{"id":946,"date":"2018-02-01T19:22:02","date_gmt":"2018-02-01T19:22:02","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=946"},"modified":"2018-06-06T10:32:28","modified_gmt":"2018-06-06T10:32:28","slug":"palavras-escritas-em-voz-alta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2018\/02\/01\/palavras-escritas-em-voz-alta\/","title":{"rendered":"Palavras escritas em voz alta!"},"content":{"rendered":"<p><em>Privatizaram as estantes de sol na Cidade Alta<\/em><br \/>\n<em>privatizaram o mar, o c\u00e9u e as estrelas<\/em><br \/>\n<em>e o povo angolano entrou <\/em><br \/>\n<em>na escurid\u00e3o mercadol\u00f3gica<\/em><br \/>\n<em>a morder os frutos da zunga<\/em><br \/>\n<em>e a fugir porrada da pol\u00edcia<\/em><br \/>\n<em>com uma m\u00e3o na frente e outra <\/em><br \/>\n<em>atr\u00e1s do sonho que privatizaram. <\/em><br \/>\n<em>(&#8220;Privatizaram os Monumentos&#8221;, Jos\u00e9 Lu\u00eds Mendon\u00e7a)<\/em><\/p>\n<p>Fala escrita, a prop\u00f3sito das palavras ditas, em voz alta, pelo poeta que veio de <em>Angola, me diz ainda<\/em>.<\/p>\n<p>1\u00ba andar<br \/>\nedif\u00edcio antigo,<br \/>\nsala ex\u00edgua,<br \/>\nparedes de papel escrito,<br \/>\ns\u00e3o miolo,<br \/>\ns\u00e3o corpo,<br \/>\ns\u00e3o folhas reunidas<br \/>\ns\u00e3o p\u00e1ginas de livro.<\/p>\n<p>Loja idosa,<br \/>\nlugar arquivo,<br \/>\ntempo suspenso,<br \/>\nalbergue clandestino<br \/>\nlugar a prazo,<br \/>\ndependente<br \/>\nde um quase vencido contrato de arrendamento<\/p>\n<p>Enclave entorpecido,<br \/>\nisolado,<br \/>\nassiste \u00e0s vicissitudes,<br \/>\nque consomem a cidade,<br \/>\natrav\u00e9s de uma montra de vidro fino.<\/p>\n<p>No entre tanto<br \/>\nenquanto as ondas de choque,<br \/>\nprovocadas pelo meteorito capital,<br \/>\nque se abate sobre a cidade,<br \/>\nn\u00e3o quebram o fino vidro,<br \/>\npreenche-se a ac\u00fastica da sala<br \/>\ncom som sustenido,<br \/>\necoado pela palavra dita,<br \/>\na alta voz.<\/p>\n<p>Alto, de p\u00e9,<br \/>\nperto de uma pequena mesa redonda,<br \/>\nJos\u00e9 Lu\u00eds Mendon\u00e7a diz<br \/>\ncomo se encontra dilacerado<br \/>\nseu pa\u00eds,<br \/>\npalimpsesto de sonhos<br \/>\njamais alcan\u00e7ados.<\/p>\n<p>Fala de um pa\u00eds, ainda, destro\u00e7ado,<br \/>\nviolentado,<br \/>\npor m\u00faltiplas inj\u00farias e explora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O homem, poeta,<br \/>\nfala do ch\u00e3o que conhece,<br \/>\neterno campo de batalha<br \/>\nonde a maioria das pessoas<br \/>\n(sobre) vive tremendamente mal.<br \/>\nAtormentada pelo medo,<br \/>\npela falta de p\u00e3o,<br \/>\nem permanente luta di\u00e1ria,<br \/>\nencravada entre a desprez\u00edvel realidade<br \/>\ne a urg\u00eancia de ter algo para vender no mercado!<br \/>\nAngustiada<br \/>\npor n\u00e3o saber como escrever futuro,<br \/>\npor ter de conter e esconder suas paix\u00f5es!<\/p>\n<p>O discernimento que alimenta<br \/>\na lucidez da escrita,<br \/>\ndo homem poeta,<br \/>\ntem pre\u00e7o elevado,<br \/>\nempunhar a palavra<br \/>\npara contar a verdade,<br \/>\npode, no seu pa\u00eds inst\u00e1vel,<br \/>\nser ato punido com pena de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>As palavras que nos trouxe,<br \/>\nfaladas e impressas em papel novo,<br \/>\neram j\u00e1 antigas,<br \/>\npermaneceram longo tempo escondidas,<br \/>\npor receio das manobras pervertidas<br \/>\nimpostas pelo <i>Ngola<\/i> autorit\u00e1rio!