{"id":852,"date":"2017-11-07T00:05:38","date_gmt":"2017-11-07T00:05:38","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=852"},"modified":"2019-12-26T22:41:10","modified_gmt":"2019-12-26T22:41:10","slug":"crioulo-lingua-da-mae-do-cabo-verdiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2017\/11\/07\/crioulo-lingua-da-mae-do-cabo-verdiano\/","title":{"rendered":"Crioulo, l\u00edngua (da) m\u00e3e do cabo-verdiano"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_877\" aria-describedby=\"caption-attachment-877\" style=\"width: 1074px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-877 size-full\" title=\"Crioulo cabo verdiano\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Captura-de-ecr\u00e3-2017-11-07-\u00e0s-17.10.54-c\u00f3pia.jpg\" alt=\"\" width=\"1074\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Captura-de-ecr\u00e3-2017-11-07-\u00e0s-17.10.54-c\u00f3pia.jpg 1074w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Captura-de-ecr\u00e3-2017-11-07-\u00e0s-17.10.54-c\u00f3pia-300x198.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Captura-de-ecr\u00e3-2017-11-07-\u00e0s-17.10.54-c\u00f3pia-768x506.jpg 768w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Captura-de-ecr\u00e3-2017-11-07-\u00e0s-17.10.54-c\u00f3pia-1024x675.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1074px) 100vw, 1074px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-877\" class=\"wp-caption-text\">crioulo, a l\u00edngua (da) m\u00e3e do cabo-verdiano<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ser Professora, em diversas sala de aula de Cabo Verde, tem sido um imenso privil\u00e9gio e fonte inesgot\u00e1vel de conhecimento. A escola, palco social e cultural privilegiado, proporciona uma r\u00e1pida percep\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias em que decorre o quotidiano do cidad\u00e3o cabo-verdiano, pelo que, n\u00e3o me tem sido dif\u00edcil percepcionar as intrincadas problem\u00e1ticas, suscitadas pelo dilema de ter uma l\u00edngua m\u00e3e e uma outra &#8220;madrasta&#8221;. Assunto que, pela import\u00e2ncia de que se reveste, tem motivado a minha reflex\u00e3o. Encontrei na Lei de Bases do Sistema Educativo de Cabo-Verde, o mote para este primeiro tomo da reflex\u00e3o em curso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Lei n\u00b0 103\/III\/90 de 29 de Dezembro<br \/>\nArtigo 9\u00b0 (Educa\u00e7\u00e3o e identidade cultural)<br \/>\n1. A educa\u00e7\u00e3o deve basear-se nos valores, necessidades e aspira\u00e7\u00f5es colectivas e individuais e ligar-se \u00e0 comunidade, associando ao processo educativo os aspectos mais relevantes da vida e da cultura cabo- verdianas.<br \/>\n2. Com o objectivo de refor\u00e7ar a identidade cultural e de integrar os indiv\u00edduos na colectividade em desenvolvimento, o sistema educativo deve valorizar a <b>l\u00edngua materna<\/b>, como manifesta\u00e7\u00e3o privilegiada da cultura.<br \/>\nArtigo 11\u00ba (Processo educativo)<br \/>\n1. A escola cabo-verdiana deve ser um centro educativo capaz de proporcionar o desenvolvimento global do educando, em ordem a fazer dele um cidad\u00e3o apto a intervir criativamente na eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida da sociedade.<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua (da) m\u00e3e<br \/>\ndo cabo-verdiano,<\/p>\n<p>l\u00edngua do colo, da reprimenda e do mimo<br \/>\nl\u00edngua de dizer o que vai dentro<br \/>\nl\u00edngua de amar<br \/>\nl\u00edngua de praguejar<br \/>\nl\u00edngua parceira, companhia constante<br \/>\nl\u00edngua de levar para todo o lugar!<\/p>\n<p>conversada<br \/>\napregoada<br \/>\ncantada<br \/>\naos berros ou em surdina,<br \/>\n\u00e9 forma de afirmar emo\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 modo de traduzir pensamento.<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\n\u00e9 mistura de fonemas que cruzaram o mar<br \/>\npara chegar \u00e0s margens da Praia,<br \/>\na\u00ed se fundiram com as palavras que j\u00e1 habitavam esse lugar!