{"id":960,"date":"2018-02-01T23:11:35","date_gmt":"2018-02-01T23:11:35","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/?p=960"},"modified":"2018-02-02T13:21:03","modified_gmt":"2018-02-02T13:21:03","slug":"960","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2018\/02\/01\/960\/","title":{"rendered":"Imperman\u00eancia geogr\u00e1fica induzida, ao servi\u00e7o da implos\u00e3o [espetacular] da sociedade civil!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Imperman\u00eancias Geogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>No final dos anos oitenta e in\u00edcio dos anos noventa, os acontecimentos pol\u00edticos conduziram a uma desintegra\u00e7\u00e3o da ordem mundial (\u2026) A ordem anteriormente vigente est\u00e1 a ser substitu\u00edda por tend\u00eancias de globaliza\u00e7\u00e3o, com efeitos em todo o mundo, causando o surgimento de novas cartografias mentais e assim exigindo sistemas de coordenadas radicalmente diferentes. Duas estrat\u00e9gias de rea\u00e7\u00e3o est\u00e3o a tornar-se vis\u00edveis: por um lado, existe o retorno a uma compreens\u00e3o est\u00e1tica e defensiva da localiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, destinada a garantir algum tipo de estabilidade (espa\u00e7o de regress\u00e3o, ethnospace), e por outro, a possibilidade daquilo que pode ser considerado como uma localiza\u00e7\u00e3o mais flex\u00edvel do self, que se destina a garantir um meio de orienta\u00e7\u00e3o dentro dos emergentes meta-espa\u00e7os resultantes da mobilidade global (espa\u00e7os mundo\/ espa\u00e7os tr\u00e2nsito). (Arns, 1997)<\/em><\/p>\n<p>A mobilidade entre classes sociais, em virtude da igualdade de oportunidades de acesso \u00e0 cultura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, emprego, cuja generaliza\u00e7\u00e3o um dia se acreditou ser poss\u00edvel, encontra-se hoje suspensa. A mobilidade geogr\u00e1fica imp\u00f4s-se em sua substitui\u00e7\u00e3o. As crescentes movimenta\u00e7\u00f5es de pessoas e bens, ficam a dever-se essencialmente \u00e0s exc\u00eantricas e imprevis\u00edveis vontades de um mercado voraz, sem rosto, sede ou geo-localiza\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>O desenraizamento das popula\u00e7\u00f5es que se movem, \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es que viabilizem suas vidas,\u00a0 produz uma angustiante aus\u00eancia de envolvimento com os lugares, provocando uma tr\u00e1gica dilui\u00e7\u00e3o das responsabilidades coletivas, dos direitos e deveres c\u00edvicos de participa\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Um amplo e meticuloso quadro de circunst\u00e2ncias, conduziram \u00e0 emerg\u00eancia de espa\u00e7os mundo \/espa\u00e7os tr\u00e2nsito. Espa\u00e7os onde todos somos migrantes latentes, assim o <i>mercado<\/i> resolva converter, alterar ou reposicionar o rumo das suas inten\u00e7\u00f5es financeiras, vivemos encravados entre uma comunidade internacional pouco solid\u00e1ria e um mercado global devorador.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Os migrantes representam os temores da falta de meios de subsist\u00eancia, do ex\u00edlio for\u00e7ado, da degrada\u00e7\u00e3o social, da exclus\u00e3o extrema, definitiva, do sermos relegados para um n\u00e3o-lugar, alheio ao universo da lei e dos direitos, e deste modo, encarnam todos aqueles medos existenciais subconscientes ou parcialmente conscientes que atormentam os homens e mulheres de todas as sociedades l\u00edquido-modernas. (Bauman, 2013).<\/em><\/p>\n<p>Num contexto extraordinariamente ambivalente, as rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre os homens e mulheres em tr\u00e2nsito<i> <\/i>e os poderes dominantes, est\u00e3o impregnadas de um catastr\u00f3fico desequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Os movimentos de pessoas, em busca de zonas de conforto, bloqueiam a funda\u00e7\u00e3o de uma empatia identit\u00e1ria mais afetiva e efetiva com os lugares, os conceitos de morada e profiss\u00e3o permanente, d\u00e3o lugar \u00e0 vertigem provocada pela imin\u00eancia de um permanente <i>estar<\/i> em tr\u00e2nsito em busca de uma vida diferente e melhor<i>.