No dia 18 de julho de 2024, o Ministro Fernando Alexandre, ladeado por Alexandre Homem Cristo e Dantas da Cunha, anunciou ao país o Novo modelo de avaliação externa: avaliar melhor os alunos para os ajudar a aprender mais.
Entre essa data e o momento atual, muita coisa ruiu. Dantas da Cunha caiu na desgraça dos números, Homem Cristo virou facilitador oficial de negócios e promotor da filantropia capitalista e o Ministro, que continua sem saber com quantos professores se constrói uma canoa, acedeu a converter o Ministério em playground da Reforma de Estado, o que rendeu a Gonçalo Matias um ingresso para alucinar na web summit.
Lamentavelmente, e apesar do cadastro público e político, a credulidade de uns e a estratégia oportunista de outros foi suficiente para inflar o ego do senhor economista, que não se fez rogado e mudou o ramo do Ministério da Educação para algo mais adequado aos seus parceiros e interesses pessoais. Os resultados dessa empreitada ruinosa estão à vista de todos: o desmantelamento de equipas especializadas, sem célere e eficaz substituição, o bloqueio absoluto dos canais frequentes de comunicação com a tutela, sem alternativa credível, a farsa da Revisão da Carreira Docente, a incúria nas infraestruturas e, mais recentemente, a balbúrdia generalizada provocada pela desvairada entrega da Avaliação Externa ao lobby da digitalização.
É precisamente aqui que Fernando Alexandre, o demolidor desvairado, atingiu o apogeu da ruína provocada pelo seu mandato. A indecorosa gestão dos exames de 2026 é uma inequívoca obra de regime – com a rara virtude de unificar toda a comunidade escolar em torno de um colossal problema. O Senhor Ministro está, por isso, de parabéns. Esta trapalhada nacional conseguiu o milagre de reunir professores, diretores, alunos e encarregados de educação num inédito consenso: a partilha de um mal comum.
O Sr. Ainda Ministro operou esta convergência, não pelo diálogo, mas pelo horror perante o colapso logístico e ético do sistema. Engane-se, porém, quem julga que a tutela perdeu o controlo da situação. Não há aqui deriva; há uma determinação férrea em esticar a corda. O caos das plataformas e o desespero das escolas são meras lateralidades de um processo idealizado para celebrar negócios, faturar consultorias e escoar as verbas do PRR para os parceiros do costume.
Talvez por isso, o Ainda Ministro continue a apresentar-se ao país com a desfaçatez de quem considera não existir razão para alarme. Para a tutela, tudo corre de acordo com os planos. E quando a realidade ousa perturbar a ficção, Fernando Alexandre recorre ao cinismo habitual, alegando ser vítima da incúria dos Maneis e das Marias que ele próprio nomeou, ou da incompetência dos Diretores e Professores classificadores pelo “uso abusivo de agrafadores de dentes afiados”.
Face a este silêncio alheado, pergunta-se: por onde anda a ética e a responsabilidade deontológica dos professores? Aguardam serenamente pelas credenciais para aceder à indignação e ao protesto? Se à tragédia em curso corresponder a vossa cumplicidade, o Ministro poderá alegar, naquele jeitinho sobranceiro, num discurso repleto de escárnio, que a implementação é um sucesso. Afinal, terá conseguido converter a decência profissional em bolinhas e o futuro dos jovens em indecifráveis QR codes.
Na realidade, este Novo Modelo nunca esteve ao serviço da pedagogia. Serve, sim, para avaliar a permeabilidade da sociedade civil face ao absurdo e a elasticidade da carreira docente face à perda de direitos fundamentais. O que está em exame neste preciso momento é o limite da nossa dignidade coletiva. Ao tolerar que a avaliação pública seja vilipendiada desta forma, a comunidade educativa reprova, sem glória, no teste de maturidade democrática.
A verdade é que cada cedência acumulada, cada sujeição a ilegais serviços mínimos no passado funcionou como o ensaio geral para a impunidade a que hoje assistimos. Fomos nós que ensinámos o poder político a perceber que a submissão não tem limites. O resultado está à vista nesta inversão perversa: quando os professores paravam o país para defender a escola, eram rotulados como “criminosos que faziam reféns”; hoje, quando o Ministério bloqueia as plataformas, destrói a equidade dos exames e empurra a avaliação para prazos impossíveis, a propaganda ministerial responde é “a modernização a acontecer”.
O docente paga do seu bolso para trabalhar, enquanto a máquina burocrática finge que funciona. Não são os exames dos alunos que estão a ser salvos por este voluntariado coercivo; é a irresponsabilidade do Ministro que volta a escapar ilesa.
A cumplicidade com o regime tem agravado a indigência dos salários e a precariedade laboral, mas o pessoal docente continua disponível para acumular prejuízos. Com o advento do digital, o docente paga do seu bolso para trabalhar: o telemóvel, o computador, a internet, a luz e a habitação estão à disposição do Ministério para que a máquina burocrática finja que funciona. Madrugadas inteiras em frente a ecrãs bloqueados, itens que desaparecem no éter, critérios voláteis e a angústia indizível de saber que estão a validar notas à pressa, sob uma pressão temporal desumana que atenta contra a mais elementar justiça pedagógica.
Se os professores capitularem perante este voluntariado coercivo, não serão os exames que estarão a salvar, nem tão-pouco as expectativas académicas dos alunos. Estarão, sim, a financiar do próprio bolso e com a própria dignidade a irresponsabilidade de Fernando Alexandre, permitindo que o ministro saia – mais uma vez – ileso do meios dos escombros.
Perante a enormidade do que está em causa, urge tomar partido: Agir Já ou Calar para Sempre.
- Aos professores classificadores: Impõe-se a coragem da objeção de consciência. Validar o erro e forçar notas em plataformas disfuncionais não é proteger os alunos – é enganá-los. Chegou a hora de desligar o sistema. É tempo de parar as plataformas!
- Aos Diretores de Agrupamento: Reduzidos a meras correias de transmissão do Ministério, cabe-vos a responsabilidade histórica de dizer basta. Não sejam os facilitadores do colapso. É tempo de resistir à humilhação digital!
- Aos restantes professores: Exige-se o fim da cumplicidade passiva. A desvalorização de um é a desclassificação de todos.
Aqui chegados, já não há mais dias úteis para entregar ao desvario de Fernando: ou se exige a demissão imediata de quem arquitetou esta ruína, ou capitulamos em absoluto, sepultando em definitivo a ética, a moral e a deontologia docente!
Está na hora de entregar ao Ainda Ministro as credenciais de acesso à Demissão.
O dia 14 de julho é para sair à rua com as pautas na mão! Até lá, saibamos dizer NÃO.
Antónia Marques