<br \/>\ndiversidade, pluralidade, crioulo \u00e9 obra maior,<br \/>\nmaterializada por uma quantidade de gente misturada,<br \/>\na quem roubaram a liberdade<br \/>\nde decidir o rumo a dar \u00e0 pr\u00f3pria vida.<br \/>\nhomens e mulheres amarrados a um pesado fardo de trabalho for\u00e7ado,<br \/>\narrancados \u00e0 for\u00e7a a outros lugares,<br \/>\natrozmente violentados,<br \/>\ntalvez tenham encontrado na l\u00edngua<br \/>\nforma outra de fincar ra\u00edzes e assim construir um lar!<br \/>\na liberdade, ainda que amputada, jamais pode ser sumariamente eliminada,<br \/>\n\u00e9 prova disso o crioulo, l\u00edngua que fala de autonomia,<br \/>\ncentelha de esperan\u00e7a que iluminou dias escuros!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua materna<br \/>\nl\u00edngua primeira<br \/>\n\u00e9 identidade<br \/>\n\u00e9 clamor de dores passadas<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua fortificada<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua entoada contra a corrente<br \/>\n\u00e9 compila\u00e7\u00e3o de vontades, anseios e receios<br \/>\n\u00e9 geografia, \u00e9 orografia<br \/>\n\u00e9 vento, \u00e9 poeira, \u00e9 tempestade<br \/>\n\u00e9 chuva que alimenta a sementeira<br \/>\n\u00e9 o sonho alcan\u00e7ado!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua de batalha<br \/>\narma de guerra<br \/>\nescudo contra tuf\u00f5es e furac\u00f5es<br \/>\nsua sina &#8211; luta permanente!<br \/>\nem conflito entre a fala e a escrita,<br \/>\nm\u00e3e ou ama de leite?<br \/>\n\u00e9 a primeira mas n\u00e3o \u00e9 a oficial!<br \/>\n\u00e9 identidade mas n\u00e3o \u00e9 documento!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua que se aprende a falar<br \/>\nmas que n\u00e3o se aprende a escrever,<br \/>\ntarda em encontrar forma de fundar ra\u00edzes<br \/>\nem lugar oficial!<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua que cedo se ouve<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua que se fala em casa e que se leva \u00e0 escola<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua que explica as letras, as cores e a tabuada<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua que traz o mundo<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua de emigrar<\/p>\n<p>Crioulo, l\u00edngua usada para explicar o conhecimento<br \/>\npara falar de hist\u00f3ria, de geografia, de qu\u00edmicas aplicadas e de geometrias<br \/>\nl\u00edngua ampla e alargada, \u00e9 primeira, \u00e9 materna!<br \/>\nmas n\u00e3o existe em consensual forma grafada!<\/p>\n<p>\u00e9 a l\u00edngua de existir<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua de sentir<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua de pensar<br \/>\n\u00e9 a l\u00edngua de sonhar<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua de falar<br \/>\nmas\u2026 n\u00e3o \u00e9 l\u00edngua suficiente para oficializar documentos!<\/p>\n<p>na rua, na escola, no mercado, na biblioteca, na pra\u00e7a, no parlamento<br \/>\no crioulo est\u00e1 em todo o lugar,<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua da conversa di\u00e1ria<br \/>\n\u00e9 forma de conversar com toda a gente!<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua que cada um escreve como sabe ou sente!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua em que outrora se afirmou<br \/>\no sonho de liberta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nhoje, poder\u00e1 estar a so\u00e7obrar,<br \/>\nse tempo houve, em que oralidade era suficiente para organizar e deixar fluir o pensamento<br \/>\no tempo que h\u00e1 hoje implica uma outra formula\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara evitar que o cidad\u00e3o cabo-verdiano continue enredado,<br \/>\nnuma teia de complexidades lingu\u00edsticas,<br \/>\nfor\u00e7ado a ver a sua raz\u00e3o diminu\u00edda e o seu pensamento condicionado,<br \/>\ninibido de se afirmar atrav\u00e9s de uma coerente forma escrita!