<\/i> Pelo que o envolvimento, em processos coletivos que impliquem um compromisso com a comunidade a m\u00e9dio e longo prazo dificilmente ocorrem.<\/p>\n<p>A inibi\u00e7\u00e3o em curso, decorrente do <i>estar<\/i> de passagem, promove a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es de responsabilidade c\u00edvica entre as pessoas e os lugares por onde passam, os conceitos de resid\u00eancia e de comunidade surgem apenas em jeito de lembran\u00e7a saudosa, pontual e esporadicamente.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas que definem este tempo dif\u00edcil em que estamos submersos encontram-se disseminadas pelo vasto e diversificado territ\u00f3rio mundial, t\u00eam caminhado no sentido de normalizar as virtudes e agudizar os problemas, convertendo dist\u00e2ncias em proximidades, redefinindo periferias e centralidades, introduzindo novos conceitos de vizinhan\u00e7a. Esta longa, agreste e predadora empreitada tem avan\u00e7ado contra tudo e todos aqueles que, de alguma forma, tentam obstaculizar a voracidade dos modelos delineados pelos poderes institu\u00eddos.<\/p>\n<p>Este processo de facilita\u00e7\u00e3o da aproxima\u00e7\u00e3o global, apresenta-se sedutor e fascinante, os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos s\u00e3o fortes aliados, pois efetivam e reduzem dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas de modo vertiginosamente acelerado, no entanto, o conjunto de atributos positivos proporcionados pelo processo de normaliza\u00e7\u00e3o globalmente imposto \u00e9 amplamente ultrapassado por uma imensid\u00e3o de aspetos negativos, de consequ\u00eancias tr\u00e1gicas para a vida das popula\u00e7\u00f5es em todo o planeta, que nos tem conduzido a um novo totalitarismo, o <i>Globalitarismo<\/i>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9, de certa forma, o \u00e1pice de internacionaliza\u00e7\u00e3o do mundo capitalista. (Santos, 2000)<\/em><\/p>\n<p>Milton Santos, controverso Ge\u00f3grafo Brasileiro, refletindo sobre os processos que t\u00eam originado a dr\u00e1stica degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria dos indiv\u00edduos, identificou a tirania global do dinheiro e da informa\u00e7\u00e3o como principais respons\u00e1veis, no entanto, considera que as sequelas, associadas ao empobrecimento crescente das massas, poder\u00e3o assumir formas de transforma\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1veis, pelo que acreditou existirem condi\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o de Uma Outra Globaliza\u00e7\u00e3o, tema explorado pelo autor num livro assim intitulado.<\/p>\n<p>Esta an\u00e1lise \u00e9 partilhada por um conjunto de pensadores os quais, com a tenacidade do seu trabalho, v\u00e3o oferecendo resist\u00eancia \u00e0 crescente vontade, dos poderes institu\u00eddos ao servi\u00e7o do mercado capitalista neoliberal, de fazer vingar o pensamento \u00fanico. A persist\u00eancia, a coragem e a solidez dos argumentos veiculam uma mensagem de extrema preocupa\u00e7\u00e3o para com as lament\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de vida de uma grande maioria da popula\u00e7\u00e3o do mundo financeiramente globalizado. A possibilidade de reverter os processos de degrada\u00e7\u00e3o da vida quotidiana das pessoas parece n\u00e3o ser vi\u00e1vel, o discurso global dominante veicula a impossibilidade de se repor o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Aqueles que s\u00e3o marginalizados pelas estrat\u00e9gias financeiras, as quais convertem o mundo num fren\u00e9tico e desumanizado mercado, poder\u00e3o assumir um papel interventivo e decisivo na mudan\u00e7a de rumo e na defini\u00e7\u00e3o de alternativas, numa tentativa de suprir aquilo que Boaventura Sousa Santos considera estar em falta \u201cum pensamento alternativo sobre as alternativas\u201d. (Sousa Santos, 2015)<\/p>\n<p><b>Implos\u00e3o espetacular da sociedade civil<\/b><\/p>\n<p>Diversas circunst\u00e2ncias t\u00eam contribu\u00eddo para a altera\u00e7\u00e3o das din\u00e2micas de envolvimento das popula\u00e7\u00f5es nos processos c\u00edvicos de tomada de decis\u00f5es.