A GREVE e a VOZ da Monodocência, à porta da AGSE

15 de junho – a Situação

No dia 15 de junho de 2026, os professores do Pré-Escolar e do Primeiro Ciclo, unidos pelas dores laborais num amplo Movimento coletivo de denúncia e protesto, afirmaram publicamente a gravidade do abuso que se abateu sobre as suas condições de trabalho, dando corpo a um robusto dia de Greve.

O diagnóstico da situação laboral, traçado por mais de 7000 monodocentes entre 27 de fevereiro e 4 de março de 2026, colocou em evidência as malfeitorias que abalam o seu desempenho profissional. O detalhe, o conteúdo e a dimensão territorial da participação não deixam margem para dúvidas: o Direito à Educação na Infância está em causa, em virtude da adulteração da matriz profissional e do desvio das funções sociais de que são vítimas os monodocentes.

Face à inoperância da tutela e à dimensão da tragédia ilustrada pelos dados e evidências recolhidos, a monodocência – consciente de que um dia a mais sem soluções é um dia a menos de Educação a sério na vida de cada criança – não se conforma e persiste na denúncia. Entre os mil e um problemas que tem em mãos, encontrou forma de organizar uma Greve revestida de especial simbolismo. O dia 15 de junho foi escolhido por assinalar o momento em que terminam as aulas para quase todos os alunos, com exceção dos mais novos. A Infância, por determinação do calendário escolar definido pela tutela, continuará no ativo, até quando Deus quiser, a aprender a soletrar calvário e a conjugar descaso com abandono.

Infância Suspensa

Nesse entretanto, a sala, quente ou fria, com ou sem amianto, com janelas maiores ou mais esguias, será a mesma do costume. O colega do lado a importunar, a t-shirt a pingar de suor após a pausa do lanche, a bata apertada, a mochila insustentável, os lápis rombudos, as canetas sem tampa e os livros cansados de tanto virar de página acusam o desgaste provocado pela extensão do ano escolar – imposto apenas para arrumar os miúdos em qualquer lado, para que o desregulado mercado de trabalho possa continuar a laborar e a esmagar o tempo das famílias.

Nas escolas da Pré e do Primeiro Ciclo, maioria das vezes longe da vista e do coração da Sede de Agrupamento, o tempo da infância permanecerá suspenso, refém de um circo de feras que despreza os direitos das crianças. Quinze dias são uma eternidade para quem anseia, sem saber, pousar a cabeça na areia da praia, mergulhar o corpo num banho de mar, repousar no colo da família e dedicar corpo e alma à meninice, sem testes, fichas ou calendários apertados. Quinze dias são um desatino!

Com o solstício de verão a pino, os infantes, a suar em bica, vão sentir na pele a crueza do impacto provocado pelo momento em que o Sol se apresenta em todo o seu esplendor. Vai ser lindo! Com salas a fumegar, paciência esgotada e o estio a entrar pelas janelas adentro sem pedir licença, caberá ao monodocente de serviço operar o milagre da multiplicação dos balões de São João e apelar aos santos restantes para aguentar a marcha até ao final do ano letivo. Vai ser mesmo lindo!

Enquanto a infância ferve num lume que a tutela ignora e que a generalidade da população recusa perceber, os professores e educadores, também eles mergulhados na agonia de um ano que se estende para além do infinito, são chamados a acrescentar mais funções ao seu extenuante martírio letivo! Às mil e uma tarefas que entraram pela escola dentro sem pedir licença e se instalaram às costas do monodocente, soma-se, neste prolongamento abusivo, a gestão do mapa das emoções ao rubro de miúdos e graúdos a quem sobra calendário escolar, mas escasseia um competente plano pedagógico de conclusão de ano letivo.

Alerta Geral – A Greve Não é um simulacro

O protesto dos professores da Infância, fundado num amplo processo de diagnóstico das adversidades profissionais que enfrentam, foi um aviso, uma espécie de sinalização à “CPCJ” sobre o abandono social e institucional de que são vítimas as crianças que frequentam a Pré-Escola e o Primeiro Ciclo e, por uma perversa cumplicidade de inerência, os seus próprios educadores e professores.

