MANIFESTO PELO DEVER DE RESISTIR AOS CAOS DOS EXAMES NACIONAIS 2026
Pode o Carmo cair, pode até a Trindade abanar, mas o Ainda Ministro jamais se há-de declarar culpado; tudo o que lhe é dado a ver, ele recusa e olha para o outro lado. Ainda assim, assegura com a desfaçatez habitual: “Nunca nenhum aluno será prejudicado.”
Porém, as garantias de Fernando Alexandre, assim como qualquer mentira, têm perna curtíssima e colidem violentamente com a realidade: os alunos JÁ estão a ser prejudicados!
E quem o confirma são os testemunhos dos professores classificadores, a quem coube a tarefa de apreciar, através dos ecrãs, como se extingue a credibilidade da Avaliação Externa, como se testa a elasticidade ética e deontológica dos docentes e como se estoura, por decreto e sem apelo, com as expectativas dos alunos no culminar do seu percurso escolar.
MÃES E PAIS CLASSIFICADORES / SUPERVISORES
No caso dos Professores Classificadores / Supervisores (PCS), com filhos envolvidos nos Exames Nacionais, esta agonia prolonga-se para dentro de suas casas, resultando numa dupla e perversa angústia. Por um lado, sob o pretexto do “cumprimento do dever”, os docentes sentem-se forçados a validar o caos, classificando itens a retalho numa plataforma experimental em constante colapso; por outro, com a mesma mão que obedece ao sistema, amparam a ansiedade dos próprios filhos enquanto aguardam pelo sorteio dessas iníquas classificações.
Estes PCS’s, simultaneamente pais e mães, sabem perfeitamente o prejuízo irreparável que resulta deste processo. Conhecem, por dentro, a engrenagem do descalabro e, ainda assim, até ao momento, manifestam uma incompreensível disponibilidade para cumprir a ordem de serviço, mesmo sabendo que o serviço não passa de um vergonhoso tratado de desordem. Haverá limite para esta anuência?

DEVER DE RESISTIR
Que raio de esperança vã passará pelas cabeças dos classificadores e dos supervisores, pais e mães de alunos classificados? Será que ainda não perceberam que a única forma de resgatar a integridade do processo de avaliação é parar a loucura digital em curso, alegando o direito à Resistência, consagrado no Artigo 21.º da Constituição da República Portuguesa?
Não quero, em momento algum, acreditar que a obediência à entidade patronal, clara e visivelmente desorientada, terá mais relevância do que a defesa do futuro dos próprios filhos.
Não, recuso acreditar nessa eventualidade, até porque a grande maioria dos pais e mães, hoje professores, outrora, enquanto estudante, terá tido a coragem de derrotar com veemência uma Prova Geral de Acesso (PGA).
Quem viveu esse período lembrar-se-á, com comoção, da insurgência e da justa contestação dos alunos contra as Provas Gerais de Acesso (PGA). Nessa altura, os estudantes, demonstrando um elevado sentido crítico, numa coordenação exemplar, recusaram a resignação: organizaram-se a partir da indignação partilhada, agendaram encontros, convocaram manifestações e ocuparam as ruas para gritar um inequívoco “Não” à PGA.
As grandes manifestações do ensino secundário, de Norte a Sul do país, ocorreram em fevereiro e março de 1992, logo após a realização das provas. A contestação foi de tal ordem que abalou os alicerces do Ministério da Educação, desgastando irremediavelmente o mandato do então Ministro Diamantino Durão e iniciando o processo de agonia da PGA, que acabaria por ser definitivamente abolida pela indignação estudantil.
Nessa mesma altura, a tutela, encurralada pela força das reivindicações, procurou remediar o descalabro recorrendo a um expediente governamental bem conhecido: a engenharia de resultados. Tentou, através de uma indecorosa alquimia classificativa, inflacionar as notas para comprar a paz social e sufocar a dignidade dos estudantes. Porém, essa manobra foi recusada e exposta em praça pública, servindo para evidenciar a injustiça do sistema e dar ainda mais força aos protestos.
Três décadas depois, perante o caos dos Exames de 2026, o perigo de o MECI recorrer a este mesmo populismo de avaliação é iminente. Para abafar a balbúrdia que criou e calar a indignação das famílias, a tutela poderá sentir-se tentada a emitir recomendações informais para inflacionar artificialmente as notas. O país tem de estar alerta a este suborno de Estado: fingir que correu tudo bem distribuindo classificações ilusórias é o escárnio supremo. Não só mascara a incompetência ministerial, como destrói por completo o mérito e a equidade, nivelando por baixo o futuro de uma geração para salvar a face do Governo.