<\/p>\n<p>A fragilidade e a precaridade dos v\u00ednculos, profissionais, afetivos, geogr\u00e1ficos, entre outros, imp\u00f5em-se. As popula\u00e7\u00f5es em tr\u00e2nsito movem-se entre condi\u00e7\u00f5es de vida adversas, procuram adaptar-se aos modelos de vida em permanente transforma\u00e7\u00e3o. Neste enquadramento, as responsabilidades c\u00edvicas encontram-se suspensas, a participa\u00e7\u00e3o consciente nos processos c\u00edvicos, em prol da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil mais justa, informada, educada e equilibrada, encontra-se adiada.<\/p>\n<p>Esta suspens\u00e3o acelera o processo de dilui\u00e7\u00e3o da sociedade civil, enfraquecendo as hip\u00f3teses da organiza\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o de caminhos que se possam constituir como alternativas \u00e0s narrativas da desgra\u00e7a, impostas pelos discursos dominados pelos consensos autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Consequentemente, o espa\u00e7o esvaziado de interven\u00e7\u00e3o, em virtude da suspens\u00e3o do processo de participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica, est\u00e1 dispon\u00edvel para outras formas de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o social, fundada em contendas c\u00edvicas, \u00e9 colmatada pelos ajuntamentos de massas, espetacularmente concebidos, numa tentativa de corresponder \u00e0s necessidades individuais associadas ao estar entre os outros, e o envolvimento na defesa coletiva de causas comuns.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A aliena\u00e7\u00e3o do espetador em proveito do objeto contemplado (que \u00e9 o resultado da sua pr\u00f3pria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive: quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e o seu pr\u00f3prio desejo. A exterioridade do espet\u00e1culo em rela\u00e7\u00e3o ao homem que age aparece nisto, os seus pr\u00f3prios gestos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o seus, mas de um outro que lhos apresenta. (Debord, 2003)<\/em><\/p>\n<p>Guy Debord em 1967, em reflex\u00e3o sobre a \u201cSociedade Espet\u00e1culo\u201d, referiu que ela ter-se-\u00e1 instalado em diversas dimens\u00f5es da vida social; desde ent\u00e3o o poder espetacular concretizou-se de modo abrangente, os lugares, anteriormente dedicados a manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, v\u00e3o sendo ocupados por demonstra\u00e7\u00f5es de espetacularidade, frequentemente ligeiras e folcl\u00f3ricas. Esta ocupa\u00e7\u00e3o tem sido contagiante e apresenta a possibilidade de qualquer um poder ser o espet\u00e1culo e brilhar, ainda que momentaneamente, num improvisado palco, com direito a uma vasta e impetuosa audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios assim ocupados ser\u00e1 poss\u00edvel agir\/intervir de forma a suspender o processo, aparentemente irrevers\u00edvel, de \u201csubmiss\u00e3o\u201d \u00e0s regras da espetaculariza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o de um ambiente de festa permanente, onde existe sempre algo para celebrar ou festejar, ocorre sob a \u00e9gide de planos de recupera\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria, reabilita\u00e7\u00e3o, m\u00faltiplos sin\u00f3nimos para uma inten\u00e7\u00e3o \u00fanica, descaraterizar