Quando a base do sistema sinaliza uma falha desta gravidade, é todo o edifício do Estado social que deveria tremer. Esta denúncia, vinda dos professores basilares – os obreiros da primeira infância, deveria despertar uma profunda crise de consciência coletiva numa sociedade que aceitou normalizar o depósito de crianças em salas insuportáveis e a fumegar para não perturbar a engrenagem económica. Devia ser o golpe final na hipocrisia de uma tutela muito mais lesta a escancarar as portas do Ministério aos negócios e às aventuras privadas, financiadas com dinheiros públicos, do que a pôr termo a calendários pedagogicamente insustentáveis onde fervem miúdos e graúdos.

Mas em vez do abalo institucional que a gravidade do aviso exigia, o que encontrámos nesse dia, em Lisboa, foi a confirmação, em diversos atos, do abandono institucional que tutela o setor e do destempo sindical que, perante a gravosa conduta ministerial, opta por ser compasso de espera ao invés de ser novo ritmo.

AGSE – Loja de Conveniência, inaugurada no Verão Passado por Fernando Alexandre

Absurdo à porta da Loja de Conveniência – AGSE

Especial relevância assumiu o infeliz episódio registado à porta do Ministério, atual sede da loja de conveniência – AGSE, criada pelo Ministro Fernando Alexandre. Não, não me refiro à indisponibilidade para dar voz e espaço às professoras que vieram de longe para proclamar as dores laborais de que padecem. Não, também não me refiro à greve agendada à pressa para justificar as faltas de docentes que já tinham esgotado os créditos horários para assistir a plenários e tribunas. Tão-pouco faço alusão à dispersão sindical, motivada por disputas de protagonismo que sobrecarregam os professores e aliviam a tutela. Não, de todo. Apesar de se constituírem como fortes candidatas, nenhuma dessas situações tem a força necessária para configurar o absurdo inscrito na cena que haveria de ter lugar na escadaria do Ministério, de costas para a multidão.

No decurso da tribuna pública, que a gestão de trânsito remeteu para debaixo da ponte, foi anunciada a deslocação de uma delegação sindical ao outro lado da rua, para entregar em mãos o caderno de reivindicações dos Monodocentes. Constituído o grupo, assim se fizeram à estrada, atravessaram a multidão e encaminharam-se para a porta do Ministério – ou melhor dizendo, AGSE, dado ser esta a placa que agora luz na parede do edifício da República Portuguesa.

Aí chegados, foram prontamente impedidos de aceder à escadaria pela força policial destacada para proteger a fachada ministerial da tribuna popular. Num claro e inequívoco gesto de soberba institucional, os polícias investidos de superpoderes tiveram o seu momento. Ali, alinhados num bloqueio institucional, numa clara demonstração da razão que assiste ao protesto dos Monodocentes, os agentes entregaram aos representantes dos professores o reflexo prático da infância negligenciada: uma educação que, ao falhar redondamente na humanização da formação, não lhes permitiu aprender a quem realmente devem deferência e respeito. O resultado dessa miserável engrenagem está à vista de todos – na hora de decidir de que lado está a razão, os agentes de segurança não vacilam: a razão está sempre do lado do “patrão”!

Mas a verdadeira humilhação, a consumação trágica daquela cena indecorosa, estava guardada para os minutos seguintes, expressando-se na coreografia de uma submissão intolerável.

Após uma espera longa e vigiada por uma reforçada equipa policial, lá surgiu a autorização para dar passagem ao grupo. Não consta que tenha sido apresentado qualquer pedido de desculpa pelo absurdo do bloqueio; não consta que alguém se tenha retratado da humilhação a que sujeitou o corpo docente, ali representado por aquela delegação. Ainda assim, sem qualquer lampejo de indignação, os representantes dos professores acederam a subir a escadaria do Ministério.

