{"id":880,"date":"2017-11-19T18:18:48","date_gmt":"2017-11-19T18:18:48","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=880"},"modified":"2020-01-13T13:08:14","modified_gmt":"2020-01-13T13:08:14","slug":"pe-na-txom-e-dia-de-voltar-ao-tarrafal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2017\/11\/19\/pe-na-txom-e-dia-de-voltar-ao-tarrafal\/","title":{"rendered":"P\u00e9 na txom [\u00e9 dia de voltar ao Tarrafal]"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-886\" src=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_5450-1.jpg\" alt=\"\" width=\"933\" height=\"696\" srcset=\"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_5450-1.jpg 933w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_5450-1-300x224.jpg 300w, https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_5450-1-768x573.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/p>\n<pre><\/pre>\n<p><i>P\u00e9 na Txom<\/i><br \/>\n[dia de voltar ao Tarrafal]<\/p>\n<p>Ilha, Santiago, rochedo isolado, peda\u00e7o de terra enxuta, cercado de gente por todo lado! Lugar de morfologia inquieta, desenhado pelas diversas \u00ednsulas que tem dentro. Tem fogueira para cozinhar ao ar livre, tem <i>wi-fi<\/i> para falar com a fam\u00edlia, tem casas de bet\u00e3o, tem albergues prec\u00e1rios erguidos de fugida, tem eventos espor\u00e1dicos de <i>djunta mon, <\/i>dilu\u00eddos<i> <\/i>numa abundante e tr\u00e1gica indiferen\u00e7a, alimentada por estados agudos de <i>tratar apenas do pr\u00f3prio umbigo, <\/i>tem sobranceria exuberante, tem humildade excessiva, um real <i>mix hiper<\/i> contempor\u00e2neo, ancorado no mar do atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Rochedo sobrevivente,<br \/>\nexibe sem mod\u00e9stia um indisciplinado relevo,<br \/>\nprova de luta, constru\u00e7\u00e3o imponente,<br \/>\nmemorial \u00e0 persist\u00eancia,<br \/>\ncelebra\u00e7\u00e3o silenciosa da saudade e do esquecimento<br \/>\nenigm\u00e1tica obra, fruto de rebeli\u00e3o for\u00e7ada.<br \/>\npalco de contradi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmote de paix\u00f5es assolapadas e de graves decep\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPaisagem desconcertante, em permanente muta\u00e7\u00e3o,<br \/>\narrasa cora\u00e7\u00f5es quando se veste de verde,<br \/>\nemana um estranho deslumbramento quando, sem vestes, se d\u00e1 a ver em tons ocre e terra seca.<br \/>\nTeu ch\u00e3o comprido, escarpado, \u00e9 movedi\u00e7o<br \/>\n\u00e9 sementeira em <i>stand by<\/i>, \u00e9 palco de m\u00faltiplas cruzadas,<br \/>\narquivo de mem\u00f3rias importadas, laborat\u00f3rio de vidas modernas, mercado, casa de repouso,<br \/>\n<i>lobby <\/i>de hotel, coliseu, entreposto, \u00e9 eterno lugar de passagem!<\/p>\n<p>Vem gente de todo o lugar, pelo ar, pelo mar ou \u00e0 boleia de um potente cabo de fibra, todos os pretextos s\u00e3o justifica\u00e7\u00e3o, para ter de passar pela ilha. Territ\u00f3rio inquieto, guardado pelo impertinente ritmo das ondas, suas margens s\u00e3o um permanente <i>work in progress<\/i> obra em aberto de areia jovem e fina, que o mar se encarrega de levar para outros lugares!Vai e vem de gente atarefada, que passa pela ilha procurando forma de estrategicamente se posicionar no mundo, entre o <i>mainstream<\/i> e a bizarria da tradi\u00e7\u00e3o, crescem as f\u00e1bulas semeadas por uma imensid\u00e3o de desvairados argumentos. Entorpecido por tamanho rodopio, n\u00e3o h\u00e1 ch\u00e3o capaz de, a tempo, se regenerar, para evitar ver-se tomado e de pronto vilipendiado! Reza a hist\u00f3ria que tal ter\u00e1 sido o que sucedeu algures no Ch\u00e3oBom, peda\u00e7o de solo do Tarrafal!