espa\u00e7os e objetos em prol da constru\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios sedutores e repletos de mem\u00f3rias feitas \u00e0 medida. Nesse sentido, \u00e9 de referir a pertin\u00eancia da abordagem dos autores Lipovetsky e Serroy, ao consideraram que \u201c\u2026 o patrim\u00f3nio \u00e9 reformado, reabilitado, e quando n\u00e3o satisfaz suficientemente as exig\u00eancias da apar\u00eancia, n\u00e3o se hesita em construir o falso antigo. A cidade-museu \u00e9 uma cidade limpa, maquilhada, protegida, oferenda aos prazeres est\u00e9ticos das multid\u00f5es tur\u00edsticas: ela constitui a apoteose urbana do processo de estetiza\u00e7\u00e3o hipermoderna do mundo.\u201d (2014).<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social t\u00eam sido c\u00famplices desses processos de espetaculariza\u00e7\u00e3o, promovendo a mediatiza\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios vulgares, banais e acess\u00f3rios onde o cidad\u00e3o comum \u00e9 o principal <i>ator<\/i>, preenchendo assim, uma parte significativa das agendas de programa\u00e7\u00e3o de canais televisivos, da imprensa escrita, etc. Os processos de h\u00edper exposi\u00e7\u00e3o da vida particular e \u00edntima desses atores<i> <\/i>t\u00eam sido recorrentes, a renova\u00e7\u00e3o dos modelos e formatos de exibi\u00e7\u00e3o tem sido constante, de forma a manter elevados os n\u00edveis de atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As redes sociais assumiram tamb\u00e9m um papel determinante nesse contexto, criando um novo espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00e3o, onde a agilidade e instantaneidade dos procedimentos operativos rapidamente convertem um an\u00f3nimo em \u201ccelebridade\u201d. Numa curiosa e pol\u00e9mica abordagem a estas tem\u00e1ticas, Byung-Ghul Han em \u201cA Sociedade da Transpar\u00eancia\u201d, considera que \u201co exibicionismo e voyeurismo alimentam as redes enquanto pan\u00f3ptico digital (\u2026) A sociedade do controlo consuma-se onde o seu sujeito se desnuda n\u00e3o por coa\u00e7\u00e3o externa, mas por for\u00e7a de uma necessidade gerada em si pr\u00f3prio, ou seja, quando o medo de ter de renunciar \u00e0 sua esfera privada e \u00edntima cede \u00e0 necessidade de se exibir sem vergonha\u201d. (2014).<\/p>\n<p>N\u00e3o se pretende adotar uma leitura condescendente relativamente do comportamento do cidad\u00e3o comum que decide espontaneamente, aderir a estes processos de mediatiza\u00e7\u00e3o\/ espetaculariza\u00e7\u00e3o massiva, procura-se sim compreender o que alimenta a sua motiva\u00e7\u00e3o e o seduz.<\/p>\n<p>Os fen\u00f3menos de sedu\u00e7\u00e3o t\u00eam feito um percurso not\u00e1vel, encontram-se em acelerada transmuta\u00e7\u00e3o, reinventam constantemente a forma como se apresentam, Guy Debord, em finais da d\u00e9cada de 60, debatia-se com a an\u00e1lise das transforma\u00e7\u00f5es em curso, considerando que \u201ca origem do espet\u00e1culo \u00e9 a perda da unidade do mundo (\u2026) O que une os espetadores n\u00e3o \u00e9 mais do que uma rela\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel com o pr\u00f3prio centro que mant\u00e9m o seu isolamento. O espet\u00e1culo re\u00fane o separado, mas re\u00fane-o enquanto separado.\u201d (2003).<\/p>\n<p>Esse processo, de perda de unidade do mundo, onde os espetadores s\u00e3o reunidos em fun\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios associados ao mundo do <i>show <\/i>permanente, ainda se encontra em acelerada expans\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o das potencialidades decorrentes das sinergias estabelecidas pela a\u00e7\u00e3o coletiva concertada, continua a suceder, quase apenas e s\u00f3, para dar origem a eventos onde se promove a banalidade, superficialidade e frivolidade dos encontros, momentos que \u201c\u2026espelham os des\u00edgnios desta civiliza\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo que nos habituamos a aceitar com passiva indiferen\u00e7a.