Porém, para mal dos pecados de toda uma classe, a submissão ao reino do Senhor Fernando não se fez em triunfo, tão-pouco mereceu a aclamação dos tribunos que assistiam debaixo da ponte. Lamentavelmente, a delegação perdeu o momento, não foi capaz de exigir na ação a valorização e o respeito que a dignidade da carreira docente exige – embora, por uma ironia soberba, essa mesma exigência estivesse bem estampada na indumentária de serviço que vestiam. O contraste era inequívoco: no tecido, o grito de revolta; nos passos que subiam a escadaria, a cabeça baixa de quem aceita que a humilhação institucional seja a nova forma de receber a classe docente.

Nem tudo o que Luz é Ouro, às vezes é só chapa e afronta em forma de AGSE

O palanque da sujeição 

No entanto, a cena não se finda por aqui. Transposta a primeira barreira – a policial, o cenário de submissão transferiu-se para o interior do edifício. No átrio daquela loja de conveniência a que agora chamam AGSE, a delegação sindical, e com ela toda a classe docente, deixou-se arrastar para mais uma longa e ultrajante afronta – 45 minutos de espera.

A ironia é requintada: quarenta e cinco minutos é, na maioria das escolas, a duração exata de um tempo letivo. O mesmo Ministro que se mostra incapaz de contar quantos milhares de alunos estão sem professores nas salas de aula conta, com precisão cirúrgica, os 45 minutos necessários para dar uma aula de submissão aos seus próprios profissionais. Mas, ainda assim, consumado o frete da entrega e digerida a humilhação no átrio, a delegação sindical regressou ao palanque exterior para partilhar com os restantes o sumário da ocasião.

Instalados na tribuna pública, os porta-vozes agarraram no microfone para reportar o balanço aos professores que ainda aguardavam pelo desfecho da deslocação. Erguendo o tom num registo de queixa burocrática, classificaram como “inadmissível” a espera dilatada a que tinham sido sujeitos, dado que a tutela fora informada, com duas semanas de antecedência, da intenção da entrega.

Contudo, sobre o facto de terem sido barrados à entrada pela força policial? Nem uma única palavra. Sobre a vergonha da calçada, que a imagem imortaliza, silêncio absoluto. Por alguma razão, que não foi proclamada, terá sido mais conveniente circunscrever o relato ao tempo de espera no átrio do que denunciar a prepotência e a arrogância do MECI, exposta e consumada à porta da Loja de Conveniência – AGSE.

A Emancipação que urge a transparência que incomoda 

Porém, apesar da vã e inglória espera em dois atos, o tempo ainda assim foi escasso para deixar aceder à tribuna (quase) pública quem pretendia partilhar a Voz e as dores laborais dos Monodocentes. E assim, somando bloqueios, estratégias antigas e argumentos requentados, foi dado a ver que não faltam razões para olharmos a Infância com outros olhos – quanto mais não seja para evitar que a vida adulta se torne assim, tão desinteressante.

A ironia maior deste encontro em espaço público reside no fatal desencontro entre a dimensão da urgência laboral – a emergência de um arrojado calendário reivindicativo – e as micro-panaceias ministeriais e sindicais que se arrastam ano após ano letivo.

Assim, sem rede, sem amparo e com elevada intolerância às fórmulas saturadas, os monodocentes demonstraram que, apesar de sós, não estão entregues à sua sorte. Lançaram as bases de uma greve cirúrgica, monitorizada ao minuto, colocando nas mãos de cada educador e de cada professor ferramentas de emancipação cívica e de transparência estatística — recolhendo e revelando em tempo real a dimensão coletiva de um protesto que não se compadece com as artimanhas do costume.

Apesar dos bloqueios e dos desencontros, o balanço do dia foi de uma eficácia tremenda. Por um lado, provou que o Luís Primeiro está redondamente desatualizado, pois os professores não ficaram na escola a dar aulas concentrados nas suas tarefas; por outro, expôs sem filtros o absurdo que habita Lisboa: uma tutela que humilha por decreto e capitaliza a exaustão alheia, uma força policial que se excede na ignorância cívica, uma liderança sindical cindida, cuja visão deixou de perspetivar o futuro, optando por viver de memórias passadas, e uma multidão barulhenta confinada ao espaço que o poder lhe reservou debaixo da ponte.

