{"id":645,"date":"2017-06-10T18:30:21","date_gmt":"2017-06-10T18:30:21","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=645"},"modified":"2017-06-12T14:20:17","modified_gmt":"2017-06-12T14:20:17","slug":"soaresdosreis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2017\/06\/10\/soaresdosreis\/","title":{"rendered":"Escola Art\u00edstica Soares dos Reis &#8211; a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica ainda mora aqui?"},"content":{"rendered":"<p>Para uma reflex\u00e3o sobre a Escola Art\u00edstica Soares dos Reis [parte I]<\/p>\n<p>A longa hist\u00f3ria, de 132 anos da Escola Art\u00edstica Soares dos Reis (EASR), confere-lhe um estatuto muito particular, pelo que seria de esperar que tivesse hoje um papel crucial na reflex\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica, tutelada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, contribuindo de forma assertiva e decisiva para a melhoria da qualidade da rede do Ensino P\u00fablico em Portugal, no entanto, lamentavelmente tal n\u00e3o se tem verificado. Essa nobre tarefa encontra-se suspensa, em virtude da escola estar h\u00e1 demasiado tempo tomada por uma conflituosidade interna, aparentemente insan\u00e1vel.<br \/>\nO estatuto de excep\u00e7\u00e3o da Escola Soares dos Reis, alcan\u00e7ado pela sua especificidade, em constru\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, est\u00e1 ferido, magoado, cansado, visivelmente extenuado&#8230; tem sofrido os mais <em>vis<\/em> ataques, necessita de ser seriamente intervencionado, para que recupere e se recomponha, pois a sua <em>luz<\/em> faz falta \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica em Portugal.<\/p>\n<p>A cronologia dos eventos, que narra o passado recente da institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 esclarecedora, conta-nos a est\u00f3ria de uma escola embrulhada numa sucess\u00e3o de epis\u00f3dios lament\u00e1veis, sobre os quais muito haver\u00e1 para escrever, a hist\u00f3ria, num futuro pr\u00f3ximo, ocupar-se-\u00e1 de relatar, com detalhe, as intrigas e os enredos s\u00f3rdidos que moram neste local.<br \/>\nEntretanto, no presente, h\u00e1 que encarar um enorme desafio &#8211; tentar salvar a institui\u00e7\u00e3o, libert\u00e1-la dos interesses mesquinhos instalados, dos umbigos pequeninos, da falta de paix\u00e3o pela cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, da gest\u00e3o desorientada, que tem provocado feridas letais, <i>qui\u00e7\u00e1<\/i> jamais recuper\u00e1veis!<br \/>\n\u00c9 urgente salvaguardar o interesse p\u00fablico, resgatar a escola das intricadas, complexas e hediondas tramas a que tem estado submetida, pelo que \u00e9 imperioso promover uma s\u00e9ria reflex\u00e3o sobre as circunst\u00e2ncias e os modelos que t\u00eam (des)norteado as pr\u00e1ticas administrativas e pedag\u00f3gicas da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00a0Soares dos Reis, que ainda \u00e9 uma escola p\u00fablica, \u00e9 actualmente considerada, por muitos docentes de Artes Visuais e afins,\u00a0um abrigo, um \u00faltimo reduto, onde \u00e9 mais suport\u00e1vel conviver com o pesadelo de ter visto aumentada a idade para atingir a reforma. Este lugar, convertido numa esp\u00e9cie de \u00faltima morada profissional, d\u00e1 tamb\u00e9m guarida aos professores que, num passado recente, aceitaram serenamente a implos\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que sucedeu nos curr\u00edculos do ensino b\u00e1sico e secund\u00e1rio. Hoje, \u00a0v\u00edtimas do seu pr\u00f3prio sil\u00eancio, fogem desesperados das 10, 11 ou 12 turmas, a abarrotar de alunos, necess\u00e1rias para conseguirem ter um hor\u00e1rio completo, que justifique o seu posto de trabalho, na escola que lhes foi apresentada pelo destino. Na Soares dos Reis consideram-se a salvo desses (mas n\u00e3o de outros) problemas!<br \/>\nA Escola alberga ainda um amplo grupo de docentes de t\u00e9cnicas especiais. A especificidade da Soares dos Reis contribuiu tamb\u00e9m, para a cria\u00e7\u00e3o dessa nova &#8220;tipologia&#8221; profissional, \u00e0 qual o Minist\u00e9rio, estrategicamente, \u00a0convencionou chamar Docente de T\u00e9cnicas Especializadas. Sem grupo de recrutamento, ou t\u00e3o pouco enquadramento na carreira docente, encontram-se \u00e0 margem dos Concursos Nacionais, pelo que s\u00e3o recrutados (a baixo custo) em regime de contrata\u00e7\u00e3o direta, pelas escolas que deles possam eventualmente necessitar.