A PORCA DECADÊNCIA DAS MISERÁVEIS ELITES CONTEMPORÂNEAS

[“não sei”, “não me lembro” ou “ não guardo memória” são os depoimentos que mais se ouviram nesses dias sujos]

A coragem estóica dos resistentes abnegados, que lutaram árdua, penosa e longamente pela libertação do chão lusitano da tirania, da opressão e da bufaria-mesquinha a que estava sujeito, é uma herança coletiva que muitos resolveram declinar. A revolução operada por esses guerreiros exauridos, que pisavam a medo o chão de todos os dias, foi uma conquista honrada, que abriu as portas à concretização de sonhos antigos. A voz, a visibilidade e a dignidade, estiveram efetivamente, durante um curto lapso de tempo, ao alcance de todos mas, infelizmente, o lapso terá sido demasiado curto, num ápice o solo luso viu-se de novo tomado pela gula porca e oportunista de indivíduos-camaleão, hiper-dotados em inovadoras técnicas de explorar e ludibriar os camaradas-cidadãos.
A dita gula, que por motivos diversos, terá adquirido proporções colossais, é a Porca Decadência das Miseráveis Elites Contemporâneas, descrita com austeridade (e ironia bastante) nas palavras aqui apresentadas.

Num tempo recuado, pretérito mais-que-imperfeito, a suave deposição do regime autoritário, traduziu-se numa branda condenação dos crimes e atrocidades perpetrados pelos tiranos. A falta de uma veemente penalização terá, certamente, contribuído para a criação de condições favoráveis à implantação de um oportunismo progressista que, a longo prazo, viria a a ser responsável pelo enfraquecimento do potencial libertador da revolução dos cravos, desenhada nas trincheiras da clandestinidade por resistentes abnegados.

Rápida e agilmente, um rol de gente astuta, proveniente de fileiras diversas, terá entendido o alcance desse potencial, pelo que, imbuída de uma ambição individual desmedida, reformulou currículos, reciclou princípios, deixou para trás camaradas e amigos, renovou objetivos e adaptou a personalidade às oportunidades criadas pelo esvaziamento revolucionário das instituições.Essa malta oportunista – auto-proclamados peritos da democracia – que tomou conta dos postos de controle e vigia, onde encaixou os seus gangs de confiança, filhos pequenos e restantes famílias, é a génese das miseráveis elites da contemporaneidade.

Gente ardilosa, à data considerada credível, vilipendiou em seu benefício, a esperança e o sonho coletivo, declarou-se capaz de transformar a revolução em democracia quando, na realidade, pretendia dedicar o ímpeto transformador à privatização da liberdade.
Infelizmente, a privatização desse essencial bem comum não terá sido ato isolado.Outros direitos cívicos fundamentais terão sido igualmente alienados, pelos recém-empossados peritos da ocasião, hábeis nas técnicas de ludibriar e explorar a ignorância do camarada-cidadão. Esses contratos de concessão, redigidos com um palavreado insidioso, sobre papel manchado de sôfrega ambição individual, converteram-se, desgraçadamente, em letra fundadora de um Estado-Apático despojado de direito e dotado de uma democracia eternamente embrionária, progenitor do atual Estado das Coisas da governação e da administração pública em Portugal!

Para assegurar o sucesso dessa treta, que tomou conta do Estado, essa malta miserável apropriou-se de todos os buracos públicos, fincou os pés no chão bafiento, mandou erguer paredes e muros altos, transformou as cavidades esconsas em instituições e organismos públicos, consagrados à proteção dos seus delírios privados. A distribuição furtiva desses protectorados decorreu com astúcia, certa malta em re-torno, foi acomodada em função das (in)competências que havia adquirido nas ultramarinas colónias de férias e nos suaves exílios compartilhados nas capitais europeias, onde aguardaram pela oportunidade mais conveniente para re-tornarem à terra.

