{"id":523,"date":"2017-04-10T12:00:27","date_gmt":"2017-04-10T12:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=523"},"modified":"2017-04-19T23:11:51","modified_gmt":"2017-04-19T23:11:51","slug":"prova-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2017\/04\/10\/prova-de-vida\/","title":{"rendered":"Prova de Vida"},"content":{"rendered":"<p><strong>Prova de vida<\/strong><br \/>\n25 de janeiro de 2016, 10h11<br \/>\ndia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Marcelo para Presidente da Rep\u00fablica<br \/>\nembaixada portuguesa em Cabo Verde,<br \/>\nsala de espera<br \/>\nachada de santo ant\u00f3nio<br \/>\ncidade da Praia<br \/>\nSantiago<\/p>\n<p>De novo na Embaixada, ontem vim c\u00e1 para votar, hoje venho para certificar pap\u00e9is e contratos. Encontro uma quantidade consider\u00e1vel de gente. Estranho, n\u00e3o tem sido frequente. Observando os passos, as pessoas e os seus movimentos percebo tratar-se de uma rotina que ainda desconhe\u00e7o!<br \/>\nAguardo para receber a senha que ditar\u00e1 a hora da minha sorte &#8211; 21 foi o n\u00famero atribu\u00eddo.<br \/>\nA sala de espera, espa\u00e7o amplo e arejado, est\u00e1 apinhada, a televis\u00e3o ligada, a RTP \u00c1frica transmite o notici\u00e1rio.<br \/>\nChamam o 96, segue agitado mas solene o atendimento.<br \/>\nEncontro lugar para sentar, arrumo o saco no colo, pego na caneta e no caderno, tento arranjar forma de\u00a0 registar o passar do tempo. Come\u00e7o a desenhar umas letras, comprometidas apenas com o que observo! Gosto de cuidar da express\u00e3o das letras, aprecio a eleg\u00e2ncia da linha fina, preta e delicada que desfila ligeira e solta no papel. Os exerc\u00edcios gr\u00e1ficos, que previra longos, de pronto foram bem interrompidos,\u00a0 eis-me novamente surpreendida pela fortuna dos encontros imprevistos.<br \/>\nAproximou-se devagar um senhor, homem simples, alto, com ar preocupado, abordou-me delicadamente, confessou estar irritado, partilhou comigo o motivo da tormenta que tem perturbado o seu sono. Dormiu mal, disse, dorme sempre mal quando chega o dia de se submeter a esta prova de vida. Desta vez a consumi\u00e7\u00e3o foi maior, viu-se incrementada, a m\u00e1 sorte veio acompanhada.<br \/>\nEntre um desabafo e um esgar de sono mal dormido, o senhor apresentou-se, chamava-se Lucindo. Desgastado, aborrecido, mortificado pela crueldade resgatada por umas quantas m\u00e1s mem\u00f3rias, encontrava- se ali angustiado, entre o dilema de n\u00e3o ter cart\u00e3o para saldar a conta da sua prova de vida, e a tristeza de ter de encarar o professor Marcelo como o presidente escolhido.<br \/>\nEstava ali para cumprir a sua pena, para garantir a sobreviv\u00eancia via-se, ano ap\u00f3s ano, for\u00e7ado a revisitar o passado, a pisar de novo um ch\u00e3o onde sente que n\u00e3o \u00e9 bem vindo.<br \/>\nRecebeu a informa\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 poderia pagar os custos da opera\u00e7\u00e3o com cart\u00e3o banc\u00e1rio, ou comprovativo de opera\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria. Um enorme constrangimento, comentou agastado, pois n\u00e3o tinha cart\u00e3o, s\u00f3 sabia usar dinheiro! Eu tinha cart\u00e3o, estava decidido, esse sarilho passou a estar resolvido.<br \/>\nContinuamos a conversar, juntos revisitamos mem\u00f3rias e um sem n\u00famero de est\u00f3rias veladas, peda\u00e7os de tempo sofrido, eventos de um passado que muitos desejam ver apagado! N\u00e3o eu, nem t\u00e3o pouco o Sr. Lucindo.