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o dos Cursos Art\u00edsticos Especializados, l\u00e1 longe em finais dos anos 80, gerou uma cis\u00e3o, que ainda mora neste lugar, nomeadamente entre os Professores do Grupo de Artes Visuais e os rec\u00e9m criados Docentes de T\u00e9cnicas Especiais. In\u00fameros eventos t\u00eam contribu\u00eddo para acrescentar ru\u00eddo ao relacionamento, aparentemente dif\u00edcil, entre esses dois grupos de professores, entre os quais se destacam as modalidades de recrutamento, o peso diferenciado que assumem nas equipas pedag\u00f3gicas e a sobrevaloriza\u00e7\u00e3o das atividades de uns, em detrimento das tarefas de outros.<\/p>\n<p>T\u00eam fama e reconhecimento nacional as <i>sui generis<\/i> entrevistas, realizadas pela equipa directiva, recentemente exonerada, aos candidatos a T\u00e9cnicos Especializados, o alegado descr\u00e9dito relativamente ao processo de seria\u00e7\u00e3o \u00e9 tal, que atualmente\u00a0 s\u00f3 os menos avisados se dedicam \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de portf\u00f3lio e \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e empenhada da entrevista para a obten\u00e7\u00e3o de coloca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA autonomia para contratar, entretanto confiada \u00e0s escolas p\u00fablicas portuguesas, tem gerado uma s\u00e9rie de &#8220;candidatos premiados&#8221; os quais rapidamente se convertem em subservientes e humildes obreiros, garantindo com a sua bacoca lealdade os consensos autorit\u00e1rios, cuidando com estima e dedica\u00e7\u00e3o do bafio e do bolor, que crescem viscosos em torno da claustrof\u00f3bica unanimidade, necess\u00e1ria para garantir a &#8220;gest\u00e3o pacificada&#8221; dos estabelecimentos escolares. O impacto destas contrata\u00e7\u00f5es na EASR, assim como noutras escolas um dia h\u00e1-de ser aferido!<\/p>\n<p>O espa\u00e7o dedicado aos professores do grupo de Artes Visuais, considerados, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo,\u00a0matriz essencial e definidora da EASR, foi sendo progressivamente tomado por um conjunto de pr\u00e1ticas operativas e oficinais, desenvolvidas por um grupo extenso de Docentes de T\u00e9cnicas Especiais, aos quais \u00e9 atribu\u00edda a gl\u00f3ria de terem constru\u00eddo uma nova identidade da escola.<br \/>\nO desequil\u00edbrio instalado, pela considera\u00e7\u00e3o e reconhecimento profissional diferenciado, introduziu um enorme ru\u00eddo nas din\u00e2micas de trabalho. Consequentemente, tal diferencia\u00e7\u00e3o tem contribu\u00eddo para inviabilizar trabalhos e projetos transdisciplinares, tem feito aumentar \u00a0o reduto que cresce em torno das diferentes \u00e1reas de conhecimento, elevando os muros que se erguem em volta dos espa\u00e7os oficinais de trabalho. Inevitavelmente, tais circunst\u00e2ncias contribuem para o empobrecimento das experi\u00eancias pedag\u00f3gicas que se proporcionam aos alunos.<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameros os problemas que inibem o desej\u00e1vel bom funcionamento da escola, o ambiente conturbado, tenso e particularmente inquinado entre docentes, ser\u00e1 de facto aquele que mais estragos produz.<br \/>\nO mau relacionamento entre pares \u00e9 evidente, traduz-se numa tens\u00e3o constante, que se encontra na g\u00e9nese de uma pan\u00f3plia de eventos estranhos, perfeitamente desnecess\u00e1rios e completamente descabidos. A arrog\u00e2ncia no trato impera e corr\u00f3i os mais b\u00e1sicos preceitos de educa\u00e7\u00e3o e respeito, aniquilando qualquer hip\u00f3tese de que o conv\u00edvio profissional possa ser prof\u00edcuo. Esses comportamentos indecorosos, lamentavelmente, intentam encobrir inseguran\u00e7as, frustra\u00e7\u00f5es, fragilidades t\u00e9cnicas, cient\u00edficas e pedag\u00f3gicas.<br \/>\nAs repercuss\u00f5es, deste relacionamento profissional disruptivo, s\u00e3o imensas e abalam ruinosamente os projetos, as equipas pedag\u00f3gicas e as aprendizagens dos alunos. Esta despropositada &#8220;batalha campal&#8221; absorve, sem mod\u00e9stia, a j\u00e1 t\u00e3o reduzida for\u00e7a an\u00edmica dos professores, faz implodir as din\u00e2micas de trabalho colaborativas e relega para um plano terrivelmente secund\u00e1rio o(a) aluno(a).