<br \/>\nAssim disse o cidad\u00e3o poeta.<\/p>\n<p>Liberdade proscrita,<br \/>\nmal maior<br \/>\nsintoma de doen\u00e7a global,<br \/>\nfatal<br \/>\nque transforma<br \/>\npa\u00edses em condom\u00ednios privados,<br \/>\npessoas em angustiados cativos.<br \/>\nSofremos (quase) todos do mesmo mal!<\/p>\n<p>O homem, alto,<br \/>\ncuidador de palavras,<br \/>\nrespira fundo,<br \/>\nsorve com sofreguid\u00e3o o ar<br \/>\nque dizem ser novo,<br \/>\nenche de f\u00f4lego a escrita,<br \/>\nmas, n\u00e3o est\u00e1 capaz, ainda, de anunciar se o tempo \u00e9 verdadeiramente outro!<\/p>\n<p>Do alto da sua escrita,<br \/>\nn\u00e3o consegue vislumbrar<br \/>\no projeto de mudan\u00e7a,<br \/>\nsocialmente ambicionado,<br \/>\nfalta a nitidez da a\u00e7\u00e3o do governo<br \/>\npara consolidar a pretens\u00e3o do povo!<\/p>\n<p>Do alto da sua escrita<br \/>\nolha em redor,<br \/>\nreconhece sem dificuldade os tra\u00e7os,<br \/>\nos sulcos profundos,<br \/>\ncavados pela dor,<br \/>\nimposta pela for\u00e7a armada do colono!<\/p>\n<p>Do alto da sua escrita,<br \/>\nverifica,<br \/>\na for\u00e7a armada do (novo) colonizador<br \/>\nainda que disfar\u00e7ada e multicolor,<br \/>\ndotada de total insensibilidade \u00e0 dor,<br \/>\nmant\u00e9m-se implac\u00e1vel na arte de provocar e ampliar o terror!<\/p>\n<p>As palavras com que o poeta v\u00ea o mundo,<br \/>\nfalam de um pa\u00eds onde mora uma imensa juventude,<br \/>\nabandonada, dilacerada, desorientada,<br \/>\nsem escola capaz de ensinar a ler a vida!<\/p>\n<p>Estamos mergulhados numa trag\u00e9dia comum,<br \/>\npensamento livre, cr\u00edtico e desalinhado<br \/>\nn\u00e3o servem o capitalismo,<br \/>\nn\u00e3o interessam \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>trag\u00e9dia tamanha,<br \/>\nser fonte \u201cinesgot\u00e1vel\u201d,<br \/>\nde bens com elevado valor,<br \/>\ntransacionados sem pudor,<br \/>\nnum desumano mercado!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nia Marques<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Privatizaram as estantes de sol na Cidade Alta privatizaram o mar, o c\u00e9u e as estrelas e o povo angolano entrou na escurid\u00e3o mercadol\u00f3gica a morder os frutos da zunga e a fugir porrada da pol\u00edcia com uma m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s do sonho que privatizaram. (&#8220;Privatizaram os Monumentos&#8221;, Jos\u00e9 Lu\u00eds Mendon\u00e7a) Fala [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,17,5,32,1],"tags":[],"class_list":["post-946","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-apontamentos-do-avesso","category-democraia","category-dissenso","category-reflexao","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=946"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1028,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946\/revisions\/1028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}