\u201d (Chafes, 2012)<\/p>\n<p>Em nome dos poderes e das for\u00e7as misteriosas<i> <\/i>institu\u00eddas, envolvem-se as popula\u00e7\u00f5es em encontros dedicados a um suposto exerc\u00edcio de cidadania, envolvidos pela promessa da experimenta\u00e7\u00e3o de um conjunto de sentimentos esfusiantes capazes de lavar as almas e aliviar consci\u00eancias. Os momentos banais da vida quotidiana dos cidad\u00e3os an\u00f3nimos s\u00e3o fonte de inspira\u00e7\u00e3o para novelas medi\u00e1ticas espalhafatosas, acompanhadas por milh\u00f5es de atentos, motivados e alienados f\u00e3s.<\/p>\n<p>A mediatiza\u00e7\u00e3o espalhafatosa ocorre em ritmo fren\u00e9tico e acelerado, apresenta-se como um jogo aparentemente acess\u00edvel e bastante sedutor, uma transfer\u00eancia do exerc\u00edcio da cidadania ativa. Nela se esgota a responsabilidade e a participa\u00e7\u00e3o social, de uma extensa maioria da popula\u00e7\u00e3o. Multiplicam-se os acontecimentos de car\u00e1cter sensacionalista, programados, que disciplinam e conduzem \u00e0 sistematiza\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da passividade e da indiferen\u00e7a. Em \u201cA Sociedade do Cansa\u00e7o\u201d Byung-Chul Han, fil\u00f3sofo de nacionalidade coreana, pol\u00e9mico e provocador, considerado uma das vozes filos\u00f3ficas mais inovadoras da atualidade na Alemanha, referiu que \u201co cansa\u00e7o da sociedade de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 um cansa\u00e7o individual que separa e isola\u201d (2014a, p.52), a suspens\u00e3o dessa separa\u00e7\u00e3o e isolamento acontece, de forma calculada, para dar lugar a megaeventos, momentos de hiper-socializa\u00e7\u00e3o em prol de \u201ccausas comuns\u201d, promovidos pelas autodenominadas ind\u00fastrias criativas, financiadas por rent\u00e1veis opera\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas sombrias, onde se celebra a magia do encontro, do coletivo, em jeito de catarse <i>non sense<\/i>.<\/p>\n<p>\u201cFormas alternativas de vida limitam-se a despertar um tipo de interesse de espetador perante um espet\u00e1culo de variedades cintilante e apimentado (\u2026) mas t\u00e3o pouco um sentimento de camaradagem;\u201d (Bauman, 2007, p.283). As entidades impulsionadoras do espet\u00e1culo conhecem minuciosamente os comportamentos sociais dos indiv\u00edduos, percebem a import\u00e2ncia da \u201ccamaradagem\u201d, pelo que gerem meticulosamente os elementos, para envolver os participantes numa dimens\u00e3o l\u00fadica e \/ou solid\u00e1ria que lhes proporcionar\u00e1 um sentimento de \u201cdever cumprido&#8221;.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nia Marques<br \/>\n(In, &#8220;Em tr\u00e2nsito, pela Cria\u00e7\u00e3o de Lugares Indisciplinados&#8221;, 2015)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imperman\u00eancias Geogr\u00e1ficas No final dos anos oitenta e in\u00edcio dos anos noventa, os acontecimentos pol\u00edticos conduziram a uma desintegra\u00e7\u00e3o da ordem mundial (\u2026) A ordem anteriormente vigente est\u00e1 a ser substitu\u00edda por tend\u00eancias de globaliza\u00e7\u00e3o, com efeitos em todo o mundo, causando o surgimento de novas cartografias mentais e assim exigindo sistemas de coordenadas radicalmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,6,8,35,1],"tags":[],"class_list":["post-960","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-apontamentos-do-avesso","category-cadernos-de-projecto","category-exercicios-graficos","category-intransit","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=960"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":968,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960\/revisions\/968"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}