A repartição dos lugares cimeiros foi celebrada, pelos premiados camaradas da treta, com música de intervenção, discursos inflamados e cravos vermelhos, a malta rejubilou por ter encontrado o seu posto de comando no meio da revolução. A generalidade da população, que desconhecia os reais motivos da celebração, foi obrigada a participar nas festividades, viu-se forçada a garantir os comes, os bebes, o entretenimento e a limpeza das instalações.

Os pretensiosos peritos da revolução assumiram, no decurso das festividades, as suas cátedras e, num ápice, constituíram as elites que tomariam conta da ocasião daí em diante. Esse sorteio milionário ficaria indelevelmente inscrito na agenda dos eventos que atormentam o cidadão durante o ano inteiro.

Os postos de comando (ex-instituições do regime autoritário) ocupados furtivamente por essas elites da ocasião, converteram-se progressivamente em domínios privados, dedicados à proteção das linhagens emergentes e ao esbanjamento do dinheiro público. A sua gestão foi conduzida de forma extraordinariamente gravosa, os recursos pecuniários do povo foram enterrados, com pompa e circunstância, nas fundações desses novos impérios privatizados.

Esses gestores agiotas – designação atribuída aos camaradas do ramo da contabilidade familiar, que assumiram a liderança das elites da ocasião – e suas obesas linhagens, afeiçoaram-se às novas moradas, decoraram a gosto paredes e tectos, transformaram os gabinetes em decadentes quartos privados, em virtude do aumento dos agregados, contrataram reputados contrabandistas para adulterarem os títulos, os brasões e as insígnias, que mandaram afixar nos frontispícios dos protectorados. Tudo correu de feição a essas elites oportunistas, nessa fase de re-decoração dos novos impérios, até os filhotes contribuíram para o regozijo imperial, brincando afincadamente com os seus jogos de poder sob as mesas de reunião.

A assunção dos postos de comando não garantiu, no entanto, à malta elitizada o estatuto social que tanto almejavam, tal objetivo só seria concretizado após uma série de modificações genealógicas, durante as quais os cirurgiões operaram verdadeiros milagres, conseguiram substituir as reminiscências e as origens modestas por apelidos vintage contrafeitos, contribuição preciosa para que a malta pudesse alcançar a visibilidade social, apanágio, até então, exclusivo das clássicas figuras da alta sociedade.
O processo de adulteração consolidou o estatuto social das linhagens emergentes que, por essa via, acederam ao restrito clube das celebridades públicas. Esse privilégio, estrategicamente fundamental, garantia total imunidade às responsabilidades inerentes aos danos provocados pela usura das suas práticas administrativas. Essa regalia especial incrementou o poder e os devaneios dos gestores agiotas, aumentando desmesuradamente o fosso que os separava do resto do povo, sobre o qual fizeram cair os seus mantos de invisibilidade.

As elites, convertidas em celebridades da ocasião, ampliaram progressivamente as suas áreas de influência, instalaram sucursais dos seus impérios em todos lugares sobranceiros, da arte à política, da magistratura aos negócios, nada terá escapado ao seu domínio. Disseminaram vorazmente, pelo território habitado da nação uma luz incandescente, que transportava o desejo de aumentar o poder, a influência e o lucro. Reza a história que, a intensidade desregrada da luz, terá provocado graves problemas de visão às populações onde instalaram os obesos domínios.

A ampliação desses domínios, decorreu com serena tranquilidade, a distribuição das áreas de poder e influência saciou, numa fase embrionária, a gula das elites contempladas. Esse consenso inicial seria, no entanto, abalado por divergências insanáveis, motivadas por um extenso e complexo rol de conflitos imprevistos, onde se inscrevem a trapalhada provocada pelo súbito e acelerado aumento das proles elitizadas, e a desregulação social, felizmente desencadeada pela massificação do ensino.