Caso o Ministério recorra, hoje, a esse mesmo expediente, qual será a resposta das famílias? Aceitar a humilhação de uma nota inflacionada para comprar o sossego imediato, ou denunciar o logro que corrompe a sua integridade e o futuro dos seus filhos? Se a escolha for a aceitação desse artifício, a geração que outrora derrotou a PGA consumará a perda da sua memória e do seu sentido crítico, esquecendo a obrigação de passar o testemunho vivo de como se enfrenta a injustiça provocada por um Governo prepotente. Aceder a esse suborno significa aceitar que a audácia de 1992 seja definitivamente substituída pela crença de que a submissão e o silêncio são as únicas vias com valor de mercado.
Quero acreditar que sobrou alguma centelha desse tempo. Recuperemos os registos da RTP Memória. Tenhamos a coragem de ver com atenção os vídeos que guardam essas manifestações de estudantes; resistindo à nostalgia, sejamos capazes de estabelecer a analogia com o presente. O que mudou verdadeiramente? Deixaram de existir motivos para desencadear a contestação ou terá a coragem sido desmaterializada e, tal como as páginas de continuação desta farsa digital, enviada para lugar incerto?

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/manifestacoes-de-estudantes-contra-a-pga
A ILUSÓRIA IMUNIDADE DE GRUPO
Num momento de fundamental relevância – em que a saga do caos nos Exames de 2026 aparenta não ter data para acabar, este abismo que separa a coragem de 1992 da passividade de hoje, assenta numa ingénua e perigosa crença numa espécie de imunidade de grupo. Há uma insurgência que se impõe, mas os mais incautos preferem apostar na ilusão de que, se a maioria aguentar o embate e a máquina continuar a andar, a inércia do grupo acabará por salvar as classificações do seu educando.
Contudo, sabemos bem que nesta matéria a imunidade jamais será garantida de forma equitativa. Ao apresentar a reapreciação de provas como a saída de emergência deste caos, o Ministério ultrapassa os limites da decência institucional para entrar, diretamente, no território da desonestidade moral. Empurrar o descalabro do sistema para o labirinto das reapreciações individuais significa, na prática, avançar para a desmaterialização dos danos. O Estado falha no coletivo, mas fragmenta o prejuízo, transformando o colapso técnico em milhares de tragédias individuais, onde a vida escolar de cada aluno fica suspensa numa plataforma em colapso e confinada ao isolamento de um ecrã.
Se tudo se encaminhar nesse sentido, o desfecho será cruel: o processo de salvamento será radicalmente diferente consoante a capacidade financeira e os conhecimentos legais dos encarregados de educação. Aqueles que pagaram milhares de euros em colégios privados e explicações de elite não vão ficar à espera da “alquimia burocrática” do Ministério. Nos bastidores, longe da cena mediática, movem-se já os procedimentos legais, os requerimentos cirúrgicos e os lóbis administrativos para blindar judicialmente as notas dos seus educandos.
A imunidade de grupo é um embuste temporal desenhado para que os filhos das famílias com parcos recursos paguem a fatura da incompetência digital, enquanto os mais afortunados garantem a sua salvação pela via da litigância discreta nos gabinetes e nos tribunais.
A PROTESTAR TAMBÉM ESTAMOS A EDUCAR
A “serenidade” recomendada pela tutela serve apenas para alimentar a ilusão de uma imunidade de grupo. Enquanto aceitarmos que o colapso do sistema será resolvido com o as reapreciações, cuja metodologia ninguém esclarece ou garante, o Ministério continuará a declinar responsabilidades. Fernando Alexandre decide tudo de forma autocrática: recusa o diálogo, decreta adiamentos unilaterais e ainda acusa as famílias de imprudência por terem agendado férias, pelo que, em última instância talvez tenha de ser ele a classificar as Provas dos Estudantes.
Aguardar passivamente por uma reapreciação individual – e pagar taxas por erros que não cometemos – é cair na armadilha de um Ministério que usa e abusa dos ecrãs para conter a indignação e ganhar tempo. A submissão a esta farsa digital é uma lição destrutiva. Que exemplo de cidadania estaremos a dar aos nossos filhos se perante esta injustiça permanecermos serenos, confinado que o sistema em colapso será capaz de, em data incerta, resolver o problema.
O tempo para aguardar serenamente por soluções está esgotado.
Perante a arrogância de quem governa contra a realidade, o silêncio é uma fatal conivência. Para vencer a desmaterialização da avaliação, temos de materializar a indignação. É preciso quebrar o cerco digital, erguido em torno do futuro dos estudantes, com a presença física: sair à rua, voltar às escolas, em PAPEL, para dar nota da indignação.
Esta resposta física exige o bloqueio do processo na origem, recusando fechar classificações sem atas de ocorrência digital. Exige a união presencial das famílias nas secretarias das escolas, formalizando a entrega de declarações de indignação, recusando taxas para pagar reapreciações evitáveis, transformando a angústia individual numa exigência massiva da resolução e reparação dos prejuízos provocados pelo Caos dos Exames 2026.
Exige-se, acima de tudo, honrar o legado de 1992, devolvendo a cidadania à rua.
O futuro dos estudantes não se delega a um algoritmo nem se resolve numa plataforma em colapso.
A protestar também estamos a Educar!
Antónia Marques