<\/p>\n<p>O &#8220;estado da arte&#8221;, quer internamente quer a n\u00edvel nacional, apontam para a necessidade profunda de repensar, de reformular, de renovar estrat\u00e9gias, atualizar metodologias e modelos de gest\u00e3o, em prol de uma significativa valoriza\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o dos projetos da escola.<br \/>\nAssim, \u00e9 essencial criar condi\u00e7\u00f5es que permitam encetar um di\u00e1logo reflexivo, livre, s\u00e9rio e construtivo, sobre um vasto conjunto de temas, enfrentando com coragem os actuais problemas, abrindo caminho a uma renova\u00e7\u00e3o fundamental e fundamentada do Ensino Art\u00edstico em Portugal.<br \/>\nInternamente esse processo reflexivo encontra-se bloqueado por &#8220;for\u00e7as ocultas&#8221; e receios infundados, teme-se que os resultados dessa reflex\u00e3o possam conduzir a uma altera\u00e7\u00e3o profunda das rotinas pedag\u00f3gicas h\u00e1 anos institu\u00eddas, ou que, inevitavelmente, obriguem a uma s\u00e9ria actualiza\u00e7\u00e3o do modelo de escola, para a qual n\u00e3o existe paci\u00eancia nem a m\u00ednima vontade.<\/p>\n<p>Interessa entender, perante este cen\u00e1rio desolador, como se poder\u00e1 salvar e reinventar o projeto educativo e pedag\u00f3gico, de forma a recuperar a jovialidade da forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, capaz de responder com coragem, inova\u00e7\u00e3o e criatividade aos desafios que se colocam \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica em pleno s\u00e9culo XXI.<br \/>\nUma escola \u00e9 por natureza um \u201corganismo vivo\u201d, mantido e alimentado pela energia criativa de todos aqueles que fazem acontecer o seu presente, no entanto, na atual EASR, e apesar de esta ser uma Escola Art\u00edstica Especializada, existe pouco disponibilidade para encarar, com a nobreza necess\u00e1ria, a constru\u00e7\u00e3o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o livre, cr\u00edtica e genuinamente criativa.<\/p>\n<p>Ensinar a SER atrav\u00e9s da Arte \u00e9 uma miss\u00e3o suspensa na EASR, pois aparentemente os s\u00e9rios e complexos problemas de gest\u00e3o interna absorvem, neste momento, boa parte da energia de todos aqueles que defendem acerrimamente\u00a0os fr\u00e1geis interesses instalados.<\/p>\n<p>A EASR \u00e9 actualmente uma escola dilacerada, angustiada e sem rumo definido, que entendeu adiar, para data incerta, a elei\u00e7\u00e3o de um Diretor, que se apresente capaz de desenhar um plano que envolva a comunidade escolar, na defini\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de um novo caminho!<\/p>\n<p>Urge encetar a reflex\u00e3o, abrir o debate, vencer os traumas, limpar a casa dos medos instalados e convidar a liberdade.<br \/>\n\u00c9 imperioso reconstruir a seriedade e a nobreza do Servi\u00e7o P\u00fablico de Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica.<br \/>\nEnquanto tal n\u00e3o suceder perdemos todos!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">10 de junho, de 2017<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nia Marques<br \/>\nArtista e Educadora<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(a prazo)<br \/>\nDocente de T\u00e9cnicas Especiais da Escola Art\u00edstica Soares dos Reis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para uma reflex\u00e3o sobre a Escola Art\u00edstica Soares dos Reis [parte I] A longa hist\u00f3ria, de 132 anos da Escola Art\u00edstica Soares dos Reis (EASR), confere-lhe um estatuto muito particular, pelo que seria de esperar que tivesse hoje um papel crucial na reflex\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica, tutelada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, contribuindo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":650,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,30,29,12,22,32,31],"tags":[],"class_list":["post-645","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-apontamentos-do-avesso","category-educacao-artistica","category-escola-artistica-soares-dos-reis","category-invisibilidades","category-pedagogias","category-reflexao","category-soares-dos-reis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=645"}],"version-history":[{"count":30,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/645\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":678,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/645\/revisions\/678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/650"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}