Na escadaria da AGSE, a porta fechada selou o verdadeiro simbolismo daquele 15 de junho: o Ministério demitiu-se da Educação e entregou o edifício à Agência, a quem cumpre apenas garantir que o depósito de crianças funcione e a engrenagem letiva se estenda, em lume brando, até ao limite das forças de miúdos e graúdos.

Antónia Marques

4 thoughts on “A GREVE e a VOZ da Monodocência, à porta da AGSE

  1. Excelente texto. Chega a ser : visual” de tanta clarezs. Só faltou dizer que nem todos foram barrados e esperaram à porta. Houve quem tivesse sido recebido de forma acolhedora e sem espera. Não foi no Meci/agse porque aí ja estivemos varias vezes com os resultados conhecidos. O dia 15 não acabou. Foi só o princípio….

  2. É pena este texto só relatar metade dos acontecimentos que levaram ao memorável dia 15. De facto o sindicato SPLIU encetou encontros com o MPM no sentido de ele se aliar à greve por si declarada, uma vez que um movimento cívico não pode decretar greves. A decisão da greve foi sim do SPLIU mas a seguir outras organizações sindicais optaram por lhe seguir os passos. Mas houve uma organização sindical que ousou desvirtuar o espírito da greve, com justificação de faltas a quem se quisesse arregimentar à porta da AGSE e, para quem já não tivesse horas para plenário, poderia optar em fazer greve. Em dia de greve não é ético justificar faltas. Ora a decisão do SPLIU, uma vez que todas as tentativas de diálogo com o MECI não tinham surtido efeito, seria uma concentração à porta do palácio de Belém, para a qual o MPM foi convidado, a fim de sermos recebidos por uma acessora do senhor Presidente da República, uma vez que ele não se encontrava no país, o que veio a contecer. Essa audiência aconteceu com entrega das nossas reivindicações e já no início de julho irá ocorrer nova reunião no palácio de Belém, com o acessor para a Educação, a fim de dar voz aos professores em monodocência sobre todos os problemas que os afetam. Esta concentração decorreu de forma ordeira e passífica e onde todos os docentes que nela quiseram participar foram bem acolhidos e respeitados. O SPLIU pugna pela sua independência politica, estando apenas ao serviço dos interesses de TODOS os docentes e , neste caso particular, dos docentes em monodocência.

  3. É pena este texto só relatar metade dos acontecimentos que levaram ao memorável dia 15. De facto o sindicato SPLIU encetou encontros com o MPM no sentido de ele se aliar à greve por si declarada, uma vez que um movimento cívico não pode decretar greves. A decisão da greve foi sim do SPLIU mas a seguir outras organizações sindicais optaram por lhe seguir os passos. Mas houve uma organização sindical que ousou desvirtuar o espírito da greve, com justificação de faltas a quem se quisesse arregimentar à porta da AGSE e, para quem já não tivesse horas para plenário, poderia optar em fazer greve. Em dia de greve não é ético justificar faltas. Ora a decisão do SPLIU, uma vez que todas as tentativas de diálogo com o MECI não tinham surtido efeito, seria uma concentração à porta do palácio de Belém, para a qual o MPM foi convidado, a fim de sermos recebidos por uma assessora do senhor Presidente da República, uma vez que ele não se encontrava no país, o que veio a acontecer. Essa audiência aconteceu com entrega das nossas reivindicações e já no início de julho irá ocorrer nova reunião no palácio de Belém, com o assessor para a Educação, a fim de dar voz aos professores em monodocência sobre todos os problemas que os afetam. Esta concentração decorreu de forma ordeira e pacífica e onde todos os docentes que nela quiseram participar foram bem acolhidos e respeitados. O SPLIU pugna pela sua independência política, estando apenas ao serviço dos interesses de TODOS os docentes e , neste caso particular, dos docentes em monodocência.

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