{"id":703,"date":"2017-08-08T01:27:09","date_gmt":"2017-08-08T01:27:09","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=703"},"modified":"2017-08-08T09:54:32","modified_gmt":"2017-08-08T09:54:32","slug":"ilha-residencia-artistica-em-transito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2017\/08\/08\/ilha-residencia-artistica-em-transito\/","title":{"rendered":"Ilha &#8211; resid\u00eancia art\u00edstica em tr\u00e2nsito"},"content":{"rendered":"<p><strong>Na mala de pano estrangeiro, as ferramentas e os materiais<\/strong><br \/>\nTenho comigo os l\u00e1pis, trouxe o azul esmeralda, o verde \u00e1gua, os ocres, os amarelos e tamb\u00e9m os vermelhos.<br \/>\nTenho a caneta preta fina, o pincel largo, os l\u00e1pis 4,5 e 6 B, a borracha e os marcadores de feltro.<\/p>\n<p>Tenho comigo os pap\u00e9is mais finos e delicados, tenho tamb\u00e9m os mais grossos, porosos, os de aguarela e os de registo.<br \/>\nNuma mala pequena tenho as fitas, as colas, as molas e os fios, tesoura e outras ferramentas de corte, r\u00e9guas e pano mal cozido.<br \/>\nNuma caixa de madeira emprestada guardei as ilhas, irregulares peda\u00e7os de papel, sobre as quais desconhe\u00e7o o destino.<br \/>\nDa estante trouxe tr\u00eas livros, um de Saramago e dois do Germano.<br \/>\nOrganizado, dobrado, combinado, est\u00e1 tudo bem guardado, numa mala que trago sempre comigo, linda, de cart\u00e3o, forrada com pano estrangeiro.<br \/>\nTenho comigo o que me faz falta,<br \/>\nna mala de pano estrangeiro guardo os materiais,<br \/>\nem mim conservo tudo o resto.<br \/>\nTenho os sons, as cores, os cheiros,<br \/>\ntenho os rostos, os tra\u00e7os, os jeitos<br \/>\ntrouxe tudo das ilhas,<br \/>\nonde habitei por um bocado.<\/p>\n<p><strong>De Santiago veio a gente, o azul, o milho e a enxada<\/strong><br \/>\nSantiago ilha do Atl\u00e2ntico, combina com Alentejo,<br \/>\npartilham a \u00e1gua do mesmo mar,<br \/>\npartilham a exaust\u00e3o provocada pelo mesmo sol,<br \/>\npartilham a sede, a m\u00fasica como interven\u00e7\u00e3o e a falta de cereais para o p\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas plan\u00edcies douradas do Alentejo h\u00e1 espa\u00e7o para desenhar a paisagem e a gente que habita a ilha de Santiago.<br \/>\nNeste deserto alentejano faltam todos os que abalaram.<br \/>\nFalta o azul uniforme, que desfila no corpo das crian\u00e7as, muitas meninas e meninos alinhados na beira da estrada, da Praia at\u00e9 Assomada, por onde fazem caminho para chegarem \u00e0 escola<br \/>\nfalta gente nesta paisagem alentejana<\/p>\n<p>Cante alentejano combina com batuco cabo-verdiano,<br \/>\nna g\u00e9nese a mesma for\u00e7a, aquela arrancada \u00e0s profundezas da alma<br \/>\nque se traduz numa inexplic\u00e1vel vontade de existir e intervir colectivamente.<\/p>\n<p>Alentejo terra dif\u00edcil, despida, esventrada, deserta, cruelmente esquecida e abandonada.<br \/>\nNo teu solo dourado, com uma enxada de ferro, ser\u00e3o depositadas as sementes do milho, outrora esperan\u00e7a de Santiago.<\/p>\n<p><strong>Da terra dourada vir\u00e1 tudo o resto<\/strong><\/p>\n<p>No dia 8 de agosto, na plan\u00edcie dourada do Baixo Alentejo se far\u00e1 caminho para cruzar etapas de uma eterna viagem!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mala de pano estrangeiro, as ferramentas e os materiais Tenho comigo os l\u00e1pis, trouxe o azul esmeralda, o verde \u00e1gua, os ocres, os amarelos e tamb\u00e9m os vermelhos. 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