<br \/>\nAs suas palavras iluminaram a minha compreens\u00e3o, ouvi da sua boca o relato que falta, percebi, nas descri\u00e7\u00f5es amarguradas que fez de parte da sua exist\u00eancia, a indec\u00eancia com a qual se construiu Portugal.<br \/>\nAli estavam todas aquelas pessoas, \u00e0 espera de vez para prestarem provas de vida! para manterem o direito \u00e0 heran\u00e7a, reforma paga aos solu\u00e7os, pela seguran\u00e7a social de Portugal, pa\u00eds onde deixaram suor e dor, t\u00eam de vir mostrar sua vida!<br \/>\nO Sr. Lucindo ajudou-me a entender, percorri na sua companhia a hist\u00f3ria, atrav\u00e9s dos seus olhos vi Homens e Mulheres com rostos sumidos, cada ruga uma est\u00f3ria, cada artrose um abuso, alguns s\u00f3s, outros acompanhados, encontravam-se ali, sofriam de novo, sentiam-se outra vez emigrados!<br \/>\nO Sr. Lucindo, esteve em Portugal, trabalhou nas minas durante 15 anos, a\u00ed padeceu e foi esquecido. Vida dura, agreste, no escuro, nas entranhas da terra, horas longas sem ver a cor dos dias. Ainda hoje n\u00e3o consegue avaliar onde era mais madrasta a vida, se no escuro da mina, se \u00e0 superf\u00edcie, em plena luz do dia.<br \/>\nO Portugal, onde viveu, nunca o acolheu, foi tratado com sobranceria, mal amado, resistiu em sil\u00eancio, evitou a custo e com intenso esfor\u00e7o so\u00e7obrar.<br \/>\nAli, no dia da Prova de\u00a0 Vida, de novo num ch\u00e3o padrasto, carregado de pesar e revolta contida, foi for\u00e7ado a lembrar o terror das madrugadas que antecediam a renova\u00e7\u00e3o do \u201cvisto\u201d. N\u00e3o esquece o medo que lhe era provocado pelos c\u00e3es dos guardas, ati\u00e7ados propositadamente para o assustar, a ele e a todos os outros que necessitavam de ir \u00e0quele lugar. Qu\u00e3o dif\u00edcil foi esse tempo, tanto orgulho espoliado, tanto sofrimento padecido, o Sr. Lucindo n\u00e3o esquece, como poderia?<br \/>\nHomem s\u00e9rio, honrado, do Fogo, o seu semblante entristecido, denuncia as agruras padecidas \u00e0s m\u00e3os de um povo ignorante, em solo granjeado pela hipocrisia e regado pela falta de humanidade. Sem poder reagir, sofreu insultos e humilha\u00e7\u00f5es, foi for\u00e7ado a entender que afinal o ch\u00e3o que pisava n\u00e3o era de todos!<br \/>\nA conversa fluiu at\u00e9 alcan\u00e7armos o seu leito preferido, o colo de sua m\u00e3e, mulher simples de enorme e genu\u00edna sabedoria, que presen\u00e7a forte, que abnegada exist\u00eancia, cuidou daqueles que amou com extrema lisura, delicadeza e eleg\u00e2ncia, amparou os filhos no desenho dos seus destinos. Arranjou assim forma de se eternizar, habita discretamente o cora\u00e7\u00e3o do Sr. Lucindo.<br \/>\nPercorremos palavras repletas de emo\u00e7\u00f5es, vielas escuras, frias, apinhadas de gente perdida, demos voltas, subimos escarpas \u00edngremes, de passagem, desfrutamos de veredas, enveredamos por atalhos para alcan\u00e7armos mais depressa outros destinos, at\u00e9 que, fatigados, caminhamos mais devagar, eis-nos chegados a uma rua sem sentido &#8211; O professor Marcelo havia sido escolhido.<br \/>\nA televis\u00e3o, continuava a transmitir o notici\u00e1rio, anunciava sem descri\u00e7\u00e3o que Marcelo era o novo Presidente de Portugal.<br \/>\nInconsol\u00e1veis, eu e o Sr. Lucindo, clamamos em un\u00edssono a nossa tristeza, incr\u00e9dulos vociferamos &#8211; o que justificaria a escolha dos portugueses? como era poss\u00edvel terem eleito Marcelo\u00a0 para Presidente?