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\nl\u00edngua (da) m\u00e3e,<br \/>\na primeira a chegar ao ouvido,<br \/>\nl\u00edngua de identidade,<br \/>\nl\u00edngua conciliadora,<br \/>\narticulou exist\u00eancia com sobreviv\u00eancia,<br \/>\nl\u00edngua de resili\u00eancia,<br \/>\nedificada entre o ber\u00e7o e o c\u00e1rcere,<br \/>\nfoi for\u00e7ada a incorporar l\u00e9xico estrangeiro,<br \/>\nmas foi valente e preservou,<br \/>\nos genes do ch\u00e3o africano!<\/p>\n<p>Crioulo<br \/>\n\u00e9 propriedade intelectual,<br \/>\n\u00e9 heran\u00e7a, \u00e9 fortuna,<br \/>\n\u00e9 forma de ler o mundo<br \/>\n\u00e9 gesto, \u00e9 palavra, \u00e9 som suave e agudo<br \/>\n\u00e9 corpo, \u00e9 esp\u00edrito, est\u00e1 repleta de nuances e feitios!<\/p>\n<p>Crioulo\u00a0\u00e9 tamb\u00e9m infort\u00fanio,<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua presa a um passado desgra\u00e7ado,<br \/>\namarrada pelos <em>pap\u00e9is de estado<\/em> ao portugu\u00eas,<br \/>\n\u00e9 l\u00edngua primeira, ref\u00e9m da segunda,<br \/>\nenredada numa outra forma de colonialismo!<\/p>\n<p>Enredo s\u00f3rdido, trama complexa,<br \/>\nsob a \u00e9gide da coopera\u00e7\u00e3o abnegada!<br \/>\ndecorre discreto, sem inibi\u00e7\u00e3o ou contradit\u00f3rio,<br \/>\no plano para evitar que o crioulo<br \/>\nseja l\u00edngua de afirma\u00e7\u00e3o e de autonomia!<br \/>\n<em>Cam\u00f5es<\/em> e seus disc\u00edpulos,<br \/>\ncarregados de privil\u00e9gios,<br \/>\ns\u00e3o <em>enviados especiais<\/em>,<br \/>\n<em>capacetes azuis,<\/em><br \/>\nf<em>or\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>\ndefensores aguerridos da purifica\u00e7\u00e3o da l\u00edngua,<br \/>\nanimados, seguem em miss\u00e3o!<\/p>\n<p>no conforto soalheiro de terra\u00e7os com vistas de mar,<br \/>\nassentes sob privilegiado ch\u00e3o cabo-verdiano,<br \/>\nprop\u00f5em-se amparar (bem devagar) a passagem,<br \/>\nprestar apoio t\u00e9cnico,<br \/>\napoiar a eleva\u00e7\u00e3o do Crioulo a l\u00edngua primeira!<br \/>\ngigante contradi\u00e7\u00e3o!<br \/>\narrog\u00e2ncia desmedida!<br \/>\npretender guiar o crioulo<br \/>\natrav\u00e9s da cartilha de outra l\u00edngua,<br \/>\nque se v\u00ea\u00a0embrulhada num tr\u00e1gico desacordo ortogr\u00e1fico!<\/p>\n<p>sustentar a consolida\u00e7\u00e3o do crioulo,<br \/>\nnunca ter\u00e1 sido real objetivo,<br \/>\ndesses abnegados e bronzeados obreiros,<br \/>\nser\u00e1 este apenas mais um epis\u00f3dio, parte de uma bem urdida fabula\u00e7\u00e3o<br \/>\npara evitar a queda das fr\u00e1geis paredes do ex-imp\u00e9rio?<br \/>\no portugu\u00eas jamais cederia o seu lugar a\u00a0uma l\u00edngua nativa!<\/p>\n<p>\u00c9 uma ilus\u00e3o, inibidora de a\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconsiderar-se que todos os cidad\u00e3os cabo-verdianos<br \/>\ns\u00e3o falantes e bons entendedores da l\u00edngua oficial, a portuguesa!<br \/>\nO estado de nega\u00e7\u00e3o, aprendido desde cedo, nos bancos da escola,<br \/>\ndiminui a auto-estima, rouba a determina\u00e7\u00e3o e vontade de afirma\u00e7\u00e3o!<br \/>\nUrge resolver o dilema,<br \/>\na l\u00edngua, m\u00e3e ou madrasta, deve estar ao servi\u00e7o do pensamento<br \/>\npara que se efective a comunica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nprimeira, segunda, oficial ou simplesmente m\u00e3e,<br \/>\nh\u00e1 sempre sa\u00edda para estes dilemas,<br \/>\nassim haja no presente,<br \/>\ncomo houve num passado remoto,<br \/>\ncoragem para combater a utiliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como factor de distin\u00e7\u00e3o social,<br \/>\nvalentia e determina\u00e7\u00e3o para evitar que o cabo-verdiano se sinta estrangeiro no seu pr\u00f3prio lar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser Professora, em diversas sala de aula de Cabo Verde, tem sido um imenso privil\u00e9gio e fonte inesgot\u00e1vel de conhecimento. 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