<\/p>\n<p>Ch\u00e3o Bom, lugar entalhado pela\u00a0 sorte e pela m\u00e1 fortuna,<br \/>\npr\u00f3digo em atrevidas manifesta\u00e7\u00f5es da natureza,<br \/>\nfoi em tempos morada da crueldade do tirano e de sua desalmada quadrilha,<br \/>\nsolo ultrajado, muralhado, onde o sol fervente convertia em torresmos a ousadia e os pensamentos divergentes!<\/p>\n<p>Tarrafal \u00e9 palavra de m\u00faltiplos sentidos, \u00e9 designa\u00e7\u00e3o de geografia aben\u00e7oada, \u00e9 sin\u00f3nimo de tortura, de ex\u00edlio for\u00e7ado e de liberdade aprisionada!<br \/>\nTarrafal \u00e9 a terra da ba\u00eda, \u00e9 Txom Bom, \u00e9 p\u00e9 na Txom!<\/p>\n<p>Tarrafal, fica numa ponta, l\u00e1 fim da ilha, entre o mar e a Serra Malagueta, bem longe da capital, \u00e9 ponto de encontro, \u00e9 retrato desfocado de um tempo (n\u00e3o) passado<i>, <\/i>\u00e9 soma de instantes, \u00e9 pintura a cores, \u00e9 fotoc\u00f3pia a preto e branco, \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 um lugar de gente, gente que vem de fora e gente que sempre esteve dentro!<\/p>\n<p>Gente, muita gente mi\u00fada e gra\u00fada,<br \/>\ndesenham, sem inten\u00e7\u00e3o, uma desconcertante coreografia!<br \/>\n\u00c9 rudeza pura, \u00e9\u00a0 linguagem de corpo que aprendeu a lidar com o constrangimento!<br \/>\n\u00c9 dan\u00e7a com a sombra, \u00e9 di\u00e1logo requintado com a luz do sol ardente!<br \/>\nManifesta\u00e7\u00e3o fervorosa de f\u00e9, canta-se com intensidade as proezas da vida,<br \/>\nEntoa-se com garra a palavra divina, roga-se por sorte na pesca e alegria para iluminar o dia!<br \/>\nA festa est\u00e1 na rua, \u00e9 tempo de celebrar o Nh\u00f4 Santo Amaro.<br \/>\n\u00c9 dia de voltar ao Tarrafal!<\/p>\n<p>Pelas ladeiras \u00edngremes, pelas encostas ardilosas, o caminho &#8211; sinuoso de terra batida, faz-se sempre de-pressa, entre o p\u00f3 e a areia fina, com um cal\u00e7ado resistente ou com um par de chinelos, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o, obst\u00e1culo, ou saudade capaz de deter a marcha, \u00e9 imperioso que se cumpra a viagem para descobrir de que ch\u00e3o \u00e9 feito o resto de mundo, que se estende para al\u00e9m da paisagem, \u00e9 esse o des\u00edgnio maior da gente simples que habita as entranhas da Ilha.<\/p>\n<p>Vou mar adentro,<br \/>\nlevo comigo tudo o que preciso,<br \/>\no vestido de festa, a \u00e1gua de cheiro, as cores de pintar o rosto, os brincos de ouro velho e um colar fino, n\u00e3o esque\u00e7o o <i>panu di terra <\/i>para me proteger dos embara\u00e7os e do frio.<br \/>\nTenho pressa, vou descal\u00e7a, quero sentir de que ch\u00e3o \u00e9 feito o caminho!<br \/>\n[ilha, condi\u00e7\u00e3o de viver mergulhado no oceano]<\/p>\n<p>Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00e9 na Txom [dia de voltar ao Tarrafal] Ilha, Santiago, rochedo isolado, peda\u00e7o de terra enxuta, cercado de gente por todo lado! 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