<br \/>\nAgarrei na m\u00e3o do Sr. Lucindo e partimos, de novo em viagem, levei-o a visitar os domingos \u00e0 noite, em Portugal. Visitamos o porto de abrigo, o lugar televisivo seguro, onde durante anos a fio o professor Marcelo esteve ancorado, protegido do sol, do vento e do frio, foi Rei, governou sem advers\u00e1rio, ocupou o palco em regime exclusivo.<br \/>\nAchados nesse lugar infame, declamei para o Sr. Lucindo!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><i>ontem os votos de 24% dos eleitores foram, infelizmente, os suficientes para que o professor Marcelo passe a utilizar o t\u00edtulo de Presidente.<\/i><br \/>\n<i>Paciente e regularmente, domingo ap\u00f3s domingo, a convite da TVI, o professor, inebriado pela sua hiperatividade, exibiu sem mod\u00e9stia a sua sapi\u00eancia, alucinou e vociferou em direto, profeta do bem, do mal e do mais ou menos, assumiu-se como conselheiro dos destitu\u00eddos. em hor\u00e1rio nobre, sem constrangimentos de tempo, ou qualquer tipo de contradit\u00f3rio, esculpiu meticulosamente a personagem, conseguiu convencer, converteu em ativos eleitores os seus fi\u00e9is telespectadores.<\/i><br \/>\n<i>aparentando estar orgulhosamente s\u00f3, trilhou disciplinadamente o caminho! fez-se \u00e0 estrada, abra\u00e7ou, beijou, afagou, at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea! a sua primeira dama gravou, registou, transmitiu em direto todos os momentos \u201cimprevistos\u201d. e o plano estrat\u00e9gico funcionou! o investimento da TVI deu frutos, a novela seguir\u00e1 em direto, l\u00e1, a partir de S\u00e3o bento!<\/i><br \/>\n<i>Marcelo e a TVI mudaram de instala\u00e7\u00f5es, sem significativos obst\u00e1culos, nem t\u00e3o, pouco grandes desafios, do ecr\u00e3 \u00e0 presid\u00eancia, o trajeto fez-se f\u00e1cil e sem alarido!<\/i><br \/>\n<i>Esse Marcelo, que viveu entranhado em tristes e cru\u00e9is hist\u00f3rias, n\u00e3o sofreu nem foi responsabilizado. soube envergar as m\u00e1scaras, e esperar pela oportunidade, conseguiu acabou por ser premiado!<\/i><\/p>\n<p>O homem honrado do Fogo, emotivamente enfurecido, descreveu com palavras ajuizadas a desonra que o resultado de tal elei\u00e7\u00e3o representava. As palavras do Sr. Lucindo expressaram uma lucidez que faz falta! Fariam corar de vergonha qualquer ser de consci\u00eancia c\u00edvica desprovido.<br \/>\nDe novo com os p\u00e9s assentes num peda\u00e7o de ch\u00e3o de cabo verde, ocupado pela embaixada portuguesa, olhamos de relance a sala onde se esperava pela chamada, era outra vez hora de prestar prova de sobrevida, de novo hora de mostrar que apesar de terem sofrido ainda permanecem vivos. Continuam a existir, carregados de cicatrizes e tatuagens emotivas, resistiram estoicamente \u00e0s feridas provocadas pela malvadez de quantidade consider\u00e1vel de colonizadores pervertidos!<br \/>\nN\u00e3o Sr. Lucindo, infelizmente esse problema est\u00e1 longe de ser resolvido! para esse sarilho n\u00e3o vislumbro solu\u00e7\u00e3o. Tema tabu, assunto proibido, por desleixo ou simples falta de curiosidade, uma ampla maioria de portugueses prefere ignorar, declinam qualquer responsabilidade, juram que essas m\u00e1culas n\u00e3o pertencem ao nosso passado!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prova de vida 25 de janeiro de 2016, 10h11 dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Marcelo para Presidente da Rep\u00fablica embaixada portuguesa em Cabo Verde, sala de espera achada de santo ant\u00f3nio cidade da Praia Santiago De novo na Embaixada, ontem vim c\u00e1 para votar, hoje venho para certificar pap\u00e9is e contratos. 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