{"id":485,"date":"2016-11-03T23:43:06","date_gmt":"2016-11-03T23:43:06","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=485"},"modified":"2017-04-18T19:22:15","modified_gmt":"2017-04-18T19:22:15","slug":"485","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2016\/11\/03\/485\/","title":{"rendered":"MEDO"},"content":{"rendered":"<p>Medo? ou t\u00e3o s\u00f3 uma insuport\u00e1vel heran\u00e7a?<\/p>\n<p>O poder pol\u00edtico em Portugal no decurso dos \u00faltimos 40 anos, em sintonia com uma agenda global, especializou-se na agiliza\u00e7\u00e3o de expedientes burocraticamente corrosivos, atrav\u00e9s dos quais desmorona continuamente os conceitos de liberdade, democracia, justi\u00e7a. educa\u00e7\u00e3o e cultura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><strong>A quem serve este processo de desgaste e descredibiliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es? porque sucede de forma dissimulada? quais os objetivos desta miss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Boaventura Sousa Santos, refletindo sobre o atual estado das institui\u00e7\u00f5es, referiu que &#8221; as ruas s\u00e3o hoje os \u00fanicos espa\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o colonizados pelos mercados financeiros e \u00e9 por isso que estamos num per\u00edodo p\u00f3s-institucional (&#8230;) as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o l\u00e1, mas n\u00e3o est\u00e3o a funcionar como deveriam, porque foram sequestradas por antidemocratas em nome da democracia.&#8221;<\/p>\n<p>Este sequestro fragiliza a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas e os poderes institu\u00eddos, cria tens\u00f5es, gera desconfian\u00e7a, pot\u00eancia a incerteza e vulnerabilidade que assolam e inibem a liberdade da a\u00e7\u00e3o humana, provocando o medo.<\/p>\n<p>Na sociedade portuguesa o medo est\u00e1 presente, \u00e9 talhado em fun\u00e7\u00e3o de objetivos delineados pelos diversos poderes institu\u00eddos, imp\u00f5e-se como um instrumento de persuas\u00e3o, opera no sentido de viabilizar a transi\u00e7\u00e3o entre as nuances de regime, que t\u00eam fragilizado a liberdade da democracia, como afirmou Jos\u00e9 Gil &#8220;enquanto sociedade de transi\u00e7\u00e3o, entre um regime de medo e um regime que produz um certo tipo de terror (da exclus\u00e3o), Portugal, antes mesmo de ter conquistado e constru\u00eddo a liberdade da democracia, est\u00e1 j\u00e1 a perd\u00ea-la, entrando na sociedade globalizada de controlo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><strong>O medo, imposto pela Ditadura Salazarista, que submeteu, torturou e humilhou uma imensa parte da popula\u00e7\u00e3o portuguesa, atrav\u00e9s do esfor\u00e7o sofrido e a inabal\u00e1vel resist\u00eancia ter\u00e1 sido inteiramente vencido?<\/strong><\/p>\n<p>A trag\u00e9dia dos eventos conduzidos pelo autoritarismo salazarista entranhou-se nos corpos e depositou-se nas profundezas da alma, o medo instalou-se e n\u00e3o deu, nem d\u00e1 tr\u00e9guas. Jos\u00e9 Gil considera que o &#8220;o medo, sedimentado, invis\u00edvel, permaneceu&#8221; pois, na sua opini\u00e3o, o processo revolucion\u00e1rio de sa\u00edda do salazarismo ter\u00e1 sido demasiado suave e cordial com os respons\u00e1veis pelo antigo regime, pelo que n\u00e3o ter\u00e1 provocado a necess\u00e1ria liberta\u00e7\u00e3o do modelo de repress\u00e3o institu\u00eddo.<\/p>\n<p>A cordialidade e brandura dos gestos e das a\u00e7\u00f5es, o medo das afirma\u00e7\u00f5es potencialmente geradoras de conflito, s\u00e3o tra\u00e7os vincados, heran\u00e7a de um temperamento moldado pelas vontades caprichosas de um ditador. O Antigo Regime foi substitu\u00eddo, no entanto, n\u00e3o ter\u00e1 sido totalmente vencido, pois os tra\u00e7os caracterizadores da sua personalidade persistem, assolam e inibem a a\u00e7\u00e3o coletiva e contribuem para o fen\u00f3meno da n\u00e3o-inscri\u00e7\u00e3o que caracteriza a popula\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>O processo de submiss\u00e3o, empreendido pelo antigo regime, exigiu obedi\u00eancia incondicional e marcou de forma muito particular a popula\u00e7\u00e3o portuguesa. As consequ\u00eancias ainda se fazem sentir e determinam alguns dos comportamentos estruturantes quer individual quer coletivamente. O medo paira e regressa para assombrar os vivos, como descreveu Jos\u00e9 Gil.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><strong>&#8220;O 25 de Abril recusou-se, de um modo completamente diferente, a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo salazarista. N\u00e3o houve julgamentos de Pides nem de respons\u00e1veis do antigo regime. Pelo contr\u00e1rio, um imenso perd\u00e3o recobriu com um v\u00e9u a realidade repressiva, castradora, humilhante de onde prov\u00ednhamos. Como se a exalta\u00e7\u00e3o afirmativa da &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o&#8221; pudesse varrer, de uma penada, esse passado negro (&#8230;) quando o luto n\u00e3o vem inscrever no real a perda de um la\u00e7o afetivo (de uma for\u00e7a), o morto e a morte vir\u00e3o para assombrar os vivos sem descanso.&#8221;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O antigo regime encontrou na pris\u00e3o e na tortura, de homens e mulheres que ousavam divergir no discurso dominante, os mais fortes aliados para fazer imperar o medo, no entanto, esmo quando encarcerados, o terror f\u00edsico e psicol\u00f3gico extremo, n\u00e3o fez com que os presos pol\u00edticos vacilassem. O que ter\u00e1 inspirado essa for\u00e7a an\u00edmica? Que vest\u00edgios desse comportamento ter\u00e3o permanecido na sociedade portuguesa? O que ter\u00e1 restado dessa experi\u00eancia de n\u00e3o claudicar?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><strong>O medo inibe e paralisa a a\u00e7\u00e3o de muitos, no entanto, n\u00e3o consegue submeter e oprimir inteiramente a capacidade de resist\u00eancia de todos!<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medo? ou t\u00e3o s\u00f3 uma insuport\u00e1vel heran\u00e7a? O poder pol\u00edtico em Portugal no decurso dos \u00faltimos 40 anos, em sintonia com uma agenda global, especializou-se na agiliza\u00e7\u00e3o de expedientes burocraticamente corrosivos, atrav\u00e9s dos quais desmorona continuamente os conceitos de liberdade, democracia, justi\u00e7a. educa\u00e7\u00e3o e cultura. 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