A falta de Educação que aproxima os candidatos presidenciais!

Presidenciais

O cenário político atual é o espelho de uma tragédia cívica: de um lado, o candidato da extrema-direita que capitaliza o caos; do outro, o candidato ao sistema, apoiado por uma coligação de anjos e demónios unidos numa suposta frente de salvação. Dizem querer salvar a democracia, mas de que democracia falam eles afinal? Certamente aquela que roubaram ao povo para entregar à gula do mercado capitalista, onde o direito à saúde, à habitação e, sobretudo, à Educação, se viu alienado e convertido em ativo financeiro – um resíduo burocrático onde o compromisso com a dignidade humana foi revogado em favor do lucro de poucos.

É neste cenário de espoliação que a Educação emerge e se faz notar pela ausência a que foi remetida, em sede de campanha eleitoral, por ambos os candidatos à Presidência da República. Esta obliteração não é um lapso, mas a prova de que Ventura e Seguro talvez tenham mais em comum do que aquilo que professam! Afinal, o populismo autoritário e a bonomia do sistema partilham o mesmo interesse vital: uma sociedade despojada de cidadãos praticantes. O primeiro precisa da aridez intelectual para que o seu messianismo de rasto floresça sem o estorvo do pensamento; o segundo necessita do alheamento cívico para continuar a liquidar, por via administrativa, o que resta do serviço público.

Este silêncio é, na verdade, um pacto de não agressão ao mercado: enquanto o país se entretém a discutir banalidades populistas à boca das urnas, os candidatos optam pela via do esquecimento estratégico, deixando a escola em agonia entregue aos delírios ultraliberais de um Ministério da Educação rendido ao pecado do Capital!

Enquanto o país se enreda em intrigas nascidas e criadas nas redes sociais e assiste, atónito, à multiplicação de sondagens a gosto, o governo dilapida o Estado, abdicando da sua função magistral para actuar como mero promotor de contratos privados. A progressiva externalização de serviços educativos e a deriva da municipalização são os braços operacionais deste projeto: o Professor – detentor do saber científico e da independência pedagógica – vê-se secundarizado pela figura do ‘facilitador’ de conteúdos breves ou pelo técnico de intervenção moldado à medida do poder local. 

Assistimos à derradeira e generalizada mercantilização das funções do Serviço Público de Educação, onde o rigor académico é preterido em favor de pacotes de ‘competências’ transversais e coreografias de propaganda política. O crime é silencioso, mas profundo: o erário público, que deveria fixar quadros e regenerar a escola, é canalizado para financiar consórcios de empreendedorismo social, condenando o destino das gerações vindouras à clausura intelectual, desenhada por quem despreza a responsabilidade soberana de educar para a liberdade.

Face ao crime e aos castigos que o MECI tem vindo a decretar, sob a complacência de um silenciamento presidencial absoluto, poderá o cidadão praticante dar-se ao luxo de acreditar num futuro Seguro? Não creio. E desconfio que a única forma de derrotar a clausura cívica em que nos querem encerrar será replicar, sentenciando: ausência com ausência se paga – acrescentando o quadrado da alternativa e da esperança ao boletim de Voto.

Antónia Marques

(ilustração de Pedro Brito)

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