, deu nota das influ\u00eancias desse <em>olhar novo<\/em>, que ter\u00e3o estado na base dos subs\u00eddios aplicados na cria\u00e7\u00e3o da tal hist\u00f3ria alternativa, com a qual o autor pretende refutar o <em>destino africano<\/em> das <em>ilhas crioulas<\/em>. Efectivamente, pouco ou nada de novo se vislumbrou naquela sala, bem pelo contr\u00e1rio, tudo por ali denunciava uma ancestralidade pesada, conformada e vergada \u00e0s figuras de estilo e \u00e0s normas institu\u00eddas por uma anci\u00e3 <a href=\"https:\/\/www.gremioliterario.pt\/carta_regia.php\">Carta R\u00e9gia<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do oceano ter\u00e1 ficado a predisposi\u00e7\u00e3o para o debate ilustrado e a liberdade de conversar, com garra e afinco, sobre os sil\u00eancios que n\u00e3o cabem nas romanescas <em>soir\u00e9es<\/em>, destinadas a entreter velhos e renovados aristocratas! De facto, \u201co passado pode ser uma grande pris\u00e3o para qualquer cultura, se n\u00e3o for uma refer\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o, mais do que uma constru\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia.\u201d (M\u00e1rio L\u00facio, <em>Manifesto A Criouliza\u00e7\u00e3o<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, a proje\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica e os enredos suscitados pelo lan\u00e7amento do livro <em>Cabo Verde: Ilhas Crioulas &#8211; Da Cidade-Porto ao Porto-Cidade (s\u00e9c. XV &#8211; XIX)<\/em> na cidade, outrora capital do imp\u00e9rio, inscrevem-se na esfera dos discursos populistas e falaciosos que, sem pudor, mas com abundantes predicados hist\u00f3ricos, v\u00e3o tomando conta da p\u00fablica pra\u00e7a portuguesa. A aceita\u00e7\u00e3o e o tempo de antena, de que estes fen\u00f3menos gozam, n\u00e3o ser\u00e3o certamente obra do acaso! N\u00e3o, de facto, n\u00e3o haver\u00e1 qualquer casualidade nesta extrema <em>viragem<\/em> \u00e0 direita, pois \u00e0 medida que cresce o seu poder de sedu\u00e7\u00e3o, aumenta tamb\u00e9m a predisposi\u00e7\u00e3o dos seduzidos para voltarem as costas \u00e0s tormentas e aos crimes cometidos no recuado tempo colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>A rede de influ\u00eancias, urdida sobre secas, fome e muita explora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se dissolveu com a independ\u00eancia nem cedeu \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o! Os homens e mulheres, a quem o regime concedeu regalias e privil\u00e9gios, h\u00e1beis facilitadores de neg\u00f3cios e aventuras ultramarinas, mesmo em dias de intensa&nbsp; bruma, jamais deixaram de navegar \u00e0 bolina dos ventos mais favor\u00e1veis! Instalados nos lugares de poder e decis\u00e3o, colaboraram com parceiros diversos, imbu\u00eddos da miss\u00e3o de voltarem a erguer um imp\u00e9rio. E, eis que 50 anos volvidos, ressurgem engalanados, \u00e1vidos por retomarem a est\u00f3ria, no preciso instante em que eclodiram as revolu\u00e7\u00f5es e se concretizaram as independ\u00eancias, alegando que falta relatar com um <em>olhar novo<\/em> a recuada <em>manh\u00e3 moderna<\/em>, que estar\u00e1 na base de um singular <em>mundo novo<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>E porque as palavras est\u00e3o carregadas de conota\u00e7\u00f5es e m\u00e1s mem\u00f3rias, esperemos que a op\u00e7\u00e3o lexical do autor seja, t\u00e3o s\u00f3, uma infeliz coincid\u00eancia com o passado. Pois, da \u00faltima vez que Portugal assistiu \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o de algo n<em>ovo<\/em>, num \u00e1pice, ficamos 48 amargos anos mergulhados na mais <a href=\"https:\/\/permalinkbnd.bnportugal.gov.pt\/records\/item\/259221-decalogo-do-estado-novo?offset=7\">profunda escurid\u00e3o<\/a>, amarrados a uma autocracia liderada por um ditador sanguin\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p>A complexidade deste tempo, repleto de esquinas, \u00e2ngulos obtusos e proposi\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, constitui, de facto, uma interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos que ousam resistir \u00e0s domin\u00e2ncias abusivas! A aliena\u00e7\u00e3o, disfar\u00e7ada de douta literacia, em tempos utilizada para oprimir as almas e subordinar os esp\u00edritos, est\u00e1 de volta em toda a sua miser\u00e1vel plenitude.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cumpre a cada ser emancipado, ilustrado pela escola da revolu\u00e7\u00e3o, confrontar as manobras, os discursos acad\u00e9micos subvencionados, as fabula\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, as investiga\u00e7\u00f5es seletivas, as atividades culturais institucionalizadas e as pol\u00e9micas alinhadas com a situa\u00e7\u00e3o, para evitar que se repitam os epis\u00f3dios e as <em>prova\u00e7\u00f5es tit\u00e2nicas<\/em> de outrora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Longe do gr\u00e9mio e a salvo dos v\u00edcios do portugu\u00eas acad\u00e9mico, concluo esta inconformada reflex\u00e3o, fazendo votos de que as inquieta\u00e7\u00f5es aventadas venham a revelar-se meras extrapola\u00e7\u00f5es! Por\u00e9m, por coincid\u00eancia do destino, ou talvez n\u00e3o, a f\u00e9 depositada nessa aspira\u00e7\u00e3o foi de s\u00fabito abafada pelo som que me chega, atrav\u00e9s da RTP \u00c1frica: \u201cDecorre, esta semana, na ilha de S\u00e3o Vicente as negocia\u00e7\u00f5es para a implementa\u00e7\u00e3o do novo protocolo no \u00e2mbito do <a href=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2019\/06\/18\/1217\/\">Acordo de parceria<\/a> no dom\u00ednio das pescas entre a <a href=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2022\/05\/03\/3127\/\">Uni\u00e3o Europeia e Cabo Verde<\/a>.\u201d Ser\u00e1 este tipo de <em>viragem<\/em> que subsidia o pensamento e protege <em>as costas<\/em>, de quem declina o <em>destino africano<\/em> das <em>ilhas crioulas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"565\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/60257787_10214209563014877_247765234398265344_n-1024x565.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3132\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/60257787_10214209563014877_247765234398265344_n-1024x565.jpg 1024w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/60257787_10214209563014877_247765234398265344_n-300x166.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/60257787_10214209563014877_247765234398265344_n-768x424.jpg 768w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/60257787_10214209563014877_247765234398265344_n.jpg 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><a href=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2019\/06\/18\/1217\/\">O Povo das ilhas quer uma voz diferente<br>para o povo das ilhas<\/a><br>(<em>Ilhas somos todos , d&#8217;pr\u00e8s \u201cPoemas do Tempo das Trevas\u201d<\/em>)&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n\n\n\n<p>( 17 fev 2024, publicado em <a href=\"https:\/\/santiagomagazine.cv\/ponto-de-vista\/polemicas-compositas\">https:\/\/santiagomagazine.cv\/ponto-de-vista\/polemicas-compositas<\/a> )<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta reflex\u00e3o incorformada decorre da necessidade de colocar em perspetiva alguns enredos, a prop\u00f3sito do lan\u00e7amento de uma pol\u00e9mica obra comp\u00f3sita, da autoria de Manuel Brito-Semedo. 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