A crescente conflituosidade gerou uma corrida desenfreada à gestação de novos domínios – organismos mutantes, consagrados em exclusividade à criação de riqueza capaz de proporcionar suntuosas regalias às elitizadas gerações vindouras. Emergiram assim inúmeros recintos, nomeados pela malta da treta, a quem jamais terá escapado o dom da palavra adequada à ocasião – institutos, fundações, casas temáticas, grémios, confrarias, ministérios, secretarias de estado, organizações não governamentais, entre muitos outros, são os letreiros criados à medida – a malta continuava capaz, embora elitizada, preservara intacto o jeito para a produção lírica.

Apesar de terem sido gerados num contexto de pressupostos estratégicos idênticos, o crescimento desses organismos mutantes, ter-se-á processado de forma divergente, tal disfunção orgânica traduziu-se na Grande Disputa, responsável pela abertura das contendas que iria desencadear a Porca Decadência das Miseráveis Elites Contemporâneas (PDMEC).

Os termos da edificação do Estado-Apático, exarados em manhosos acordos, firmados entre os camaradas da treta, tornaram-se progressivamente desajustados à insaciável ambição das partes envolvidas, pelo que a quebra desses ardilosos pactos, fez eclodir um sem número de porcarias, que em muito terão contribuído para a ignomínia da Disputa.

Disse o povo, que assistiu à PDMEC, sufocado pelo manto de invisibilidade, que a soberba se terá instalado nas fundações dos impérios, o que terá abalado os processos de crescimento, gerando graves anomalias, possíveis de observar a olho nu, uns organismos engordaram, outros ganharam altura desmesurada, certo é que a demarcação dos domínios privados foi barbaramente violentada. A cobiça fez colapsar o Reino do Estado-Apático!

A soberba e a cobiça provocaram enormes danos, os miseráveis líderes desses impérios desavindos viram-se impelidos a pedir auxílio externo, pois internamente não tinham como resolver a Grande Disputa, em virtude de terem esbanjado todos os recursos do Povo. A intervenção do estrangeiro não tardou, não consta que tenha resolvido o colapso do Reino, mas não há dúvida de que terá restaurado os impérios.

A PDMEC foi, entretanto, agravada pela participação desregrada dos descendentes da malta elitizada, jovens imbecis experientes em técnicas de gestão de mesadas colossais, dedicaram-se hostilmente à Grande Disputa. Não toleravam a possibilidade de verem reduzidos os suntuosos privilégios e regalias a que haviam sido habituados. As brigas indecorosas entre esses miúdos elitizados, treinados pela ambição dos pais e pela treta das mães, fizeram aumentar significativamente as contendas imperiais, consta que essa conflituosidade jamais terá sido sanada.

As consequências dessas infames desavenças fazem-se sentir em todos os cantos do colapsado Reino, de forma mais ou menos sórdida, a PDMEC instalou-se no quotidiano do Estado-Apático, é tema central de descaradas intervenções em espaço público. A brutal ausência de qualidade e carácter dos intervenientes nessas peripécias, tem provocado a disseminação de uma fatal decadência estrutural, que tem feito minguar a relevância social do intelecto.

A generalidade da população, habituada a viver em condições precárias, assiste consternada a esse espetáculo medonho, foi domesticada para se sentir impotente e convencida de que não tem poder para recuperar o Reino, pelo que continua a caminhar desorientada e a assistir calada à épica Degradação das Elites em Rebelião.

O Reino do Estado-Apático, sepulcro de uma revolução sufocada por egos mesquinhos, foi miseravelmente convertido por decadentes elites, num território civicamente inóspito e conspurcado, onde o cidadão se vê obrigado a viver apartado da cidadania. Apenas as almas venturosas, dotadas de uma extrema ironia, conseguem resistir às façanhas dessa medonha tortura contemporânea.
O indivíduo comum – ser não-elitizado, que aspira viver em liberdade a cidadania – que tem a má fortuna de nascer nesse miserável Reino, está condenando a conviver com a Porca Decadência das Miseráveis Elites Contemporâneas toda a sua vida!

a PDMEC
pela camarada-cidadã
Antónia Marques
abril de 2019

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *